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O avanço do El Niño aumenta a possibilidade de ondas de calor entre o fim do inverno e o início da primavera, com possíveis impactos sobre importantes regiões agrícolas do Brasil. Segundo o Giro Agroclima, da Climatempo, a atenção se concentra principalmente no Matopiba, no Centro-Oeste e no norte do Sudeste, onde temperaturas elevadas podem coincidir com etapas importantes do calendário agrícola.
A expectativa é de que o fenômeno ganhe força nos próximos meses. Entre setembro e outubro, a atuação mais consolidada do El Niño pode favorecer novos episódios de calor intenso, especialmente em Goiás, Mato Grosso e nas áreas mais ao norte da região Sudeste.
De acordo com a Climatempo, uma onda de calor não corresponde apenas à ocorrência isolada de um dia muito quente. No critério apresentado pelo Giro Agroclima, o evento ocorre quando uma região permanece por pelo menos cinco dias consecutivos com temperaturas 5°C ou mais acima da média climatológica.
Períodos prolongados de temperatura elevada podem aumentar a evapotranspiração, reduzir a disponibilidade de umidade no solo e elevar a necessidade de água pelas plantas. O resultado pode ser estresse térmico e hídrico, com efeitos que variam conforme a cultura, a região e a fase de desenvolvimento.
Entre os possíveis danos apontados estão escaldaduras em sementes e frutos, manchas nas folhas, redução do crescimento vegetativo e perdas de produtividade. Soja, milho, cana-de-açúcar, café, citros e hortaliças estão entre as culturas que podem ser afetadas, principalmente quando o calor ocorre junto com chuvas irregulares e menor disponibilidade de água no solo.
O cenário traz preocupação especial para a implantação da próxima safra de soja em partes do país. Caso as ondas de calor se confirmem, os episódios poderão ocorrer justamente no início do ciclo em diferentes regiões produtoras, elevando o risco de estresse térmico e hídrico durante uma fase sensível para o estabelecimento das plantas.
A Climatempo lembra que situação semelhante trouxe dificuldades na safra 2023/24, quando altas temperaturas e irregularidade das chuvas afetaram diferentes cultivos. Para a soja, condições adversas no começo do ciclo podem aumentar inclusive o risco de necessidade de replantio.
Cana também pode sofrer com calor extremo
Na cana-de-açúcar, os efeitos dependem da etapa de desenvolvimento. Durante o crescimento vegetativo, temperaturas mais altas podem favorecer a cultura se houver água disponível. Na maturação, entretanto, a resposta é diferente.
Segundo o Giro Agroclima, a permanência de temperaturas acima de 35°C por vários dias, principalmente quando as madrugadas também ficam mais quentes, aumenta o estresse sobre a planta. Baixa umidade do ar, déficit hídrico prolongado, radiação solar elevada e ventos fortes podem agravar a situação.
O retorno das chuvas depois de um período de estresse também interfere na cultura. A cana pode retomar o crescimento e utilizar parte dos açúcares acumulados no desenvolvimento vegetativo, reduzindo o ATR, o Açúcar Total Recuperável, indicador utilizado para avaliar a qualidade da matéria-prima destinada à indústria.
Sul de Minas pode ter cenário diferente
Os efeitos do El Niño não devem ocorrer da mesma forma em todas as regiões. Para o Sul de Minas, a Climatempo projeta condições relativamente mais favoráveis do que em áreas situadas mais ao norte do estado.
A passagem de frentes frias entre São Paulo e o Sul de Minas tende a favorecer a entrada de umidade e uma retomada mais regular das chuvas entre o final do inverno e o início da primavera. Ainda podem ocorrer períodos secos e de temperaturas elevadas, mas a perspectiva apresentada é de melhora gradual da umidade no começo da próxima safra.
Na região Sul do Brasil, o risco é diferente. A previsão aponta para condições mais úmidas e períodos com chuva acima da média. Embora a maior disponibilidade de água possa beneficiar algumas lavouras, volumes excessivos podem dificultar operações no campo, favorecer doenças e afetar a qualidade de determinados produtos.
Diante das diferenças regionais provocadas pelo El Niño, a orientação da Climatempo é acompanhar as previsões meteorológicas e considerar as condições de temperatura e umidade no planejamento das operações agrícolas.



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