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Geral

Onofre Rodrigues: o homem do café

por Redação Conexão Safra

em 07/10/2013 às 0h00

13 min de leitura

O engenheiro agrônomo, chefe do escritório do Incaper de Iúna, Onofre Oliveira de Almeida Rodrigues, tem 58 anos e é natural de Ipanema (MG), formado pela Universidade Federal de Viçosa. E sua história no Espírito Santo, mais particularmente em Iúna e no Caparaó Capixaba, no sul do Estado, se confunde com a evolução da produção de café na região. Uma história que vai passar a uma nova fase no final deste ano, já que Onofre vai se aposentar e se dedicar à uma propriedade rural na sua terra natal, onde é pecuarista, produzindo leite e começando a produzir carne de corte.


Onofre Rodrigues conta que passou no concurso público da antiga Acares, no Espírito Santo, em 1975, e veio para Iúna em maio do ano seguinte. Logo depois, a Acares se transformou em Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), para bem mais tarde passar a Emcaper (Empresa Capixaba de Assistência, Pesquisa e Extensão Rural) &ndash, na sua fusão com a Emcapa (Empresa Capixaba de Pesquisá Agrícola) e depois para Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural). Quando chegou ao município, já passou a ter contato com a produção de café, porque estava acontecendo o plano de renovação das lavouras pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC), realizado depois da erradicação dos pés de café no país. “Era um momento que estava revolucionando a cafeicultura do Espírito Santo, com a chegada dos cafés catuaís, e a cultura do café já era bastante enraizada em Iúna ”, afirma Onofre.


Onofre lembra que a condução do programa era feita pelo IBC e, em paralelo, os profissionais da Acares/ Emater atuavam, em paralelo, com outras atividades, implantando novas tecnologias, inclusive em outros setores e também no início da organização rural. “Nós mostrávamos, por exemplo, a diferença entre uma lavoura adubada e outra sem adubação, porque ninguém adubava café naquela época ”, conta. “E trabalhamos a diversificação, como a pecuária, com a implantação dos primeiros estábulos para a pecuária de leite. Alguns existem até hoje ”, revela.


Ele conta, também, que junto com os profissionais da então Emater trouxe, de Mimoso do Sul, uma técnica usada na construção do piso de currais para os terreiros de café, utilizando o saibro para a preparação da massa, evitando a brita, que encarecia muito mais a obra. “Se aquele piso aguentava a pisada dos animais, porque não iria aguentar o peso do café espalhado no terreiro? ” &ndash, destacou. “E antes do IBC iniciar o seu trabalho, a Acares vinha montando unidades-piloto, com demonstração de variedades de café, e uma dessas era altamente produtiva com o café Mundo Novo ”, recorda.


Com a extinção do IBC no início dos anos 80, cita Onofre, a Emater e a Emcapa assumiram o desenvolvimento de novas tecnologias para o café no Estado, realizando um grande trabalho com o café arábica (espécie de altas altitudes &ndash, acima de 600 metros) e viabilizando o café conilon, mais adaptado a terras quentes, de baixa altitude. “E, hoje, o Espírito Santo é referência no conilon e um dos principais produtores de café arábica do Brasil ”, afirma. Segundo ele, a partir daí, o Espírito Santo entrou para sempre no mercado, junto com a Zona da Mata Mineira. “Principalmente, porque aqui não acontecem geadas, como no sul do Brasil e em São Paulo, o que prejudicava muitas lavouras ”, destaca.


No entanto, mesmo com todo esse desenvolvimento, existia um preconceito com o café do Espírito Santo, que ficou estigmatizada como região que só produzia café de baixa qualidade, tipo Rio e Rio Zona. Este estigma permaneceu por muitos anos, até que, entre os anos de 1995 e 1996, já como Incaper, começou a ser realizado um trabalho que contou com a participação de associações comunitárias, cooperativas, o Centro de Comércio do Café de Vitória (CCC-V) &ndash, principalmente, na gestão de Sérgio Tristão, como destaca Onofre &ndash, e o Centro Tecnológico do Café (Cetcaf), conscientizando os produtores que o Estado podia produzir café de qualidade, tipo bebida


Começo


Onofre lembra que a Coocafé &ndash, cooperativa mineira &ndash, começou a pagar a diferença do preço oferecido por outros compradores, no Espírito Santo, depois de montar uma sala de degustação em Lajinha, em parceria com a Cooperativa de Cafeicultores de Iúna, da qual Onofre foi presidente por um ano. “Mas começou a acontecer uma forte perseguição à Cooperativa de Iúna e ela começou a declinar ”, recorda. “Mas foi na minha gestão que trouxemos a primeira sala de degustação para Iúna, em 1998, que mandei buscar em São José do Pinhal (SP), e quem transportou foi o Zé Carteira e o Mamão ”, lembra sorrindo, recordando a participação dos amigos. O degustador foi trazido de Minas Gerais, para fazer a ligação com a Coocafé. “Esse foi o primeiro passo para mostrar que a região tinha café de qualidade ”, afirma.

