Espírito Santo monta força-tarefa para enfrentar os impactos do El Niño

Estratégia reúne monitoramento diário, reforço no abastecimento de água, construção de barragens, apoio à agricultura e ampliação da estrutura de combate a incêndios e desastres

El Niño

O avanço do El Niño sobre o Oceano Pacífico Equatorial colocou o Espírito Santo em estado de preparação para um período que pode combinar temperaturas mais altas, chuvas irregulares, estiagens prolongadas e maior risco de incêndios florestais. Diante desse cenário, o governo capixaba anunciou, na tarde desta quarta-feira (8), a criação do Centro de Comando e Controle do El Niño e apresentou um plano de prevenção e resposta que envolve abastecimento de água, agricultura, recursos hídricos, infraestrutura urbana, meio ambiente e Defesa Civil.

O fenômeno já está estabelecido e deve ganhar intensidade nos próximos meses. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial pode alcançar forte intensidade durante a primavera de 2026 e persistir até o fim do verão de 2026/2027. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) também aponta tendência de fortalecimento, com 63% de probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

No Espírito Santo, a preocupação está concentrada principalmente sobre a distribuição das chuvas e a disponibilidade de água. As projeções estaduais indicam possibilidade de períodos secos mais prolongados nas regiões norte e noroeste, enquanto o litoral e o sul podem enfrentar episódios pontuais de chuva intensa. O El Niño não determina isoladamente a ocorrência de secas, enchentes ou outros desastres, mas altera as probabilidades climáticas e exige atualização constante das previsões.

O novo centro de comando reunirá a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, a Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh), o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), o Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer) e a Polícia Militar Ambiental.

A estrutura será responsável pelo monitoramento diário das condições meteorológicas, dos níveis dos mananciais, da disponibilidade hídrica e dos focos de incêndio. Também estão previstas reuniões semanais, emissão de boletins e definição de ações de acordo com o comportamento do fenômeno.

Um dos principais eixos do plano está voltado à agricultura e ao abastecimento das comunidades rurais. O governo informou que entregará 46 caminhões-pipa aos municípios, com investimento superior a R$ 21 milhões. Os veículos poderão ser empregados no transporte de água, no atendimento às famílias do campo, no apoio à produção agropecuária e em operações emergenciais durante períodos de estiagem.

O pacote destinado ao campo também inclui 444 equipamentos agrícolas já entregues e outros 38 previstos. O investimento acumulado em máquinas se aproxima de R$ 160 milhões. Mais de 140 ensacadoras de forragem serão distribuídas para ajudar os produtores a formar estoques estratégicos de silagem, utilizada na alimentação do rebanho quando há redução das pastagens.

A estratégia busca evitar que a falta de chuva provoque perdas maiores na pecuária. Durante estiagens prolongadas, a redução da umidade do solo compromete o desenvolvimento das pastagens e aumenta os custos para manter os animais. A formação antecipada de reservas de alimento pode diminuir a necessidade de compras emergenciais e reduzir os riscos de queda na produção de leite e carne.

Os produtores rurais também poderão acessar uma linha de crédito de até R$ 150 mil por propriedade para a construção de pequenas barragens. O governo anunciou ainda a preparação de um novo programa de crédito voltado à conservação do solo, ao uso eficiente da água e à adaptação das propriedades às mudanças climáticas.

A reservação hídrica integra outra frente do planejamento. O estado prevê a implantação de 33 barragens de uso múltiplo, com investimento superior a R$ 100 milhões. Juntas, as estruturas terão capacidade para armazenar mais de 17 milhões de metros cúbicos de água, que poderão ser utilizados no abastecimento, na produção rural e na manutenção das atividades econômicas durante períodos de menor vazão dos rios.

A Agerh ampliará o acompanhamento dos cursos d’água e reservatórios. A agência conta com 32 estações de monitoramento e trabalha na melhoria da modelagem hidrodinâmica, na projeção de manchas de inundação e na atualização do Plano Estadual de Recursos Hídricos. O sistema deverá ajudar a identificar com antecedência tanto a redução da disponibilidade de água quanto o risco de transbordamentos em áreas vulneráveis.

A Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan) instalou réguas milimétricas nos pontos de captação para acompanhar as variações nos níveis dos mananciais. A empresa fará o controle permanente da disponibilidade de água destinada ao abastecimento da população.

Caso a estiagem se intensifique, o plano prevê a ativação de operações com caminhões-pipa, abertura de poços e modulação das outorgas de captação. O governo também poderá negociar com os setores agrícola e industrial ajustes temporários no consumo, de acordo com a situação de cada bacia hidrográfica.

O conjunto de medidas inclui obras para reduzir os efeitos de chuvas intensas, alagamentos e deslizamentos. O estado contabiliza 14 intervenções de macrodrenagem concluídas, com mais de R$ 780 milhões investidos. Outras 20 obras de contenção de encostas foram executadas em 13 municípios, com aplicação superior a R$ 111 milhões.

Por meio do Fundo Cidades, foram financiadas 217 obras de prevenção e mitigação, que somam mais de R$ 720 milhões. Cerca de 45% das intervenções já foram entregues. O Fundo Estadual de Proteção e Defesa Civil também destinou aproximadamente R$ 52 milhões para 35 obras de contenção.

Na área ambiental, o Programa Reflorestar reúne investimentos próximos de R$ 100 milhões e alcança mais de 5,4 mil propriedades. O balanço apresentado pelo governo aponta 12 mil hectares restaurados e outros 13 mil hectares de florestas preservados com apoio de pagamentos por serviços ambientais.

A recuperação da vegetação contribui para proteger nascentes, reduzir a erosão, melhorar a infiltração da água no solo e diminuir o transporte de sedimentos para rios e reservatórios. Essas ações ganham importância em períodos marcados pela alternância entre estiagens e chuvas concentradas.

O monitoramento da cobertura vegetal será reforçado pela Central de Monitoramento de Florestas. A estrutura utilizará imagens de satélite para identificar desmatamentos, perda de vegetação e focos de incêndio. Os dados serão integrados ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) e à plataforma Brasil Mais.

A Defesa Civil manterá o acompanhamento meteorológico durante 24 horas. A plataforma Ver Fogo será utilizada para localizar incêndios em tempo real e orientar o deslocamento das equipes de combate com base em imagens de satélite.

O Corpo de Bombeiros ampliou de 15 para 23 o número de unidades operacionais no Espírito Santo. Desde 2019, mais de 600 bombeiros ingressaram na corporação. O plano também reúne a implantação do Centro Especializado de Resposta a Desastres, a compra de viaturas e equipamentos em um investimento superior a R$ 90 milhões e a capacitação das equipes para ocorrências de incêndios florestais e outros eventos extremos.

O Iema receberá mais de R$ 4 milhões em equipamentos e contará com 56 brigadistas. A estrutura disponibilizada inclui 23 picapes, dez quadriciclos e equipes exclusivas para combate ao fogo. Também está prevista a construção de mais de 80 quilômetros de aceiros, faixas abertas na vegetação para dificultar o avanço das chamas.

O Notaer terá duas novas aeronaves, caminhão de abastecimento e equipes treinadas para apoiar as operações aéreas. A atuação deverá acelerar o transporte de profissionais e equipamentos, o reconhecimento das áreas atingidas e o lançamento de água sobre regiões de difícil acesso.

Os municípios receberam 74 kits destinados às Defesas Civis locais, com caminhonetes e drones para atividades de prevenção, monitoramento e atendimento emergencial. Mais de 500 agentes municipais passaram por capacitações. A entrega dos equipamentos faz parte do processo de estruturação das coordenadorias municipais para a gestão de riscos e desastres.

O estado também informou que mantém estoques estratégicos de telhas, cobertores e cestas básicas, além de contratos para reposição imediata dos materiais. Serviços de máquinas poderão ser acionados em até 24 horas para desobstrução de estradas, remoção de barreiras e outras respostas emergenciais.

O planejamento será acompanhado por campanhas de uso racional da água, prevenção de queimadas e educação ambiental. Patrulhas educativas deverão percorrer áreas rurais para orientar produtores e comunidades sobre os riscos do uso do fogo durante períodos secos.

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