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Matéria publicada originalmente em 09/03/2023
Lorenza Falchetto Venturim (33), de Venda Nova do Imigrante, é um exemplo de mulher que vem se destacando no setor agroindustrial. Com sua expertise e liderança, ela comanda a Venturim Conservas desde 2014, gerenciando uma equipe de dez colaboradores diretos e indiretos. Sob sua direção, a empresa já processou até seis toneladas por mês, mostrando que o talento feminino também é indispensável no mundo dos negócios rurais.
Mas isso não significa blindagem total contra preconceito ao longo dessa trajetória. Muitas vezes, foi preciso recorrer ao nome do pai para validar o que estava falando. “As pessoas vem conversar comigo e perguntam com quem resolvem tal situação. E respondo que é comigo. ‘E para ver sobre essa questão?’. É comigo também! Por diversas vezes precisei dizer que sou filha do fulano, usar meu pai como referência, para transmitir segurança”, salienta.
O que começou para ser apenas uma agroindústria de palmito ganhou outros produtos e configurações. Com o passar dos anos, Lorenza criou um mix de produtos: pimenta biquinho, champignon, alcaparra, cebolinha, tomate seco, picles mistos e mini pepino.
Se gerindo uma agroindústria as mulheres sofrem preconceito, o que dizer então de administrar uma cervejaria. Este é o desafio da Eliza Bottacine Dalvi (25) há cinco anos. Inaugurada em junho de 2022, a cervejaria Aurora tem capacidade para produzir 2.750 litros mensais de cerveja. Eliza afirma que, no caso dela, o preconceito vai além do exercício da profissão.
“Muitas pessoas ainda estranham o fato de mulheres estarem à frente de cervejarias. Sempre me perguntam quem é o homem por trás da Aurora. Ou seja, o preconceito não está apenas no exercício da profissão, mas também nos hábitos de consumo. No bar da cervejaria, ouço com frequência a frase ‘cerveja de mulher’ para se referirem a cervejas leves e de baixo amargor”.
Mas a sommelier não deixa por menos. A cerveja Imperial Stout envelhecida em barrica de carvalho (colaborativa com a Cachaça Santa Terezinha) ganhou medalha de ouro na Copa Capixaba de Cerveja Artesanal em 2022.
“A participação feminina no mercado cervejeiro tem aumentado nos últimos anos. Acredito que isto é a chave para, em algum momento, alcançarmos maior representatividade e relevância. Espero que, exercendo um bom trabalho, possamos de alguma forma incentivar e encorajar outras mulheres a seguirem a profissão”, comenta Eliza.

Depois de trabalhar em Vitória, a engenheira civil de formação e agora empreendedora do ramo da agroindústria, Fabiani Salomão Reinholz Macedo (32) voltou para a propriedade da família, no córrego São João Pequeno, interior de Colatina, quando o pai adoeceu.
Em busca de “algo diferente, para ter resultados diferentes”, ela viu nos poucos pés de cacau existentes a possibilidade de agregar valor. Vencido o desafio para convencer o pai, Fabiani foi estudar sobre o cultivo da fruta e para adequar a propriedade para produção de cacau especial. O passo seguinte foi começar a produzir chocolate. Nascia assim a Reinholz Chocolates.
Em 2022, Fabiani foi finalista do prêmio Sebrae Mulher de Negócios, na categoria produtora rural, após vencer as concorrentes de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.
“Sempre pensei em empreender, mas nunca imaginei que seria na agroindústria. Mas foi aqui, e de uma forma inusitada, que vi a oportunidade que sempre quis. As dificuldades maiores foram em relação ao processo. Tive que começar tudo do zero, estudar absolutamente tudo. Me considero uma vencedora. Os resultados vieram e continuam vindo cada dia mais, mesmo com todos os desafios. E receber o prêmio do Sebrae mostra que estamos no caminho certo”, declara.

Por meio do projeto Mulheres do Cacau e do Incaper, a fábrica da Fabiani se tornou uma unidade demonstrativa para quem deseja conhecer o processo de produção, desde a lavoura de cacau até a fabricação do chocolate.
Com o crescimento da marca, os 2.400 pés de cacau da propriedade já não suprem mais a demanda da produção de chocolate e Fabiani compra cacau especial de outras propriedades do Estado. A previsão é plantar mais 5.000 pés da fruta futuramente.
Para o superintendente do Sebrae-ES, Pedro Rigo, não tem como falar de agronegócio no Espírito Santo sem falar do empreendedorismo feminino. “Ao falar sobre o agronegócio capixaba nós automaticamente estamos falando do empreendedorismo também feito pelas mulheres. Elas fazem parte de todo o processo e estão presente em todas as possibilidades que o campo vem a oferecer. A Fabiani é um exemplo disso. As mulheres ocupam e desenvolvem o agronegócio como um todo e sempre buscam por inovação. A história da Fabiani Reinholz fala exatamente sobre isso”, enfatiza Rigo.
Lorenza, Eliza e Fabiana fazem parte de uma minoria. Segundo Diagnóstico da Agroindústria Familiar no Espírito Santo, elaborado pelo Incaper em 2018, apenas 39,4% das agroindústrias capixabas são comandadas por mulheres. Por outro lado, são maioria (52,0%) na etapa de processamento (fabricação) dos produtos. Na gestão do negócio prevaleceu a atuação dos homens.
A presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Cris Samorini, a primeira mulher a ocupar este cargo na história da Federação, aponta alguns caminhos para mudar essa realidade.
“Como mulher, sei dos desafios que precisam ser enfrentados todos os dias, especialmente sendo a indústria e o agronegócio setores majoritariamente masculinos. Por isso, não posso deixar de citar o quão importante é estar preparada para as oportunidades. As mulheres não devem abrir mão de formação contínua. É fundamental se especializar na sua área, fazer cursos, estudar e estar atenta às chances que vão surgir e àquelas que você pode criar”, destaca a presidente.
CONTINUA…





