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O campo sempre foi associado à tranquilidade, ao contato com a natureza e a um ritmo de vida mais sereno. No entanto, essa imagem bucólica esconde uma realidade alarmante: o crescente sofrimento mental de quem vive e trabalha na zona rural. No Espírito Santo, os sinais desse adoecimento emocional se multiplicam, especialmente na região Serrana, onde o isolamento, o uso de agrotóxicos e o clima frio intensificam o problema.
De acordo com o último Boletim Epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), publicado em 2019, as taxas de suicídio no estado se mantinham estáveis até 2016, mas começaram a crescer a partir de 2017, alcançando 5,20 e 5,82 por 100 mil habitantes em 2017 e 2018, respectivamente. A maioria dos casos ocorre em municípios do interior, sendo as principais vítimas homens entre 30 e 59 anos. Também chama atenção o crescimento dos casos entre adolescentes de 15 a 19 anos.
Os dados preocupam ainda mais quando cruzados com informações de outras fontes desta reportagem. Um dos entrevistados cita que o Hospital Estadual de Urgência e Emergência Jayme dos Santos Neves, na Serra, recebe em média três pacientes por semana vítimas de tentativa de suicídio, a maior parte deles oriundos do interior. Esses números são apenas a ponta do iceberg de um problema profundo e muitas vezes invisível, que é o adoecimento emocional de quem vive no campo.

Quem vivencia essa realidade de perto é o médico André Sueth Assumpção, pós-graduado em psiquiatria, que atende há mais de sete anos na região Serrana. O médico relata um aumento expressivo da demanda por atendimento psiquiátrico nos últimos anos, especialmente após a pandemia, para tratar depressão, ansiedade e crises de pânico.
Segundo ele, o sofrimento mental atinge diferentes grupos, principalmente descendentes de imigrantes europeus como italianos, pomeranos e alemães, marcados por uma cultura mais fechada, onde o isolamento social, o frio constante e o ambiente cinzento favorecem quadros depressivos. Suicídios ainda são frequentes na região, especialmente por enforcamento ou ingestão de agrotóxicos como o chumbinho.
“Muitas vezes os pacientes fazem contato comigo pelo Instagram ou WhatsApp fora do horário de atendimento. Uma vez um deles me enviou mensagem de madrugada dizendo estar com fortes pensamentos de matar a própria mãe. Quando você lê, fica em choque e não sabe nem o que falar. É um susto!”, relata Assumpção.

O impacto não se limita a quem adoece diretamente. As famílias também sofrem. O médico lembra de uma mãe que acompanhava o filho esquizofrênico em tratamento. Algum tempo depois, ela mesma tirou a própria vida. “É um efeito em cadeia. Quando um membro da família adoece, todos são afetados”, relata.
O médico reconhece o peso emocional de seu trabalho e a importância de também cuidar da própria saúde mental para continuar atendendo. “Se a gente não tiver um santo forte e não cuidar da saúde mental, acaba ficando doente também. Por isto, faço terapia, tenho acompanhamento com psicoterapeuta e pratico atividade física porque a carga negativa recebida durante o dia é tensa. É preciso se cuidar mesmo. Há relatos de médicos da área de psiquiatria cometendo suicídio”, diz o especialista.
O médico reforça um recado importante: “Procure ajuda sempre que possível, não fique em silêncio. Falar é essencial”.
‘O povo está adoecido’
Pastor luterano alerta para epidemia de sofrimento psicológico no meio rural
Outro que acompanha de perto essa crise silenciosa é o pastor Miquéias Holz, que atua em Santa Maria de Jetibá e para quem a situação é grave. Em sua atuação pastoral, na região de Rio Possmoser, Holz tem se deparado cada vez mais com casos de depressão profunda, ansiedade e ideação suicida em áreas rurais. O pastor se diz alarmado com a frequência com que essas situações surgem em conversas casuais ou durante visitas comunitárias.
Para ele, há três fatores principais por trás desse cenário: desestruturação familiar, relações humanas fragilizadas e uso de agrotóxicos. Ele observa que muitas famílias estão desconectadas, e os laços comunitários, antes fortes no período pré-pandemia, estão se perdendo. “O povo está adoecido. Tenho trabalhado isso nas celebrações em diversos momentos da igreja e tocado nesta tecla”, afirma o pastor.
Além disso, ele chama atenção para a forma como as crianças estão sendo criadas, muitas vezes sem enfrentar frustrações. “Isso impede o amadurecimento emocional. Quando surgem os primeiros desafios da vida adulta, muitos não sabem como lidar”, diz. Ele também critica o modelo agrícola que prioriza produtividade à custa da saúde, com o uso frequente de venenos que, segundo ele, também afetam o equilíbrio emocional das pessoas.

