Pinheiros Agroshow

Pinheiros anuncia minitorrefadora; produtores de assentamento vencem concurso de café pela terceira vez

Estrutura permitirá torrar, moer e embalar o produto no município; concurso de qualidade recebeu 37 amostras de 35 inscritos

A prefeitura de Pinheiros anunciou o compromisso de investir em uma minitorrefadora e em equipamentos de moagem e embalagem para permitir que os cafeicultores concluam, dentro do município, o processamento do próprio café. A medida foi apresentada durante a quarta edição da Pinheiros AgroShow 2026, realizada em Pinheiros, no norte do Espírito Santo. 

A proposta é disponibilizar gratuitamente uma estrutura na qual o produtor possa levar o café em grão cru, fazer a torra e a moagem, embalar o produto com sua própria marca e prepará-lo para a venda direta ao consumidor ou ao comércio varejista. O valor e o cronograma de implantação da minitorrefadora não foram divulgados.

Atualmente, produtores interessados em comercializar cafés com maior valor agregado precisam realizar parte dessas etapas fora de Pinheiros. A prefeitura firmou um termo de compromisso com o sindicato patronal e representantes do setor produtivo para buscar os recursos necessários à compra dos equipamentos.

“Hoje, para ser comercializado com maior valor agregado, o café precisa ser torrado e selecionado fora da cidade. O objetivo é viabilizar os equipamentos de torrefação e embalagem para que mais produtores tenham condições de comercializar o próprio produto por um preço melhor”, afirmou o prefeito do município, Edilson Morais Monteiro, durante o anúncio.

Para o empresário de Pinheiros Thiago Orletti, a minitorrefadora dará continuidade ao trabalho desenvolvido por meio do concurso para melhorar a qualidade do conilon e ampliar a renda dos cafeicultores, especialmente dos pequenos e médios produtores.

“O concurso identifica os processos que estão dando certo na melhoria da qualidade do café conilon e ajuda o produtor a sair da commodity para agregar valor com o café especial. Com a minitorrefadora, ele poderá levar o grão cru, torrar, moer, embalar com sua própria marca e vender diretamente nas gôndolas dos supermercados”, afirmou Orletti.

Segundo o empresário, a estrutura permitirá que os cafeicultores acompanhem toda a cadeia produtiva, da lavoura à comercialização do produto final.

“O produtor vai fazer todo o caminho, da semente à xícara, dentro de Pinheiros. Ele vai produzir, cuidar, colher, torrar e vender o próprio café com o nome dele. Isso é um marco para o município”, acrescentou.

Orletti disse desconhecer investimento semelhante no norte do Espírito Santo. Segundo ele, existem iniciativas desse tipo no sul do estado e em Minas Gerais, mas Pinheiros poderá ser pioneiro na região norte.

O investimento também pretende aproveitar a evolução da qualidade do conilon produzido no município. Durante a AgroShow, foi realizada a sétima edição do Concurso de Qualidade de Café de Pinheiros, que recebeu 37 amostras de 35 inscritos.

Do café abaixo de 80 pontos aos lotes especiais

A primeira edição do concurso foi realizada em 2019, após uma articulação entre o Incaper, a Robusta Coffee, a prefeitura e o sindicato patronal. Um dos responsáveis pela criação da iniciativa foi o servidor do Incaper Antônio Locatelli, que atua no instituto há 20 anos.

Antes de trabalhar em Pinheiros, Locatelli desenvolveu atividades relacionadas ao café arábica na região serrana do Espírito Santo. Ao chegar ao município, percebeu a necessidade de combater a imagem do conilon como um produto de qualidade inferior.

“O conilon era visto como o ‘patinho feio’, mas a qualidade está diretamente relacionada, principalmente, ao pós-colheita. Tentamos colocar o projeto em prática por dois ou três anos, até conseguirmos o apoio da Robusta Coffee, da prefeitura e do sindicato para realizar a primeira edição”, contou.

Para Locatelli, o avanço mostra que o concurso cumpriu o papel de estimular mudanças no manejo e no pós-colheita (Foto: Kátia Quedevez/Conexão Safra)

Naquele primeiro concurso, o café campeão recebeu menos de 80 pontos e ainda não alcançava a classificação de especial. Sete edições depois, todos os dez primeiros colocados ultrapassaram os 82 pontos.

Para Locatelli, o avanço mostra que o concurso cumpriu o papel de estimular mudanças no manejo e no pós-colheita. “A finalidade era melhorar a qualidade do café, e isso vem surtindo efeito a cada ano”, afirmou.

