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A história dos 120 anos do pinus no Brasil pode ser contada como a história de uma árvore que aprendeu a crescer mais rápido. Mas essa seria apenas metade da história. A outra está escondida no DNA das mudas, nos softwares que calculam o momento do desbaste, nos sensores que enxergam o estresse antes do olho humano e nas máquinas que substituíram cavalos e juntas de bois na retirada das toras. E, paradoxalmente, o próximo grande obstáculo pode estar fora da floresta. Nas estradas, ferrovias, hidrovias e portos que levam a madeira até a indústria e o mercado.
É essa combinação de ciência, mecanização e logística que ajuda a explicar a transformação do pinus desde os primeiros registros da espécie no país, em 1906, até a floresta de alta produtividade que existe hoje. A data é considerada pela Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (Apre Florestas) como o marco dos 120 anos da chegada do gênero ao Brasil. O ponto de partida está documentado na obra “Notas sobre as plantas exóticas introduzidas no Estado de São Paulo”, publicada naquele ano pelo naturalista sueco Alberto Löfgren. O trabalho registrava 16 espécies de Pinus e 55 de Eucalyptus. Naquele momento, porém, o interesse era principalmente científico e paisagístico. A transformação do pinus em cultura florestal comercial ainda levaria décadas.
A virada começou a ganhar forma a partir de 1936, quando o então Serviço Florestal do Estado de São Paulo passou a estudar sistematicamente espécies de pinus subtropicais e introduziu sementes de Pinus elliottii e Pinus taeda. Mais tarde, programas de plantio em escala ampliada, especialmente entre as décadas de 1950 e 1960, e os incentivos fiscais instituídos em 1966 ajudaram a transformar experimentos em florestas comerciais.
Essa expansão também teve um efeito econômico que vai além da própria floresta. Segundo Diego Camelo, coordenador de Sustentabilidade e Políticas Florestais da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), o pinus ajudou a criar uma base de matéria-prima cultivada e renovável para uma cadeia industrial que se diversificou ao longo das décadas. A madeira passou a abastecer serrarias, indústria moveleira, construção civil, embalagens, painéis e compensados, além das cadeias de celulose, papel e resinagem.

A importância dessa transformação está também na substituição de parte da pressão histórica sobre espécies nativas. “O pinus ganhou escala justamente em um período em que a indústria madeireira do Sul do Brasil buscava novas fontes de matéria-prima, depois de décadas de exploração de espécies como a araucária. O resultado foi a formação de uma cadeia baseada em florestas cultivadas, capaz de gerar emprego, renda e atividade industrial em diferentes regiões”, afirma.
O resultado de 120 anos de seleção, pesquisa e manejo aparece em um número que, sozinho, conta boa parte dessa trajetória. Segundo Rudi Witschoreck, coordenador técnico executivo do Programa Cooperativo sobre Pesquisa do Pinus no Brasil (PPPIB), nas décadas de 1960 a produtividade média de Pinus elliottii e Pinus taeda ficava entre 20 e 25 metros cúbicos por hectare ao ano. Entre 1990 e 2010, chegou a cerca de 35 metros cúbicos, um avanço de aproximadamente 40%.
Para Witschoreck, o salto foi resultado de uma combinação de avanços que começou pela seleção de procedências e progênies superiores e avançou para híbridos, silvicultura clonal, nutrição, manejo fitossanitário, qualidade de mudas, desbastes, podas e zoneamento edafoclimático. O melhoramento genético passou a buscar não apenas crescimento, mas também características tecnológicas da madeira e maior adaptação ao ambiente.
Hoje, segundo dados da IBÁ referentes a 2024, a produtividade média brasileira do pinus é estimada em 31,1 metros cúbicos por hectare ao ano, considerando idade média dos povoamentos de 16,2 anos. A média, entretanto, esconde diferenças importantes. Em condições favoráveis e com manejo intensivo, Pinus taeda pode superar 40 metros cúbicos por hectare ao ano e, em condições experimentais de elevado nível silvicultural e sem restrições nutricionais, alcançar patamares ainda maiores.
O dado mais interessante, portanto, não é apenas o quanto o pinus cresceu. É que a curva de produtividade brasileira parece ter encontrado um novo desafio. Depois de décadas de ganhos, a média nacional está em um período de relativa estagnação. Isso muda a pergunta: se o Brasil já produz muito por hectare, de onde virá o próximo salto?
