Após rompimento de barragem

Sem pesca, mel de restinga pode garantir e ampliar renda no Quilombo do Degredo

Produção de mel em área de restinga surge como alternativa para fortalecer a renda de famílias quilombolas no Degredo

Foto: divulgação/Comunidade do Degredo

Até 2015, a pesca era a principal base da economia na comunidade do Quilombo do Degredo, região costeira do norte do Espírito Santo. Mas tudo tomou outro rumo após o rompimento da Barragem de Mariana, em Minas Gerais, que deixou um rastro de rejeitos e de impactos no meio ambiente e na economia mineira e capixaba.

A contaminação, que seguiu pelo Rio Doce, desembocou no mar que banha o município de Linhares (ES). Entre os territórios atingidos, está Degredo, onde o próprio Ministério Público decidiu proibir a pesca de qualquer natureza, dentro dos 20 metros de profundidade.

Naquela época, a comunidade já tinha outras atividades de trabalho, como a agricultura de múltiplas culturas, em especial de mandioca e, uma outra fonte de renda: a apicultura.

O potencial do Mel de Degredo

O manejo de abelhas já existe na comunidade há cerca de 20 anos e é fruto do trabalho com abelhas africanizadas que vivem no local há anos. “Produzimos o mel de restinga, que é de excelente qualidade”, contou Jadilson Gomes, morador de Degredo e coordenador de Área de Relacionamento com a Comunidade da ATI Asperqd.

Restinga é um tipo de ecossistema costeiro, associado ao bioma da Mata Atlântica. E é justamente nesse ambiente que vive a comunidade do Degredo, que fica bem próxima ao mar.

Essa característica ambiental influencia diretamente na qualidade do mel. Tal qual um vinho é influenciado pelo local e modo de produção, o mel também tem esse componente numa espécie de terroir.

Em Degredo, a produção de mel é feita com abelhas africanizadas. Esse termo diz respeito aos animais que são resultado de cruzamentos entre espécies trazidas do exterior e as abelhas nativas brasileiras, em um processo que começou há 70 anos.

“A comunidade chegou a cogitar a transição para o manejo de abelhas nativas, sem ferrão, mas, como as abelhas africanizadas já estavam no território do quilombo há muitos anos, a comunidade decidiu manter o manejo dessas espécies”, explicou Danilo Santos, historiador com doutorado em Agroecologia, é técnico da ATI e coordena o Plano Básico Ambiental Quilombola (PBAQ).

 Os dados levantados na comunidade e reunidos no PBAQ, mostram que, até 2019, o território contava com um total de 164 caixas de abelhas, sendo 99 povoadas. O volume total de mel produzido em 2018 foi de 1.015 litros e os produtores locais informaram uma capacidade de produção de cerca de 22 litros por caixa por ano.

O mel, fruto principalmente da florada do bioma de Restinga e da aroeira, planta nativa do Brasil e abundante na região de Linhares, é produzido e consumido pelas famílias, mas também pode chegar a ser vendido por cerca de R$ 25 o litro. Esse valor, porém, poderia ser maior se a comunidade conseguisse beneficiar o mel e ampliar o trabalho, com produtos como o própolis, pólen e geleia real.

É por isso que, por anos, a comunidade lutou pela construção da Casa do Mel. O espaço serviria para processar o alimento e, assim, conseguir produzir outros itens de maior valor agregado.

A infraestrutura de espaços, como a Casa do Mel, é uma das principais demandas da comunidade para que trabalhos como da apicultura possam se tornar mais rentáveis

A Casa do Mel é parte de uma série de ações que outra instituição precisou prestar à comunidade. O espaço foi prometido pela Petrobras como uma espécie de contrapartida por impactos ambientais e sociais causados no local após a exploração da região pela empresa.

“Há um potencial para produção de mel e de pólen em Degredo. Na região, não há grandes plantações com uso excessivo de agrotóxicos, o que abre a possibilidade de produzir produtos apícolas orgânicos de floradas locais. Contudo, há a necessidade de uma melhor organização do público envolvido”, confirmou o extensionista do Incaper, Alex Fabian Rabelo Teixeira, que participou do projeto de implantação da Casa do Mel na comunidade.

Lá em 2017, o Incaper foi contatado justamente para começar a levar atividades como palestras ou cursos dentro de um projeto a ser implantado no âmbito do Programa de Educação Ambiental, para cumprimento de obrigação legal.

“A partir desse momento realizamos atividades de extensão rural e acompanhamento técnico de implantação de alguns apiários, por aproximadamente dois anos. Foi realizado um treinamento em apicultura, excursão para visitar uma unidade de beneficiamento de mel do IFES de Colatina e visitas técnicas aos apicultores de Degredo”, explicou Alex.

O projeto, porém, ficou parado por anos e a Casa do Mel só foi concluída em 2025, ainda necessitando de ferramentas e treinamentos para que a comunidade possa aproveitá-lo completamente.

