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Júlio da Silva Rocha Júnior foi reeleito presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Espírito Santo (Faes) na última segunda-feira (10). Com o resultado, ele permanecerá à frente da entidade durante a gestão 2026 a 2030. A eleição contou com a participação de todos os sindicatos rurais e definiu uma diretoria que, segundo Rocha Júnior, reúne experiência e jovens lideranças ligadas ao setor agropecuário.
A presença dessa nova geração deverá ser uma das marcas do próximo mandato. O presidente afirma que vai trabalhar ao lado dos dirigentes mais jovens e mulheres e compartilhar o conhecimento acumulado na Faes e na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ele também diz que não pretende concorrer novamente ao cargo depois de 2030 e que o processo de preparação de possíveis sucessores já está em andamento.
A nova gestão começará em um período marcado por desafios como o clima, o custo do crédito, a necessidade de ampliar o seguro rural, a escassez de mão de obra e a incorporação de novas tecnologias nas propriedades. Entre os projetos apresentados por Júlio Rocha está a criação do Instituto Faes, que deverá ampliar a capacidade de captação de recursos e de execução de projetos pela entidade.
Em entrevista à editora da Conexão Safra, Kátia Quedevez, o presidente falou sobre a participação dos jovens e mulheres na próxima gestão, as prioridades do novo mandato, o fortalecimento dos sindicatos, o El Niño, as tarifas dos Estados Unidos, a segurança rural, a tecnologia e a saúde dos produtores.
O que mais mudou durante o tempo em que o senhor está à frente da Faes?
O produtor mudou pouco, mas o perfil dos brasileiros mudou. O Brasil ainda tem uma cultura conservadora. E a nossa categoria tem algo que não deve ser tratado como adjetivo, mas como obrigação: ética, honestidade e transparência. O grupo que venceu, porque não fui eu sozinho quem venceu, é formado por pessoas de extremo valor, que observam e trabalham pelo bem comum.
Como a experiência acumulada pelo senhor será combinada com a participação dos dirigentes mais jovens?
Fui, durante três mandatos consecutivos, um dos vice-presidentes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, onde aprendi muito. Tudo o que colhi lá e aqui, somado à experiência adquirida, permite devolver aos nossos representados um serviço com mais qualidade. Ao mesmo tempo, temos presidentes de sindicatos jovens que vêm trilhando esse caminho conosco e adquirindo experiência.

Quais serão as principais novidades da gestão 2026 a 2030?
Nós já temos um planejamento elaborado, e uma das propostas é a criação do Instituto Faes. Por impedimentos legais, às vezes temos dificuldades para contestar determinadas questões ou alcançar alguns objetivos. O instituto deverá ampliar nossa atuação e reduzir restrições, especialmente em relação a verbas orçamentárias e à captação de recursos.
Como esses recursos poderão fortalecer os sindicatos rurais?
Existe o entendimento de que os recursos deveriam simplesmente ser distribuídos aos sindicatos, mas não é assim. Precisamos orientá-los para que trabalhem, façam entregas aos produtores e, dessa forma, sejam merecedores de conquistar os recursos. Eles não devem apenas ser agraciados.
Quais são hoje as principais entregas feitas pela federação aos sindicatos?
O Senar-ES tem um papel determinante. Por uma questão estatutária, o presidente da federação também preside o conselho do Senar. Esse é um exemplo de como os sindicatos podem se manter por meio das entregas, porque recebem valores pelos treinamentos realizados e pelas mobilizações. Quando a contribuição sindical rural deixou de ser compulsória e passou a ser espontânea, a arrecadação ficou quase nula. Considero que isso produziu um efeito positivo, porque obrigou sindicatos, federações e a CNA a saírem da caixa e promoverem ações capazes de impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da categoria que representam.
Na sua avaliação, o fim da obrigatoriedade ajudou a modernizar o sistema sindical?
Sim. Fez com que as pessoas se empenhassem mais e usassem a inteligência para conquistar os produtores. Os sindicatos precisam crescer. Infelizmente, alguns possuem poucos associados. Para conquistar novos associados, precisam prestar serviços. Se não houver entrega, o sindicato ficará com pouca representatividade.
A eleição teve a participação de todos os sindicatos. O que esse comparecimento representa?
Representa muito. Parabenizo o nosso grupo e também o grupo adversário. O nosso grupo se valeu de ferramentas que são obrigações: ética, transparência e valor. Há quem confunda valor com preço, mas são coisas diferentes. Fico preocupado quando dizem que o Júlio ganhou a eleição. Não foi o Júlio. Foi um grupo de altíssimo nível, reconhecido pelos serviços relevantes prestados à categoria.
O que mantém sua disposição para assumir mais quatro anos de mandato?
A experiência adquirida ao longo dos anos faz com que, a cada dia, possamos devolver aos nossos representados um serviço com um pouco mais de qualidade. Continuo observando as mudanças e tudo aquilo que pode contribuir para o desenvolvimento do setor.
O senhor pretende concorrer novamente à presidência da Faes depois de 2030?
Não. Surgirão pessoas, mais de uma, duas ou três, com capacidade para levar esse bastão adiante.
Como o senhor avalia o trabalho de Letícia Toniato à frente do Senar no Espírito Santo?
