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O agricultor aposentado Antônio Silva Capeline, de 73 anos, morador da comunidade Santa Lúcia, às margens da ES-315, em Boa Esperança, no noroeste do Espírito Santo, nasceu e cresceu em uma época em que derrubar áreas de mata para abrir espaço para plantações era uma prática comum. Ao lado dos pais e irmãos, participou da derrubada de extensas áreas de vegetação nativa para a implantação de lavouras.
Passados mais de 50 anos, Antônio encontrou na criação de abelhas sem ferrão uma maneira de minimizar os efeitos do desmatamento para o qual ele mesmo contribuiu. “Naquela época, a gente achava que era só derrubar a mata e colocar fogo em tudo para fazer os cultivos. Não existia consciência ambiental. Lembro que havia tantas abelhas sem ferrão e tanto mel que, às vezes, até estragava. Hoje quase não se vê mais. A derrubada da mata acabou com tudo”, lamenta o produtor.
A iniciativa de criar os insetos surgiu a partir de uma conversa com o extensionista rural do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) no município, Ivanildo Schmith Kuster, justamente sobre o desaparecimento das abelhas na região. Mais do que isso, desse bate-papo nasceu a ideia de desenvolver um projeto voltado à criação das espécies nativas. O primeiro passo foi conhecer de perto as técnicas de manejo.
Em outubro de 2025, um grupo de seis agricultores realizou uma visita técnica à Fazenda Experimental do Incaper, em Linhares. Antônio voltou para casa com sete colônias de uruçu-amarela. O plantel cresceu e hoje já soma 15 colônias. O produtor também doou duas caixas para que outro agricultor do grupo ingressasse na atividade.

“Meu interesse não é o lucro. Quero incentivar mais pessoas para que as abelhas retornem à natureza. Se eu pudesse voltar no tempo, preferiria morar dentro da mata sem derrubar nenhuma árvore. Hoje, cuidar das abelhas é uma forma de tentar reverter um pouco do que fizemos no passado”, afirma.
O extensionista do Incaper explica que o objetivo inicial é resgatar a abelha uruçu. “O projeto surgiu muito mais por paixão e pela vontade de preservar do que por interesse econômico. Já temos dois produtores criando as abelhas e mais dois aguardando para começar. Ainda vamos selecionar outros participantes. Após essa etapa, quando todos tiverem suas caixas, vamos identificar o interesse de cada um. Alguns podem desejar produzir mel, outros cera ou simplesmente manter as abelhas para embelezar a propriedade ou mostrar aos netos”, destaca.
A iniciativa reúne agricultores que já trabalham com agroecologia e participam de programas governamentais de comercialização. Além da preservação das espécies nativas, o projeto também pretende desenvolver ações educativas, recebendo estudantes para conhecer o papel das abelhas na natureza.
Da derrubada ao reflorestamento
A criação das abelhas é recente, mas a mudança de pensamento começou há cerca de 40 anos. A retirada da vegetação provocou o desmoronamento de barrancos em uma área de nascentes da propriedade. Sem a proteção das árvores, a terra passou a assorear as fontes de água. “Quando vi aquilo acontecendo, decidi deixar a mata crescer novamente”, afirma.
Desde então, o produtor reflorestou cerca de dez hectares e passou a adotar práticas mais sustentáveis, incluindo sistemas agroflorestais, que integram árvores e cultivos agrícolas. Com o crescimento da floresta, algumas espécies que haviam desaparecido voltaram a ser vistas na propriedade, como a jacutinga e o araçari.
Há aproximadamente 15 anos, Antônio também migrou para a produção agroecológica de hortaliças, cacau e outras culturas. “Eu via o uso de venenos aumentando e as pessoas sem perceberem as consequências. Pensei que, desse jeito, não teríamos futuro”, relata.