Luta para retomar renda e autonomia

Para lutar por reparação e organizar as demandas da comunidade, a Associação dos Pescadores e Extrativistas e Remanescentes de Quilombo do Degredo criou, em 2020, a Asperqd Assessoria Técnica, da qual fazem parte Jadilson e Danilo.

“Essa é a primeira Assessoria Técnica Quilombola do Brasil. A ATI faz parte da associação e tem mais de 60% da equipe formada por pessoas que são da comunidade do Degredo”, explicou Jadilson.

Na última contagem, eram 24 famílias trabalhando com apicultura em Degredo, mas hoje esse número pode ter caído. “Precisamos fazer o novo levantamento, voltando a questionar quem fazia o manejo anteriormente para saber se alguma das famílias abandonou a atividade pela dificuldade e falta de apoio”, explicou Jadilson.

Importantes bioindicadores, nesse período após o desastre de Mariana, as abelhas chegaram a aparecer nos dados que mostram os impactos da barragem que chegaram até a área costeira capixaba. “Estudos mostraram resíduos do rejeito inclusive no pólen das abelhas”, explicou Jadilson.

Apesar dos entraves, algumas coisas avançaram neste tempo. Em 2024, a comunidade fez uma nova formação para trabalhar com derivados do mel, como ceras, hidromel, entre outros produtos que possam agregar valor à produção. A oficina fez parte das atividades do Novembro Negro e foi ministrada pela equipe do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural).

As famílias que produzem mel no Quilombo do Degredo já participaram de oficinas sobre manejo e beneficiamento do mel e própolis. A ideia é valorizar o produto que já é visto como de qualidade na região.

Policultura e afroturismo: o desenvolvimento na diversidade

Agricultura, mel, pesca e extrativismo. O que define o modo de vida dos quilombolas do Degredo é a policultura. “É uma cadeia. Antes tinha até casa da farinha, com produção de mandioca. Mas os impactos ambientais mexem com a cadeia inteira de produção de aroeira, frutos, pesca, e o manejo de abelhas está inserido nisso”, prossegue Jadilson.

A mandioca era uma das principais culturas do Degredo, que contava inclusive com uma Casa da Farinha, produzida a partir do cultiva de mandioca na comunidade.

A comunidade, que sempre teve base extrativista, enxerga o processo moroso como mais uma etapa a ser vencida. “É uma batalha e uma resistência”, declarou Danilo.

O momento é de retomada das medidas estruturantes que constam no estudo do PBAQ. A principal delas é básica: água limpa. Segundo a ATI, hoje a água da comunidade está contaminada, e a busca é pelo reabastecimento com água de qualidade. É isso que vai possibilitar o avanço das demais atividades, incluindo a agricultura.

A ATI espera que com o novo sistema, focado na organização coletiva e na autogestão compartilhada, as coisas avancem com mais rapidez. “Nesses 10 anos [com outra instituição responsável pela implantação dos projetos], se produziu pouco. A comunidade quer ver a reparação, finalizar a burocracia”, explicou Jadilson.

Na sequência do abastecimento de água, prioridade número 1 de Degredo, “vem cuidados com o viveiro de plantas, que colabora e está interligado com as abelhas; a retomada da agricultura e ações culturais. Todas as decisões que tomamos são feitas em conjunto, por isso tudo passa por consultas com a comunidade”, explicou o coordenador.

Além da agricultura, o turismo também é um importante alicerce para a comunidade ampliar a renda. Por isso, o quilombo recebe grupos em vivências pré-agendadas com a associação.

E essas visitas incluem acesso a atividades culturais e experiências como conversas com a mestra do notório saber que vive na comunidade, o jongo, a cultura, a música e a gastronomia local. “Gosto de chamar de afroturismo”, destaca Danilo.

Desse movimento também surgiram outras possibilidades para que as novas gerações criem produções intelectuais. Daí surgiu um coletivo de escritores e produtores de audiovisual de Degredo, que lançaram livros, além de produtos que a comunidade comercializa, como camiseta e canecas e, claro, o próprio mel de Degredo.

Fotos: divulgação

Saberes tradicionais e resistência do Degredo

É nessa integração entre práticas e saberes tradicionais e o trabalho técnico que a comunidade do Quilombo do Degredo busca reparação e a melhoria socioeconômica.

“É importante ressaltar que essa é uma iniciativa da comunidade. Como forma de amenizar os danos causados na região”, lembra Jadilson.

Para ele, a inspiração do trabalho atual da ATI está na resistência da comunidade e em lideranças importantes na história do quilombo, como Pedro Leite Costa, José Leite Costa, Cleia da Silva Costa, Mari Jane, atual presidente da associação e moradores mais antigos, como Simony de Jesus, uma das lideranças no Quilombo e coordenadora geral de Projetos da ATI.

E é nas tradições e em atividades mais recentes, como a apicultura, que o Quilombo do Degredo aposta para superar as mudanças pelas quais o território e o meio ambiente passaram nos últimos anos.

No município de Linhares, desemboca a Foz do Rio Doce. A área, no distrito de Regência, antes era espaço de ganha-pão dos quilombolas, com a pesca tradicional. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Sobre o autor Thais Fernandes Ver mais conteúdos