Antes que a dor pare a lida: fisioterapeuta faz alerta a produtores rurais

Movimentos repetitivos, transporte de peso e terrenos íngremes podem sobrecarregar ombros, joelhos, quadris e coluna durante o trabalho no campo

Foto: divulgação

Para quem está na lida no campo, o corpo é a principal ferramenta de trabalho. Quando os primeiros sinais de sobrecarga são ignorados, uma dor inicialmente leve pode se agravar e comprometer a rotina. É esse cenário que a fisioterapeuta Mayara Foli Monteiro relata ter observado entre produtores rurais atendidos em Rio Bananal, no norte do Espírito Santo.

Formada em 2013 pela Faculdade Pitágoras, em Linhares, Mayara atua com Reeducação Postural Global (RPG), Pilates e reabilitação. Filha de produtor rural, ela afirma que a proximidade com o campo contribuiu para direcionar parte do trabalho às necessidades de quem vive da atividade agrícola.

Durante três meses, enquanto substituía uma fisioterapeuta em um consultório particular de Rio Bananal, Mayara identificou queixas relacionadas principalmente aos ombros, joelhos, quadris e à coluna. A percepção resulta da experiência clínica nesse período, e não de um levantamento estatístico.

“Tenho notado alterações posturais, hérnias de disco e problemas no ombro associados ao esforço repetitivo e ao peso carregado pelo produtor. Também há muitas questões no joelho por causa das regiões íngremes de Rio Bananal”, relata.

Entre os quadros observados, a fisioterapeuta cita lesões do manguito rotador, estrutura responsável pela estabilidade e pelos movimentos do ombro; lesões e rompimento do ligamento cruzado anterior (LCA), localizado no joelho; desgaste articular no quadril; e hérnias de disco.

Segundo Mayara, o trabalho em terrenos inclinados aumenta a exigência sobre as articulações. Ao mesmo tempo, movimentos repetidos e o transporte frequente de cargas podem gerar sobrecarga ao longo dos anos.

“Há uma descarga de peso muito grande no joelho, no quadril e no ombro. São as regiões nas quais encontramos mais problemas entre os produtores atendidos”, explica.

Dor atinge diferentes gerações

Os problemas não estão restritos aos trabalhadores mais velhos. De acordo com Mayara, as queixas aparecem entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias, incluindo jovens que começam cedo na atividade rural.

“É uma situação que envolve desde produtores de 16 ou 20 anos até adultos e idosos. Homens e mulheres que estão à frente da lida sofrem com essas patologias”, afirma.

A distância entre as propriedades e os centros urbanos também pode dificultar a procura por atendimento. Conforme a fisioterapeuta, produtores que vivem em comunidades mais afastadas nem sempre recebem orientações sobre prevenção ou reconhecem os primeiros sinais de uma possível lesão.

Em muitos casos, a primeira reação é buscar medicamentos para aliviar a dor. O atendimento médico ou fisioterapêutico costuma ocorrer apenas quando o desconforto se intensifica ou começa a impedir o trabalho.

“Quando a situação está muito grave, eles procuram um ortopedista ou um neurologista. A fisioterapia acaba entrando para tratar algo que já está instalado e que poderia ter recebido atenção antes, evitando um problema maior”, diz.

Preparação antes da lida

Entre as medidas orientadas por Mayara estão mobilizações e alongamentos simples antes do início do trabalho. Movimentos circulares de punhos e ombros, por exemplo, podem ser utilizados para aquecer as articulações e preparar o corpo para a atividade. A orientação deve considerar as condições e limitações de cada trabalhador.

“O produtor rural utiliza o próprio corpo para realizar as atividades. Por isso, o corpo é a sua ferramenta de trabalho e precisa ser preparado para receber a rotina do dia a dia”, reforça.

Mayara também aborda o assunto no programa Ronda da Cidade, da rádio Atitude FM, de Linhares. Para ela, a principal recomendação é não tratar a dor como uma consequência inevitável do trabalho rural.

“Meu conselho é aprender a ouvir o próprio corpo. Ele dá os primeiros sinais por meio de dores leves. Quando sentir algo desconfortável, procure ajuda profissional e não deixe de buscar um médico. Quanto mais cedo houver orientação, maiores são as possibilidades de evitar que o problema se agrave.”

Comentários 0

Carregando comentários…