A resposta apontada pela pesquisa está menos em uma única tecnologia e mais na combinação entre genética, solo, manejo, sanidade, máquinas e informação. O que aconteceu com o pinus brasileiro foi uma espécie de agricultura de precisão aplicada a uma árvore cujo ciclo é muito mais longo.
A árvore foi modificada pela ciência
Uma das primeiras revoluções ocorreu antes mesmo de a floresta chegar ao campo, na escolha de quem deveria nascer. Segundo Rudi Witschoreck (PPPIB), a substituição de sementes sem controle de qualidade por materiais provenientes de procedências e progênies superiores elevou o vigor, o crescimento e a qualidade do fuste.
Depois vieram a seleção de árvores matrizes, a polinização controlada, os cruzamentos entre espécies e a busca por híbridos capazes de combinar características que não apareciam juntas em uma única árvore. Witschoreck afirma que o melhoramento genético passou a buscar não apenas maior volume, mas também características tecnológicas da madeira adequadas aos diferentes usos industriais.

Isso significa selecionar árvores mais altas e grossas, mas também mais retas, com melhor arquitetura de copa, galhos menores, madeira mais homogênea e propriedades físicas adequadas ao uso industrial. A genética, portanto, deixou de ser apenas uma ferramenta para produzir mais madeira e passou a ser uma ferramenta para produzir madeira com características mais adequadas ao uso final, de acordo com Witschoreck.
A diferença pode ser decisiva para a indústria. Densidade básica, uniformidade, proporção de madeira adulta, retidão do fuste e ocorrência de defeitos estão entre as características consideradas nos programas de melhoramento, que buscam adequar a matéria-prima às diferentes finalidades industriais. Um material destinado à serraria, por exemplo, pode demandar características diferentes daquele destinado à produção de celulose e papel.
A seleção genética também abriu espaço para aumentar a produção de resina. No caso do Pinus elliottii, Witschoreck afirma que a escolha de matrizes mais produtivas pode elevar a produção de goma-resina de uma média de cerca de 2 quilos para mais de 6 quilos por árvore ao ano. A resina, por sua vez, deixa de ser um produto periférico quando se observa sua presença em tintas, vernizes, adesivos, cosméticos, papel e outros segmentos industriais. A própria Embrapa destaca que o melhoramento de pinus busca combinar produtividade para madeira e resina com adaptação a diferentes condições ambientais.
A revolução também aconteceu debaixo do solo. Fertilização, preparo adequado da área, controle de plantas daninhas, manejo de nutrientes e conhecimento da microbiologia passaram a ser tratados como componentes do mesmo sistema. A produtividade de uma árvore, afinal, não depende apenas do DNA e, sim, da interação com solo, água, clima e manejo.
O viveiro também deixou de ser uma etapa secundária. Tubetes, automação, controle sanitário e fisiológico das mudas e associações com fungos micorrízicos ajudaram a melhorar a qualidade do material que chega ao campo.
Até a floresta adulta passou a ser administrada de maneira diferente. Desbastes retiram árvores suprimidas ou de menor potencial e redistribuem recursos para os indivíduos remanescentes. Podas podem elevar o valor da madeira. E ferramentas computacionais ajudam a escolher quando e quanto retirar.
O SisPinus, desenvolvido pela Embrapa, é um exemplo de como essa transformação começou antes mesmo da atual onda de inteligência artificial. O sistema simula crescimento e produção, avalia estoques atuais e futuros e permite analisar regimes de desbaste, idade de corte e diferentes cenários econômicos. A ferramenta já foi utilizada em mais de um milhão de hectares de pinus, segundo balanço da Embrapa.
A floresta que virou máquina
Se a genética mudou a árvore, a mecanização mudou o trabalho necessário para retirá-la do campo. Rodrigo Gonzatto Rubin, coordenador comercial da Penz-Saur, descreve uma transformação que talvez seja menos conhecida pelo público do que o melhoramento genético. Há poucas décadas, a derrubada e o arraste da madeira eram operações essencialmente manuais.
Depois vieram adaptações de tratores agrícolas e outros equipamentos para executar tarefas florestais. O estágio seguinte foi a chegada de máquinas projetadas especificamente para trabalhar dentro da floresta. A operação deixou de adaptar máquinas existentes e passou a contar com equipamentos concebidos para as condições do setor florestal.