Vejo de uma forma muito bonita. Desde pequeno, entendo que a mulher é um ser superior ao homem. Fui presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae durante uma gestão de quatro anos e conheci muitas pessoas. Quando precisei de alguém para assumir a superintendência do Senar, trabalhei bastante para que ela viesse em função de sua experiência em gestão. Ela veio e tem realizado um grande trabalho de forma imparcial e íntegra no Senar-ES.
Como a Faes está acompanhando os possíveis impactos do El Niño sobre a agropecuária?
O que preocupa é o custo do dinheiro disponível nos empréstimos, principalmente no Plano Safra, que tem juros muito altos. O El Niño aumenta as exigências, e a importância do seguro rural tem crescido. Ao mesmo tempo, o seguro acrescenta um custo que pesa sobre os produtores. Muitas vezes, eles não contratam porque não possuem recursos disponíveis. A CNA apresentou uma necessidade de aproximadamente R$ 4 bilhões para o seguro rural. O governo alocou R$ 1 bilhão e, desse valor, R$ 500 milhões foram contemplados, o equivalente a um oitavo do que havia sido calculado como necessário. Existem regiões com mais temor em relação aos efeitos do El Niño, principalmente no Sul. Não sei como essa situação vai terminar nem como será elaborado um planejamento que permita postergar, por vários anos, as dívidas dos produtores atingidos.
Quais orientações estão sendo repassadas aos produtores capixabas?
Temos orientado os produtores. Estão crescendo, por exemplo, os ambientes controlados contra determinados efeitos do clima. Também trabalhamos critérios para a escolha das culturas, o uso de quebra-ventos nas lavouras e a seleção de variedades. Muita coisa está sendo feita, mas os fenômenos climáticos são, de certo modo, incontroláveis.
Como o senhor avalia as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros?
O alimento é o bem mais valioso do mundo, incluindo principalmente a água. O Brasil tem grande potencial para produzir alimentos. Na minha avaliação, o presidente dos Estados Unidos não tem sido feliz em muitas das atitudes que toma. As tarifas estão provocando pressão interna dos próprios consumidores norte-americanos. Vamos considerar o café, que é o principal produto do Espírito Santo. Existe um grande desenvolvimento do setor, com a abertura de cafeterias e a agregação de valor. Até agora, o café não foi atingido de forma tão drástica quanto outras culturas. O consumidor norte-americano não quer ficar sem um produto de qualidade. Quando o presidente muda constantemente de posição, isso é ruim e gera descrédito para a principal nação do mundo.
O que o setor agropecuário espera do próximo governador do Espírito Santo?
O agro quer segurança. Essa área já melhorou muito. O governo atendeu a pedidos como a implantação do circuito de segurança, a criação da delegacia especializada em crimes rurais, em Vitória, e a liberação de investigadores para a apuração desses crimes. Isso contribuiu para a redução das ocorrências no meio rural. Mas precisa avançar. Mais segurança jurídica é necessária. A Faes está buscando novas facilidades para o produtor. Por exemplo, enviamos uma comitiva a São Paulo para conhecer uma tecnologia que permite atribuir uma espécie de CEP a cada propriedade rural, como acontece com os endereços urbanos. O governo já foi informado sobre essa possibilidade. É uma iniciativa com excelente relação entre custo e benefício e que pode ser implantada em todos os municípios. Se ocorrer uma situação suspeita ou um crime, o produtor poderá acionar as autoridades, que terão condições de localizar rapidamente a propriedade. O sistema também facilitará a entrega de correspondências e a chegada de visitantes, que poderão encontrar o endereço pelo telefone, assim como acontece nas cidades. Também é preciso desburocratizar e facilitar a vida do produtor rural.
Quais outras tecnologias podem transformar a produção rural nos próximos anos?
Está acontecendo uma revolução tecnológica. Conversei recentemente com um dos proprietários de uma grande empresa de nanotecnologia. Será possível, por exemplo, corrigir grande parte das deficiências de um hectare de terra com cerca de 200 mililitros de produto aplicado por drone. Também precisamos buscar mais mecanização. No início, a mecanização da colheita do café gerou preocupação devido aos acidentes. Algumas pessoas alteravam as máquinas para aumentar a produção e acabavam reduzindo a segurança. Isso vem sendo superado. Novas tecnologias serão necessárias para enfrentar um gargalo muito difícil, que é a escassez de mão de obra em todos os segmentos. A Inteligência Artificial também deve ser usada a favor do agro.
A saúde dos produtores e trabalhadores rurais também será uma preocupação da nova gestão?
A pobreza no campo assusta. Ela está relacionada à falta de condições básicas, como saúde, segurança, cultura e alfabetização. Já temos desenvolvido trabalhos importantes na saúde do homem e da mulher rural. Em algumas ações, levamos dentista e protético, e uma pessoa que chega sem condições adequadas de saúde bucal sai com o tratamento realizado e o sorriso recuperado. O sistema CNA já disponibiliza planos de saúde que ainda não foram implantados no Espírito Santo. Precisamos fazer isso porque a saúde, de maneira geral, continua sendo um dos grandes gargalos do meio rural.





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