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Alguém tem dúvida da importância da mulher no agro?

por Rosi Ronquetti

em 11/03/2022 às 10h40

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Minha relação com o meio rural começa bem antes da primeira matéria que escrevi para um veículo do agro capixaba há seis anos. Criada no interior, presenciei, desde tenra idade, minha mãe saindo de casa bem cedo e voltando somente no final do dia. Aliás, vivenciei. Sem ter com quem ficar em casa, ia com ela e também passava o dia em meio às lavouras de café. Descobri ali que a mulher tem dupla e até tripla jornada de trabalho. Sim, ao chegar “da roça” era preciso fazer todas as tarefas de casa e cuidar de mim e dos meus irmãos. 

De lá para cá muitos anos se passaram e poucas coisas, daquela realidade vivida por minha mãe há mais de 40 anos, mudaram. A presença e a força feminina no campo continuam uma realidade. É o que demonstram os dados do Censo Agro de 2017 – o último lançado -, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Segundo a pesquisa, divulgada no final de 2019, o número de mulheres responsáveis pela gestão de propriedades rurais corresponde a 19% no país, com 946.075 unidades de um total de 5.073.324 estabelecimentos agropecuários – trata-se de um crescimento de 38% em relação ao Censo de 2006, indicando uma tendência de alta que pode se repetir nos próximos levantamentos. 

No início deste ano, tive a oportunidade de conhecer cinco mulheres rurais, de diferentes municípios do Norte e Noroeste do Estado, e ver de perto a força e a resiliência dessas mulheres. Em situação de pobreza ou extrema pobreza, elas foram contempladas pelo projeto Dom Hélder Câmara e receberam um incentivo financeiro de pouco mais de dois mil reais e assistência técnica do Incaper.  

Foi incrível ver como aquelas mulheres, até então “invisíveis” aos olhos dos órgãos de assistência rural, transformaram a realidade a sua volta. Você pode estar se questionando: um valor tão pequeno fez tanta diferença assim? Sim, fez. Renovou as esperanças. Fez com que elas entendessem que podem fazer diferente onde elas estão e com o pouco que tem nas mãos. 

Foi impressionante ver o brilho nos olhos de uma produtora com pouco mais de 500 pés de café sonhando em fazer café de qualidade e uma piscicultora planejando transformar o pescado do seu pequeno poço de pesca em filé, e assim agregar valor ao seu produto. 

Conto aqui essa experiência para dizer que os dados da pesquisa revelam o que vejo quase todas as vezes que saio a campo para apurar uma pauta. Elas estão na lida ao lado dos maridos, e sem eles. Estão no cultivo de hortas, na produção de café, na pecuária, na pesca, guiando tratores, transformando o que colhem em compotas, polpas e cafés especiais, comercializando seus produtos em feiras e entregando para redes de supermercados ou no Ceasa.   

Estão organizadas em cooperativas e associações, à frente de entidades importantes do setor, nos centros de pesquisas, desenvolvendo soluções, e nas redes sociais, mostrando o dia-a-dia do campo. Estão nos bancos das universidades se capacitando, se empoderando e fazendo a diferença na vida de toda família. Estão, enquanto mães, formando e incentivando a próxima geração de homens e mulheres do campo. 

Alguém ainda tem dúvida da importância da mulher no agro?