A mudança não é apenas estética. Uma máquina dedicada pode operar com maior produtividade, segurança e eficiência econômica. E, à medida que a floresta cresce e produz mais madeira por hectare, a capacidade de colher, movimentar e transportar esse volume precisa acompanhar o ganho biológico.
“Antigamente, a operação era completamente manual. Na derrubada e no arraste, chegava-se a utilizar animais, cavalos e juntas de bois para tirar a madeira da floresta até a beira da estrada”, relata Rubin. Segundo ele, há cerca de duas décadas começaram as primeiras adaptações com tratores agrícolas e outros equipamentos. Hoje, a operação conta com máquinas dedicadas exclusivamente ao trabalho florestal.
É nesse ponto que surge uma contradição brasileira. Dentro da floresta, a cadeia avançou rapidamente. Fora dela, afirma Rubin, a infraestrutura ainda impõe custos elevados. Estradas, rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e a própria logística de transporte continuam sendo gargalos para uma atividade que, na etapa produtiva, alcançou níveis internacionais de competitividade.
O problema fica mais evidente porque madeira é um produto volumoso. Em determinadas cadeias, observa Rodrigo Rubin, o custo do frete pode chegar a superar o valor da própria madeira transportada. A produtividade conquistada pela genética e pelo manejo, portanto, pode perder parte de sua vantagem quando a tora deixa a propriedade.
“O que está faltando é infraestrutura fora da floresta”, resume o coordenador da Penz-Saur. “A parte que fica na iniciativa privada está muito bem. A nossa maior dificuldade hoje está em estradas, rodovias, ferrovias, hidrovias e portos.” É uma espécie de paradoxo dos 120 anos. O Brasil ficou muito eficiente para fazer a árvore crescer e relativamente menos eficiente para fazê-la chegar ao destino.
A próxima flroesta será digital
A próxima mudança já está em curso. Drones, sensoriamento remoto, LiDAR, inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados tendem a transformar a maneira como as florestas são inventariadas e manejadas. Para os pesquisadores Yeda Maria Malheiros de Oliveira e Edilson Batista de Oliveira, da Embrapa Florestas, a chamada Floresta 4.0 pode levar o setor a um nível muito maior de individualização do manejo. “Em vez de trabalhar apenas com médias de talhões, será possível reunir informações cada vez mais precisas sobre árvores, solo, clima e desenvolvimento do povoamento”, destacam os pesquisadores.
A seleção genômica é uma das frentes que podem encurtar o tempo necessário para identificar materiais superiores. Em vez de depender exclusivamente de anos de observação no campo, a análise molecular pode ajudar a antecipar a avaliação do potencial genético. A Embrapa já possui pesquisas relacionadas à aplicação de seleção genômica ampla em pinus.
No alto da floresta, sensores e imagens podem identificar diferenças de vigor, falhas de plantio e sinais de estresse. O LiDAR (Light Detection and Ranging), tecnologia de sensoriamento remoto ativo que utiliza pulsos de laser para medir distâncias, permite representar a estrutura tridimensional do povoamento, enquanto imagens multiespectrais e hiperespectrais podem revelar alterações que não são perceptíveis imediatamente ao olho humano.


A inteligência artificial entra como uma camada capaz de transformar essa quantidade de informação em decisão. Algoritmos podem auxiliar na contagem de árvores, identificação de falhas, classificação de copas, estimativa de biomassa e planejamento de intervenções.
Rodrigo Rubin, porém, vê uma transição mais gradual na automação. “A tecnologia que está vindo aí é para auxiliar o operador na produtividade, mas não a autonomia ainda.” Para ele, a operação totalmente autônoma ainda deve levar alguns anos para se tornar realidade no setor florestal.
Mas a tecnologia não significa, necessariamente, uma floresta sem trabalhadores. O engenheiro mecânico avalia que a autonomia completa das máquinas ainda está distante. O movimento mais imediato é outro. Equipamentos conectados e sistemas inteligentes para ampliar a produtividade do operador, e não eliminá-lo.
Há ainda um obstáculo prosaico para a floresta inteligente: a conectividade. A operação digital depende de transmissão de dados e, em áreas remotas, a internet via satélite ainda representa um custo relevante. A tecnologia está disponível, mas a adoção em escala depende de ela se tornar economicamente viável.