Entre as experiências mais difíceis enfrentadas pelo pastor Miquéias Holz está a de realizar cerimônias fúnebres de pessoas que tiraram a própria vida. Ele descreve esses momentos como dolorosos e delicados, tanto para os familiares presentes quanto para ele, enquanto ministro religioso. “É um momento muito doloroso. A gente busca trazer consolo, uma palavra de esperança para a família, mas emocionalmente é muito difícil para todos nós”, relata.
Além da dor da perda, há o desafio teológico de lidar com preconceitos e crenças rígidas. O pastor explica que, embora existam interpretações bíblicas que associam o suicídio à condenação eterna, ele prefere enfatizar a misericórdia divina.
Miquéias reconhece que o suicídio deixa uma ferida profunda nas famílias e comunidades e por isso, além do funeral em si, há um trabalho contínuo de acompanhamento do luto. Ele relata o caso de uma jovem de Santa Maria de Jetibá cuja família viveu um suicídio traumático. A dor levou a questionamentos intensos sobre a fé, mas também à transformação. Hoje, essa jovem estuda teologia e sonha em ser pastora, justamente para ajudar outras famílias a encontrar respostas e acolhimento em momentos semelhantes. “Ela deu novo sentido à dor”, afirma.
Superação
A esperança está nas pequenas ações que resgatam o senso de comunidade. O pastor Miquéias relata um caso marcante de um viúvo que entrou em depressão profunda após a morte da mulher. A comunidade se mobilizou, cuidou da roça dele, ofereceu apoio. “Isso o salvou. Ele voltou a sorrir. O cuidado coletivo transforma vidas”, diz.
Da localidade de Barcelos, em Domingos Martins, vem outra história de superação. O agricultor Alan Pizzol enfrentou um período difícil na juventude. Aos 18 anos, foi diagnosticado com depressão, crises nervosas e amnésia. No início, resistiu ao tratamento, e situação se agravou durante o período em que morou em Portugal, longe da família.
A aceitação do tratamento psicológico e psiquiátrico foi um desafio, não só por conta do estigma pessoal, mas também pelo ambiente cultural em que cresceu. O peso do silêncio e da negação dentro da própria família, especialmente vindo do avô — filho de italianos — que não aceitava doenças emocionais como legítimas, reflete uma mentalidade enraizada em que sofrimento psicológico é visto como fraqueza.

“Tem muita gente que não consegue se abrir com a própria família, mas desabafa com um estranho na fila do banco. Isso precisa mudar. Precisamos normalizar o sofrimento e o pedido de ajuda”, defende.
Foi ao retornar ao sítio dos pais que Pizzol encontrou forças para se reerguer. “Voltar para a roça me salvou. Dormir cedo, beber água da nascente, comer sem veneno, cuidar da horta, conviver com os animais. Isso tudo foi essencial”, relembra.
Essa experiência o levou a transformar a propriedade da família em um espaço de agroecologia e bem-estar. Hoje, além de cultivar sem agrotóxicos, Alan recebe visitantes para trilhas, vivências e rodas de conversa. Ele acredita que o contato com a natureza e o resgate dos vínculos comunitários são fundamentais para a saúde mental.
Entre o silêncio e a cura: rompendo tabus
No contexto rural, a saúde mental ainda é um tema cercado por silêncio e resistência. A cultura tradicional, marcada por valores como força, resiliência e produtividade, muitas vezes impede que as pessoas se permitam sentir e expressar suas emoções.
“Por serem muito tradicionais, as famílias de origem europeia da região Serrana têm o aspecto cultural de que precisam ser fortes, que não podem demonstrar fraqueza, que o trabalho vem em primeiro lugar”, revela a psicóloga Rúbia de Souza, descrevendo um cenário onde o diálogo sobre sentimentos é escasso ou inexistente.
A rotina árdua no campo, somada à falta de apoio profissional, faz com que muitos não reconheçam ou não aceitem a necessidade de cuidar da mente. Mesmo quando conseguem se expressar, “não são compreendidos porque têm muito trabalho, muita coisa para resolver e não podem parar”.
Um dos reflexos mais graves desse silêncio é o alcoolismo, especialmente entre os homens. “O alcoolismo traz impacto muito negativo para o ambiente rural, principalmente com relação aos conflitos familiares.” O uso excessivo de álcool, além de afetar a saúde física, rompe laços afetivos e alimenta ciclos de violência — muitas vezes silenciados ou normalizados. “Muitos homens acabam perdendo suas famílias por conta do uso excessivo de álcool”.

E mesmo diante do sofrimento, a resistência ao tratamento permanece. Rúbia alerta que “às vezes bebem os seus próprios sentimentos”, e por isso é essencial abordar o tema de forma sensível e estratégica, aproveitando espaços como os postos de saúde e eventos comunitários para promover informação e acolhimento.
A pandemia de Covid-19 provocou uma mudança significativa na forma como a saúde mental é percebida, inclusive no meio rural. “O consultório ganhou um perfil de pacientes que não nos procuravam por medo, preconceito, achando que saúde mental é bobeira, falta de fé, de Deus”, afirma a psicóloga. No entanto, diante de perdas e sintomas persistentes, muitos começaram a buscar ajuda e a perceber o cuidado psicológico como parte da saúde integral.
A fala acolhedora do profissional e o uso adequado da medicação mostram que “o medicamento não vai transformar aquela pessoa, mas sim reestruturar uma questão fisiológica que está desregulada”. Esse despertar tem incentivado mudanças no seio das famílias rurais, rompendo com o padrão do silêncio.
Esse movimento, embora recente, aponta para uma transformação profunda e necessária. “Vejo muito também que pacientes com bons resultados vêm quebrando esse estigma e incentivando seus familiares a buscarem auxílio”, relata Rúbia, indicando que o tabu está sendo aos poucos desconstruído. Essa nova geração, mais aberta ao diálogo e ao cuidado emocional, entende que “saúde mental não é frescura, é algo sério”, e que o equilíbrio interno é essencial para lidar com os desafios da vida e realizar seus projetos. Valorizar esse despertar é essencial para que o meio rural deixe de ser apenas cenário de trabalho e dureza, tornando-se também espaço de cura, afeto e reconstrução.