O trabalho é coordenado atualmente pelo engenheiro agrônomo e Q-Grader Joessé de Oliveira Júnior, agente de extensão do Incaper há mais de 13 anos. Segundo ele, a atuação mais intensa com qualidade do café em Pinheiros começou em 2019, com assistência técnica e orientação para que os produtores não concentrassem os esforços apenas no aumento do volume.

“A proposta é fazer com que o produtor também busque qualidade, agregue valor ao café e consiga acessar mercados mais exigentes, como o europeu e o asiático”, explicou Oliveira Júnior.

No ano passado, o café campeão alcançou o recorde de 85 pontos. Nesta edição, as melhores amostras mantiveram avaliações próximas desse patamar, mas chamaram a atenção principalmente pela mudança no perfil sensorial.

O trabalho é coordenado atualmente pelo engenheiro agrônomo e Q-Grader Joessé de Oliveira Júnior, agente de extensão do Incaper há mais de 13 anos (Foto: Kátia Quedevez/Conexão Safra)

Além dos sabores já encontrados nos cafés do município, como frutas, especiarias, frutas amarelas, cacau e chocolate, os avaliadores identificaram lotes com características mais complexas.

“Percebemos um café com nota de calda de pudim caramelizada e uma acidez cítrica que lembrava limão. Era um café complexo, encorpado e muito bom no paladar. São características que podem alcançar públicos específicos e mercados dispostos a pagar mais”, avaliou Oliveira Júnior.

Segundo o extensionista, o concurso trabalha exclusivamente com cafés especiais, classificados acima de 80 pontos. Nesta edição, uma amostra precisava superar os 82 pontos para figurar entre as dez primeiras colocadas.

Qualidade ainda precisa chegar ao mercado

O concurso reúne pequenos, médios e grandes produtores. Apesar do avanço na qualidade, Oliveira Júnior explicou que parte dos participantes ainda não possui canais próprios para comercializar os lotes especiais.

Alguns produtores já vendem cafés torrados e embalados com marcas próprias, como Edgar Ettel, responsável pelo Café Grande Viagem, e Alex e sua família, do Café Morada dos Ipês. Outros reservam os melhores lotes para consumo próprio ou acabam comercializando o produto como commodity.

A maior parte do café produzido em Pinheiros segue para cooperativas, empresas de comercialização e grandes indústrias de torrefação. Segundo Oliveira Júnior, empresas como Nestlé e Três Corações estão entre os destinos da produção. Ele afirmou ainda que a Robusta Coffee comercializa atualmente café de Pinheiros em 69 países.

A minitorrefadora anunciada durante a AgroShow pretende reduzir justamente a distância entre a qualidade já alcançada nas propriedades e a capacidade de transformar o café em um produto final. Com a estrutura, mais cafeicultores poderão criar suas marcas e vender lotes especiais sem precisar recorrer a empresas instaladas em outras cidades.

Produtor do assentamento conquista o terceiro título

Vendedores da edição falam que é preciso muito amor e dedicação para chegar a um café de qualidade (Foto: John Adão/Conexão Safra)

A vencedora da sétima edição foi Ilca de Souza Gonçalves que, junto com o filho Igor de Souza Gonçalves, de 33 anos, produz café no Assentamento Olinda 2, próximo ao distrito de São João do Sobrado, em Pinheiros. Foi a terceira vitória da família no concurso.

Nascido em uma família de agricultores, Igor cresceu na lavoura. Além da experiência prática, é técnico agrícola, engenheiro agrônomo e mestre em Nutrição Mineral de Plantas. Atualmente, trabalha com as culturas do café e do mamão.

“É o amor pelo que a gente faz. Trabalhamos durante toda a semana e, muitas vezes, precisamos abrir mão de feriados e finais de semana para produzir um bom café. Juntamos a experiência diária na lavoura com os estudos e com a dedicação”, afirmou.

Mesmo tendo expectativa de ficar entre os dez primeiros, Igor disse que não imaginava conquistar novamente o título.

“A satisfação é enorme. Estou tremendo até agora. Eu conheço os outros produtores, convivo com eles e sei da qualidade dos cafés que foram apresentados. Esperava ficar entre os dez, mas não imaginava chegar ao primeiro lugar”, contou.

Confira os ganhadores

ClassificaçãoProdutorNota
1Ilca Lélia Souza Gonçalves83,83
2Maria Alves da Silva Vieira83,33
3Edgar Brandão de Oliveira83,17
4Thielen Martins dos Santos Brandão82,77
5Alonzio Pereira Teixeira82,50
6Pedro Jair Shumacher82,17
7Zenilda Pereira dos Santos Silva82,00
8Valnor Jorge da Silva81,83
9José Alencar Moura81,70
10Iuriola Dias Froes Favarato81,67

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