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Ainda pouco comum em muitas propriedades rurais capixabas, o mirtilo foi a cultura escolhida pelo jovem Hugo Celso Plaster para dar início a um novo ciclo de diversificação, tecnologia e sucessão familiar no sítio Gottlieb, no distrito de Melgaço, em Domingos Martins, na região Serrana do Espírito Santo.
A decisão nasceu durante a formação de Hugo na Escola Família Agrícola (EFA) de Olivânia, ligada ao Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (Mepes). Egresso do Ensino Médio Integrado ao curso Técnico em Agropecuária, concluído em 2023, ele elaborou e executou seu Projeto Profissional do Jovem (PPJ) com foco na permanência na propriedade familiar após os estudos.
O projeto começou com um estudo aprofundado sobre o cultivo do mirtilo. Em 2022, enquanto estruturava a proposta, Hugo e o pai buscaram capacitação em Piracicaba, no estado de São Paulo, região que tem se destacado na produção da fruta. A cultura, até então inovadora para a família e para a comunidade, passou a ser vista como uma alternativa para ampliar a renda e agregar valor à propriedade.
Hoje, a família cultiva 500 pés de mirtilo em vasos, com produção anual em torno de 1.200 quilos. A variedade escolhida foi a Emerald, reconhecida pela produtividade, pelo calibre dos frutos, pela firmeza e pelo sabor doce. O cultivo envasado permite melhor controle do desenvolvimento das plantas e facilita o manejo, especialmente nas etapas de poda e renovação dos ramos.
A aposta no mirtilo também abriu caminho para a adoção de tecnologias de precisão. A irrigação da cultura é automatizada por gotejamento e funciona com vasos testemunhas posicionados sobre uma balança. Quando o sistema identifica a necessidade de água a partir do peso programado, a irrigação é acionada automaticamente.
Segundo Hugo, esse modelo permite aplicar água e nutrientes com mais regularidade, reduzindo desperdícios e evitando excessos. Nos períodos mais quentes e secos, o mirtilo pode exigir até quatro irrigações por dia. Sem automação, cada ciclo demandaria de 30 a 40 minutos de trabalho manual. Com o sistema automatizado, o controle pode ser feito pelo celular, inclusive em horários noturnos.
A tecnologia trouxe ganhos para a rotina da família. Além de reduzir a necessidade de mão de obra em uma atividade que exige atenção constante, o sistema permite que os agricultores se dediquem a outras culturas e atividades da propriedade. Na área de 13,8 hectares, a família também cultiva café, banana, pitaia, hortaliças, mandioca, gengibre, feijão e milho.
Com os bons resultados obtidos com o mirtilo, Hugo e a família deram um novo passo na diversificação e implantaram o cultivo de morango em sistema suspenso semi-hidropônico. Atualmente, são 6 mil plantas cultivadas em estufa, em slabs com substrato inerte, como fibra de coco, e nutrição feita por fertirrigação com soluções controladas.
O sistema do morango também é automatizado. As plantas recebem irrigação três vezes ao dia, sendo duas aplicações com nutrientes e uma apenas com água. A estrutura suspensa facilita o manejo, melhora as condições de trabalho e contribui para a redução de doenças de solo, além de tornar a produção mais homogênea.
A produção de frutas vermelhas passou a ocupar papel estratégico na propriedade. Cerca de 70% dos frutos abastecem grandes redes de supermercados da Grande Vitória e agroindústrias processadoras de alimentos. O restante é comercializado na própria propriedade, atendendo moradores da região e visitantes.
Além do resultado econômico, o projeto tem impacto ambiental e social. O sistema de irrigação utiliza reaproveitamento hídrico e monitoramento do consumo de água, contribuindo para a preservação dos recursos naturais da região Serrana. A aplicação mais precisa de água e nutrientes também reduz perdas e melhora a eficiência produtiva.
O sítio Gottlieb se tornou referência para agricultores, estudantes e famílias da região. A propriedade recebe visitas técnicas e alunos em estágio supervisionado, em uma dinâmica na qual a família compartilha conhecimento e mostra, na prática, como a inovação pode fortalecer a agricultura familiar.
A trajetória de Hugo evidencia que a sucessão no campo depende de oportunidade, formação técnica e participação dos jovens nas decisões da propriedade. No caso dele, o mirtilo foi mais do que uma nova cultura. Foi o ponto de partida para transformar conhecimento em renda, tecnologia em autonomia e permanência no campo em projeto de vida.
O relato completo, intitulado “O uso de tecnologias influenciando a sucessão familiar de jovens rurais capixabas”, pode ser conferido no site, onde está disponível a íntegra da última edição da Incaper em Revista. O número também reúne artigos científicos, relatos de experiências e entrevistas sobre inovação, sustentabilidade e tecnologias aplicadas à agricultura.




