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A agroindústria Hora do Recreio, em Alfredo Chaves, começou graças à iniciativa das mulheres. Elas já produziam pães, bolos e biscoitos para suas famílias e resolveram tirar a produção de dentro de casa e transformá-la em negócio lucrativo.
“Trouxemos as colheres, panelas e batedeiras de casa para começar. Mas todas somos agricultoras antes de sermos biscoiteiras ”, orgulha-se Maria Margaret Pessin, carinhosamente chamada de professora pelas colegas. “As forminhas de brevidade tinham formatos diferentes e não saía uma brevidade igual à outra ”, acrescenta a coordenadora do grupo, Cecília Tomazini Bergami, a Cila.
As mulheres do Recreio são acompanhadas pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) desde o princípio. A experiência recebeu a visita de uma comitiva da agricultura capixaba, por meio do projeto HorizontES em Extensão.
Atualmente, seis mulheres trabalham na agroindústria e produzem biscoitos variados, como de polvilho, amido de milho, casadinho, de nata e fubá com coco, entre outros. Parte dos ingredientes como coco, limão, leite e maracujá são adquiridos nas propriedades do entorno.

“Nosso principal diferencial é que nossos biscoitos são assados no fogão a lenha. Mas o fato de ser um empreendimento tocado por mulheres e o fato de buscarmos matéria prima nas propriedades da região também atrai a atenção das pessoas. Antes a gente pedia doação de leite aos vizinhos. Hoje já conseguimos pagar ”, comemorou a professora Margaret.
A produção da Hora do Recreio chega a 1.200 quilos por mês e é comercializada em supermercados e padarias de Alfredo Chaves, Iconha, Vargem Alta, Rio Novo do Sul e Vitória. O grupo também fornece produtos para a alimentação escolar por meio das políticas públicas de comercialização, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Ter acesso ao mercado foi mais um desafio superado com a ajuda do Incaper. “A gente vendia na feira e sobrava. Para não perder, tínhamos que vender pela metade do preço. Vimos que isso não era viável, tínhamos que trabalhar mais para abrir outros mercados. O Incaper foi fundamental para que a gente atendesse às exigências de comercialização: padronizamos rótulos e abrimos novos pontos de venda ”, lembrou Cila.
O Incaper também contribuiu na logística para aquisição de matéria prima e comercialização. “A gente pegava os carros dos nossos maridos para buscar trigo e fazer biscoito. O Incaper nos conseguiu um carro para fazer as entregas, mas ele sofreu com a enchente. Agora conquistamos um carro com baú ”, comemorou Margaret. Maria Niuce Sartori, carinhosamente chamada de Nêga pelas colegas, é a responsável pelas vendas.

Como tudo começou
Com a experiência e a simplicidade de quem testemunhou parte da história, dona Nair Tavares Bertoldi conta como se desenvolveu a comunidade rural do Recreio, em Alfredo Chaves. “O lugar se chamava Rio Claro, porque o rio que passava aqui era bem clarinho. Mas os italianos não conseguiam falar essas palavras, e eles falavam de um jeito que parecia Recreio. Aí ficou Recreio o nome da comunidade ”, disse a agricultora.
Ela ainda carrega na fala resquícios bem evidentes do sotaque dos antepassados e resgata passagens importantes para o desenvolvimento rural da comunidade, mencionando inclusive os primórdios do Incaper e citando nominalmente alguns servidores.
“Construíram a primeira igreja, que era tapada de ‘taubinha’. A pessoa que seria padre é que ensinava as pessoas a ler e escrever. Aí sentiram falta de uma escola, e construíram no pátio da igreja, também tapada de ‘taubinha’. Foram buscar a professora, mas ninguém falava português, só italiano. A professora teve que aprender para depois ensinar. Aí em 1960 fizeram a igreja tapada de telha e depois a nova escola tapada de telha. Em 1970, o Incaper era Acares e Emater e fez um trabalho com os jovens daqui do Recreio. Curso de costura para as mulheres e informação sobre a roça para os homens. Era a Ana Mariana, o Valdecir Bertoldi e o Reginaldo Conde ”, lembrou dona Nair.

O nome Hora do Recreio, em homenagem à comunidade, ficou bastante sugestivo, já que o grupo começou os trabalhos ocupando justamente o espaço físico da antiga escola. “A gente estava pensando que nome daríamos ao grupo. Aí a Ana Carolina, que é filha da nossa colega Lucínia Partelli, deu essa sugestão e a gente gostou ”, disse Margarete Curitiba Sartori, integrante do grupo de mulheres da Hora do Recreio.
Recontar a própria história emociona a coordenadora das mulheres do Recreio. “Eu sou a coordenadora do grupo desde 2005. A lição que todas nós tiramos é que o trabalho em conjunto traz crescimento e envolvimento de toda comunidade. Para nós, é uma alegria receber bem e oferecer o que nós temos que melhor, que são os nossos produtos ”, contou orgulhosa Cila. (*Texto editado por Redação Safra ES)