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Nesta mesma época, então, surgiu o programa do Café das Montanhas do Espírito Santo, focando a produção do café arábica &ndash, que origina os cafés bebida fi na. Foi iniciado um trabalho junto aos produtores, contando muito com a ajuda da imprensa escrita e da televisão, que compraram a ideia e passaram a divulgar a potencialidade da cafeicultura da região. “E o Tristão começou a premiar a qualidade, com a realização de concursos ”, destaca.


Como desde o começo acompanhou todo o trabalho realizado pelo IBC, Onofre se viu inserido no novo programa de qualidade que já não se restringia a Iúna e se estendia a toda a região de montanhas do Estado, incluindo os municípios de Ibatiba e Irupi &ndash, que eram Iúna na época do IBC. Esta experiência levou Onofre Rodrigues a ser membro da Câmara Setorial do Café, participando de um trabalho que foi conduzido pelo pesquisador do Incaper, Aymbiré Fonseca. “Ele foi um grande incentivador na busca da qualidade do café no Estado ”, afi rma Onofre.


Depois do melhoramento genético das lavouras para a produção nas montanhas, Onofre Rodrigues lembra que, quando era chefe adjunto do Escritório Regional do Incaper, em Venda Nova do Imigrante, quando, junto com o chefe do escritório, Lúcio Fróes, apresentou um projeto para o Banco do Brasil, por meio da agência de Iúna e seu gerente na época, Passon. Dois anos depois, o Banco do Brasil aprovou o fi nanciamento para a renovação do parque cafeeiro, já que no país estava bloqueado o empréstimo para o plantio de novas lavouras. “Mas o nosso projeto não falava de novas lavouras e sim na renovação das já existentes, com a mudança de espaçamento e novas tecnologias que permitiam o aumento da produção e a melhoria da qualidade, ou seja, era renovação sem aumento de área ”, destaca Onofre. Nascia, então, o Renovar Arábica, lançado entre 2002 e 2003, fi nanciamento que depois se estendeu para todo o Brasil.


Meio ambiente e organização rural


A renovação do parque cafeeiro sem o aumento da área plantada, segundo o engenheiro agrônomo Onofre Rodrigues, era a demonstração de uma nova preocupação.


O plantio do parque cafeeiro existente havia proporcionado o aumento da renda dos produtores, mas também uma pressão sobre o meio ambiente. Por exemplo, Iúna possui 46 mil hectares de território total, sendo 15% composto por mata em estágio médio avançado e mata em estágio inicial &ndash, sem contar a área correspondente ao Parque Nacional do Caparaó, que entra no território do município. E, segundo Onofre, esta é uma questão que precisa ser repensada, porque essa pressão acaba mexendo com o microclima da região. “Na época não se pensava em meio ambiente ou agricultura responsável e sustentável ”, afirma.


Mas a conscientização do produtor e a organização rural começaram a mudar esta e outras realidades. E o grande marco da cafeicultura em Iúna e região, segundo Onofre, foi esta organização, que levou o município a ser o primeiro do Espírito Santo a ser enquadrado no Pronaf Nacional e a ser, há muitos anos, o que mais consegue recursos desta linha de crédito. “E este trabalho de organização começou com a economista doméstica, do Incaper, que passou por Iúna, Catarina Alves Lamas, junto com a Igreja Católica, com a formação de lideranças e de associações comunitárias ”, enfatiza. Segundo ele, Iúna é referência de organização rural. “A Feira do Produtor já funciona há mais de 20 anos, e Iúna exporta café até no Mercado Justo e Solidário, pela Coofaci ”, destaca.


De café rio zona para café bebida


O engenheiro agrônomo do Incaper, Onofre Rodrigues, destaca que muito trabalho foi necessário para que a região deixasse de ser conhecida pela produção de café de baixa qualidade, como o Rio Zona, Rio ou Riado, para passar a ser produtora de café bebida mole ou dura &ndash, o preferido dos exportadores e que pagam melhores preços. Segundo ele, foram realizados muitos seminários, simpósios e reuniões para a conscientização dos produtores. “E também foi importante a participação das cooperativas e da iniciativa privada, pagando o preço que realmente o produto valia ”, afirma. Antes, os chamados atravessadores pagavam o preço mínimo do café, como Rio e Rio Zona, divulgado pelo mercado em Vitória, mesmo que esse café apresentasse qualidade, e acabavam ficando com a diferença quando repassava o produto.


Onofre conta, ainda, que também foram realizadas muitas pesquisas e assistência técnica com os profissionais do Incaper realizando um grande trabalho. No caso de Iúna, Onofre destaca a atuação do seu companheiro do Incaper, de muitos anos no mesmo escritório, o técnico agrícola Cláudio Deps de Almeida, e da auxiliar administrativa Cirlene Vimercati. “E, hoje, os cafés do Espírito Santo disputam campeonatos nacionais, mas ainda existe produção de café Rio Zona ”, destaca.


Para esta mudança, Onofre Rodrigues explica que foram feitas alterações no manejo, na colheita e na secagem do café. Antes, o café era derriçado no chão. Então, o primeiro passo foi mudar a forma da colheita, com os grãos sendo colhidos em lonas estendidas embaixo dos pés de café. “Ao mesmo tempo, a colheita feita no chão produzia danos ao meio ambiente, porque o café que sobrava no chão acabava indo parar nos cursos de água, o que não acontece com a lona ”, explica.


“Fizemos um trabalho de conscientização com os produtores e, depois, viemos avançando nos métodos de secagem e armazenagem ”, afi rma. Lembrando também que foi incentivada a instalação de indústrias de torrefação, com alta qualidade, gerando renda e bem estar.


Mesmo com este trabalho, houve anos de difi culdades, principalmente, por causa de períodos de seca, como aconteceu em 2010. Mas de 2011 para cá, os preços do café têm melhorado muito. Em Iúna, por exemplo &ndash, município que já chegou a produzir 500 mil sacas de café (um recorde nacional), a colheita de 2011 fi cou em 300 mil sacas &ndash, uma ótima produção &ndash, e, para este ano, a expectativa é ainda melhor, podendo chegar a 350 mil sacas de café com qualidade e bons preços.


Caturra: o pai do Catuaí


Uma história que pouca gente conhece e que pode ter sido essencial para a mudança da cafeicultura do Brasil é contada por Onofre Rodrigues. Um pesquisador de São Paulo, em 1937, descobriu um café de porte baixo e resistente, que recebeu o nome de Caturra, na região do Caparaó. Ele levou um pé para o Instituto Agronômico de Campinas (SP) e fez o cruzamento dele com o café Mundo Novo &ndash, café de boa produção, mas de porte muito alto, que difi cultava a colheita, principalmente, nas regiões montanhosas, onde não pode ser utilizado maquinário.


Deste cruzamento, surgiu o café Catuaí, de porte baixo, resistente e de ótima produção. “O Caturra &ndash, que saiu do Caparaó &ndash, foi o pai dos Catuaís que revolucionaram a cafeicultura nacional, depois de implantados pelo IBC ”, afi rma Onofre. Ou seja, segundo ele, uma variedade originária do Caparaó Capixaba pode ter sido essencial para cafeicultura no Brasil &ndash, história que está toda registrada e documentada, conforme afi rma Onofre, pelo jornalista Ronald Mansur.


E o futuro?


Falando sobre o futuro, o engenheiro agrônomo Onofre Rodrigues, que se aposenta no Incaper no fi nal do ano, recorda que, no passado, existia muita mão de obra comprometida com o meio rural, o que não acontece hoje, segundo ele, se tornando um dos grandes problemas dos produtores, já que nas montanhas existe difi culdade para a mecanização. E, antes, se produzia de tudo na roça e havia fartura nas propriedades. “Ainda temos propriedades assim, mas o espírito urbano, o canto da sereia das cidades, começou um processo de urbanização, com a maioria dos jovens migrando para a zona urbana ”, afi rma. De acordo com ele, com as cidades se desenvolvendo, esta mão de obra acaba sendo absorvida pelos setores de serviço, empresas e construção civil.


Além disso, hoje, são muitas as exigências trabalhistas e, ao mesmo tempo, o mercado do café está cada vez mais exigente com a qualidade do produto. Por isso, para Onofre, a cafeicultura precisa produzir mais em uma área cada vez menor, usando apenas as áreas aptas para a cafeicultura, com a tecnologia disponível. “E aí entra o processo que estamos implantando de irrigação das lavouras de café, que evita os problemas com o clima e ajuda numa maior produtividade, sendo fundamental também a qualidade ”, afirma Onofre, ao lado do técnico agrícola do Incaper de Iúna, Cláudio Deps, também responsável pelo projeto.


Para o Onofre, o produtor de café precisa buscar a qualidade para que tenha melhor preço, com menor custo de produção, sem esquecer de diversifi car sua produção, tanto na área fl orestal como com outras culturas. “Cada produtor com sua vocação, para não fi car todo mundo cultivando a mesma coisa ”, afirma Onofre. Ele destaca que os municípios da região estão perto de grandes centros, do Espírito Santo e Minas Gerais, e o clima é propício para o plantio de frutas e hortaliças. “Sem esquecer a preservação do meio ambiente, produzindo de forma sustentável e até reparando os danos já feitos ”, enfatiza.


E, de acordo com Onofre Rodrigues, o poder público pode fazer muito &ndash, União, Estado e Município &ndash, cumprindo com a obrigação de manter as estradas em bom estado, o ano todo, para que o produtor possa ir e vir, com sua produção e os insumos necessários. “Planta é igual criança, tem que ser alimentada na hora certa e, às vezes, não há acesso ”, afi rma. “Também é preciso haver uma política de saúde no meio rural, assim como creches &ndash, porque mãe também vai para a lavoura &ndash,, esportes, apoio às organizações, telefonia, internet e educação &ndash, fi lho do produtor tem que estudar no seu meio &ndash,, além das facilidades da tecnologia, como sinal de TV regional e um projeto para informação para o produtor, sem marketing político, principalmente, para os pequenos produtores, agricultores familiares, ou seja, uma política voltada para o bem estar das pessoas do meio rural ”, conclui Onofre.



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