Mais lidas 🔥

Cafeicultura capixaba
Produtores rompem tradição e mudam realidade do café arábica no noroeste do estado

Agricultura
Setor do cacau: Faes chama atenção para riscos fitossanitários e práticas desleais

Secador a gás
Produtor do norte capixaba aposta em secador a gás para melhorar a qualidade da pimenta-do-reino

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 30 de janeiro

Novos mercados
Acordo entre Mercosul e União Europeia deve ampliar exportações capixabas

Minha trajetória no jornalismo do agro começou no Espírito Santo. Foi aqui, no Caparaó, mais precisamente em Guaçuí, que dei alguns dos meus primeiros passos profissionais contando histórias do campo, da produção e das pessoas que fazem o agro acontecer.
Um desses primeiros trabalhos foi a produção do jornal da Cooperativa de Laticínios de Guaçuí, a Colagua.
Moradora de Guaçuí, recém-chegada do Rio de Janeiro, não levei muito tempo para compreender a dimensão da Colagua para o município e para toda a região do Caparaó.
A cooperativa era mais do que uma indústria de laticínios: era um pilar econômico, social e simbólico.
Empregava dezenas de trabalhadores, garantia renda a produtores, movimentava a economia local e tinha, sobretudo, um quadro de cooperados comprometidos com a produção, com a qualidade e com o espírito cooperativista.
A Colagua nasceu de um tempo em que cooperar era uma estratégia de sobrevivência e de desenvolvimento. São mais de 70 anos de história construídos por produtores que acreditaram na força do coletivo.
Durante décadas, a cooperativa foi sinônimo de organização, qualidade e pertencimento. Seus produtos faziam parte do cotidiano das famílias da região, e sua existência ajudava a manter o produtor no campo, garantindo dignidade e previsibilidade de renda.
Ao longo dos últimos 20 anos, no entanto, o que se viu foi um processo lento e doloroso de enfraquecimento.
A decadência da Colagua não aconteceu da noite para o dia, nem pode ser atribuída a um único fator.
Ela foi sendo construída em meio a gestões marcadas por informações imprecisas, falta de transparência, comunicação falha e um distanciamento crescente entre a cooperativa, seus cooperados e a sociedade.
Como jornalista e como cidadã de Guaçuí, acompanhei esse processo com inquietação. Aos poucos, a cooperativa deixou de comunicar, de prestar contas, de explicar suas decisões.
O silêncio institucional foi ocupando o espaço onde deveriam existir dados, relatórios, diálogo e clareza. No lugar da informação, surgiram rumores. No lugar da transparência, boatos. No lugar do orgulho coletivo, frustração e desconfiança.
Hoje, em 2026, o que mais chama atenção não é apenas a situação da Colagua, mas a escassez de informações confiáveis sobre o que de fato aconteceu e sobre o que ainda acontece.
Para uma instituição com tamanha relevância histórica, o apagamento da comunicação é, no mínimo, preocupante.
A comunidade de Guaçuí e, principalmente os cooperados, ou ex-cooperados, merecem mais respeito, mais consideração e mais verdade.
O cooperativismo se sustenta em pilares muito claros: participação, democracia e transparência. Quando esses valores são enfraquecidos, toda a estrutura se fragiliza.
Cooperativa não é apenas um CNPJ, uma planta industrial ou uma marca. Cooperativa é confiança. E confiança exige comunicação aberta, prestação de contas e disposição para enfrentar erros e acertos com maturidade.
Não se trata aqui de apontar culpados ou alimentar narrativas de acusação. Trata-se de reconhecer que uma história tão longa e tão importante não pode terminar envolta em silêncio e desinformação.
São mais de sete décadas de trabalho, de contribuição para o desenvolvimento regional, de impacto direto na vida de famílias que produziram, trabalharam e acreditaram na Colagua.
A sociedade de Guaçuí espera respostas. Os ex-cooperados também esperam respeito. E a história da Colagua merece ser registrada com honestidade, clareza e responsabilidade.
Enquanto isso não acontece, fica a sensação de que um patrimônio coletivo está se perdendo não apenas por dificuldades econômicas ou de mercado, mas pela ausência do mais básico: o compromisso de informar.
Contar essa história não é um favor. É um dever. Vamos a ela!





