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Anuário do Agronegócio Capixaba: entre a fartura e o silêncio da lavoura

O Anuário do agronegócio traz reflexões sobre a agricultura. Veja como a terra pode ensinar valiosas lições de vida

Há cerca de 40 anos, uma única plantação de tomate, feita nas vargens ao lado de casa, foi suficiente para transformar a rotina da minha família. Com aquela safra, meus pais compraram uma vitrola, uma televisão grande para os padrões da época, um jogo de sofá e materiais que, algum tempo depois, ajudaram na reforma da casa. Para quem vivia do campo, aquilo era mais do que consumo: era sinal de que o trabalho tinha valido a pena, de que a terra havia respondido.

Alguns anos depois, a mesma terra ensinou outra lição. O preço do repolho caiu tanto que não compensou nem pagar o frete até o centro de vendas. Vimos a plantação inteira apodrecer no solo de forma silenciosa, sem as mãos da colheita. Não houve revolta nem drama.  Apenas a constatação de que, no campo, nem sempre plantar é sinônimo de colher. Às vezes, a decisão mais racional é esperar os próximos tempos.

Essas duas cenas ficaram comigo. E, com o tempo, entendi que elas não eram exceção, mas regra. A agricultura é feita de ciclos irregulares, de apostas (hoje, mais bem calculadas), de fatores que escapam ao controle de quem planta. Clima, mercado, logística, crédito, política. Tudo pesa. Tudo interfere.

É por isso que olhar para o agronegócio apenas pela fotografia de uma safra é insuficiente. O campo precisa ser lido em séries longas, em trajetórias. A semente precisa de tempo para contar  sua história.

Os dados reunidos no Anuário do Agronegócio Capixaba 2025, que analisam as últimas dez safras de várias culturas, ajudam a contar essa saga de forma mais completa. Eles mostram que, apesar das oscilações que continuam existindo, nosso agro construiu uma base sólida. Cresceu, diversificou, incorporou tecnologia, ampliou mercados e ganhou complexidade. Tornou-se menos dependente de um único produto, de uma única região, de um único ciclo favorável.

Os números também revelam algo que quem vive no campo já sabe: a resiliência não nasce da ausência de crise, mas da capacidade de atravessá-la. O agro aprendeu a lidar com riscos porque sempre conviveu com eles. Aprendeu a planejar porque nunca teve garantias. 

Este anuário não romantiza o setor. A volatilidade está nos dados, assim como estava naquela lavoura de repolho perdida. Mas o conjunto das informações mostra que o agronegócio capixaba avançou. E avançou porque passou a ser pensado como um sistema onde produção, indústria, logística, inovação, finanças e sustentabilidade caminham juntos.

Ao abrir estas páginas, você, leitor, encontrará números, análises e séries históricas. Mas encontrará também algo menos mensurável: a história de um setor que segue em frente mesmo sabendo que o próximo ciclo nunca é igual ao anterior.

Entre a safra que realiza sonhos e a colheita que não paga o frete, o agro capixaba continua plantando. E este anuário é o registro dessa travessia: feita de risco, trabalho e permanência.

Boa leitura! 
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Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos