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O endividamento dos produtores, a restrição na concessão de crédito e a redução dos recursos destinados ao seguro rural formam um cenário adverso para o agronegócio brasileiro. A avaliação é do diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, que também alerta para a necessidade de ampliar os instrumentos de financiamento diante do risco de eventos climáticos mais intensos.
Segundo Lucchi, o setor acumula impactos provocados por problemas climáticos, quebras de produção e oscilações nos mercados. A combinação desses fatores aumentou o endividamento e levou as instituições financeiras a adotar critérios mais restritivos para a liberação de novos empréstimos.
“O cenário que o setor vive hoje é bastante adverso. Há alguns anos, temos enfrentado problemas climáticos, quebras de produção e alta oscilação nos mercados. Isso gerou um endividamento muito grande no setor e, por consequência, uma restrição dos bancos na concessão de crédito, o que tem dificultado ao produtor tomar novos financiamentos”, afirma.
Os números citados pelo diretor técnico da CNA mostram uma desaceleração na aplicação dos recursos oficiais. De acordo com ele, o último Plano Safra encerrou o período com volume desembolsado 11% inferior, enquanto o primeiro mês do plano atual registrou queda de 38% na comparação com o mesmo intervalo do ciclo anterior.
“Hoje, o Plano Safra vem sendo menor a cada ano em relação ao volume aplicado. Neste último, fechamos com 11% a menos e, neste primeiro mês, já temos 38% a menos do que no mesmo período do ano passado. É um cenário difícil”, ressalta.
Seguro rural perde espaço
A redução dos recursos destinados ao seguro rural também preocupa o setor. Para Lucchi, a diminuição da área segurada deixa o produtor mais exposto justamente em um período marcado pelo risco de intensificação das oscilações climáticas.
“Soma-se a isso a questão do seguro rural, que vem sofrendo redução nos aportes de recursos. A área segurada está cada vez menor em um ano no qual precisamos fortalecer a gestão de risco, pois podemos ter um El Niño de alta intensidade”, observa.
Diante da limitação do crédito oficial, o setor tem buscado alternativas no mercado privado. Entre os instrumentos que ganharam espaço estão as Cédulas de Produto Rural, conhecidas como CPRs, utilizadas para antecipar recursos e financiar a produção.
Lucchi avalia, entretanto, que parte do mercado financeiro ainda conhece pouco as particularidades do campo. As diferenças entre regiões, culturas e cadeias produtivas aumentam a percepção de risco e reduzem a velocidade de entrada dos investidores.
“As CPRs têm sido uma grande forma de captar recursos no setor privado, e o mercado financeiro descobriu o agro há alguns anos, direcionando alguns instrumentos para o setor. Porém, como é algo novo e ainda não há um conhecimento aprofundado do agro, vemos certo receio do mercado financeiro em avançar com mais velocidade”, explica.
Segundo o diretor, a CNA trabalha para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a eficiência dos recursos públicos e privados e desenvolver novas fontes de financiamento para a atividade rural.
“O que temos trabalhado são medidas voltadas à melhoria desse ambiente de negócios no crédito, tanto privado quanto público, além da busca por novas ferramentas de financiamento e formas de aumentar os recursos disponíveis para que o produtor possa continuar investindo em tecnologia”, afirma.
Espírito Santo se destaca pela tecnologia
Embora enfrente os mesmos problemas observados no restante do país, o Espírito Santo possui vantagens competitivas associadas à organização dos produtores, ao uso de tecnologia e à presença da irrigação nas propriedades, segundo Lucchi.
“O Espírito Santo tem um agro muito pujante. É um estado muito bem organizado, onde a agricultura, tanto de grande quanto de pequeno porte, utiliza muita tecnologia. A irrigação é muito presente, o que representa uma vantagem competitiva em relação a outras regiões, principalmente nos momentos de maiores oscilações climáticas”, avalia.
A disponibilidade de sistemas de irrigação permite complementar o fornecimento de água nos períodos de estiagem. Em situações de calor mais intenso, porém, a elevação da temperatura pode continuar afetando as lavouras mesmo quando há água disponível.
“Com a irrigação para complementar, o grande desafio às vezes acaba sendo a temperatura, e não a falta de água. Esse é um ponto positivo do estado”, acrescenta.
Custos pesam sobre a produção
Entre os principais obstáculos enfrentados pelo agro capixaba estão os preços dos fertilizantes, o custo do transporte e a dependência de insumos produzidos em outras partes do país. Lucchi cita como exemplo a avicultura de postura, que precisa adquirir milho e soja de outros estados para alimentar os plantéis.
“O Espírito Santo também sofre dos mesmos problemas que o restante do Brasil, como os insumos caros. A avicultura de postura é muito forte e compra insumos a valores mais elevados por não haver uma produção local representativa de soja. Com isso, sofre com a alta no custo dos transportes e dos fertilizantes”, explica.
Apesar dessas dificuldades, o diretor técnico considera o Espírito Santo uma referência nacional em diferentes segmentos do agronegócio.
“É um estado que é referência tecnológica, não somente na irrigação, mas também na fruticultura e no café conilon, para o restante do Brasil”, destaca.
Pinheiros acompanha evolução
Ao analisar especificamente o desenvolvimento rural de Pinheiros, no Norte capixaba, Lucchi destaca a disposição dos produtores para buscar novas tecnologias e conhecer experiências desenvolvidas em outras regiões do Brasil e do mundo.
“Vejo a evolução que a região teve nos últimos anos. O produtor é ávido por tecnologia, busca conhecimento e percorre o Brasil e o mundo atrás do que realmente pode trazer inovação. É nítida a evolução do estado como um todo, e Pinheiros não é diferente. É um município onde, há muito tempo, o produtor tem feito a diferença no cenário estadual”, afirma.
Para Lucchi, o momento de restrição financeira representa mais um ciclo desafiador para o agronegócio. A capacidade de adaptação e o investimento em tecnologia, entretanto, devem ajudar os produtores capixabas a atravessar o período.
“O setor é feito de ciclos. Este é mais um ciclo de dificuldades que estamos enfrentando, mas não tenho dúvidas de que o produtor capixaba é resiliente e seguirá cada vez mais forte, produzindo e gerando divisas para o país”, conclui.





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