“A gente ainda fica limitado à internet via satélite, com um valor muito elevado no Brasil”, afirma Rubin. O custo, segundo ele, é um dos fatores que retardam a incorporação de algumas tecnologias mais sofisticadas às operações florestais.
A qualificação profissional também passa a ser decisiva. Quanto mais sofisticada a máquina, maior a necessidade de operadores capazes de interpretar dados, ajustar equipamentos e trabalhar com sistemas eletrônicos. A mecanização reduz o esforço físico de determinadas tarefas, mas aumenta a complexidade técnica de outras.
Produzir mais sem plantar mais
Talvez o dado mais estratégico dessa história esteja justamente na possibilidade de crescer sem necessariamente aumentar a área plantada.
O coordenador técnico executivo do Programa Cooperativo sobre Pesquisa do Pinus no Brasil (PPPIB), Rudi Witschoreck, aponta uma diferença significativa entre a média nacional e os resultados obtidos em ambientes de alto desempenho. Em condições favoráveis, Pinus taeda pode superar 40 metros cúbicos por hectare ao ano e, experimentalmente, chegar a 60. A distância entre esses extremos representa uma reserva de produtividade que pode ser buscada na área já existente.
Isso muda a lógica da expansão. Em vez de perguntar apenas quantos hectares novos poderiam ser plantados, o setor pode perguntar quanto mais madeira é possível produzir nos hectares que já existem. O caminho passa por material genético adequado ao ambiente, nutrição de precisão, manejo da densidade, controle de plantas daninhas, sanidade, desbastes no momento correto e sistemas capazes de prever o comportamento do povoamento. O zoneamento edafoclimático ganha importância porque a melhor árvore não é necessariamente a mesma em todos os lugares.
A adaptação às mudanças climáticas torna essa equação ainda mais complexa. A pesquisa busca materiais capazes de manter produtividade diante de períodos prolongados de seca, geadas severas e outras situações de estresse. O desafio deixa de ser simplesmente encontrar a árvore que cresce mais e passa a ser encontrar a árvore que cresce bem no lugar certo e consegue continuar crescendo quando as condições mudam.
Essa adaptação também alterou a geografia do cultivo. “Antigamente se tinha uma espécie única, duas, três no máximo, que se plantava no Brasil inteiro. Hoje se tem, em cada região, uma espécie diferente, com as melhorias genéticas e a melhor performance para cada região”, observa Rubin. Segundo ele, materiais mais adaptados ampliaram as possibilidades de cultivo para áreas que antes apresentavam limitações maiores.
A Embrapa já conduz projetos cooperativos voltados justamente à seleção de genótipos de pinus mais produtivos para madeira e resina e adaptados a diferentes condições edafoclimáticas. O solo também deverá assumir protagonismo maior. A manutenção da produtividade ao longo das rotações depende de compreender os fluxos de nutrientes e integrar fertilidade química, qualidade física e atividade biológica. Pesquisas da Embrapa mostram, inclusive, a importância de avaliar a exportação de nutrientes pela madeira retirada nos desbastes e na colheita.
De árvore para matéria-prima da bioeconomia
Se a primeira fase da história do pinus foi marcada pela conquista de produtividade, a próxima pode ser definida pela capacidade de transformar essa madeira em produtos de maior valor.
A madeira engenheirada é um dos caminhos. Produtos como CLT e madeira laminada colada podem ampliar a participação da madeira na construção civil e substituir, em determinadas aplicações, materiais de maior intensidade de emissões.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) projeta que o consumo mundial de produtos primários processados de madeira cresça 37% até 2050 em um cenário de negócios como de costume. A organização também aponta a madeira como material renovável, reciclável e versátil, com potencial crescente para substituir materiais não renováveis.
Em 2026, um relatório conjunto da FAO e da Bauhaus Earth reforçou essa perspectiva ao analisar o potencial de produtos engenheirados de madeira para contribuir com a mitigação das mudanças climáticas. A organização ressalta, porém, que os benefícios dependem de madeira de origem sustentável, eficiência no uso e reciclagem dos produtos e governança capaz de proteger e restaurar florestas naturais.
É nesse contexto que o pinus pode deixar de ser percebido apenas como tora, tábua, painel ou papel. A árvore passa a ser vista como uma plataforma de biomateriais, capaz de fornecer não apenas madeira e fibra, mas também moléculas e materiais para aplicações de maior valor agregado. Pesquisas em nanocelulose e biomateriais apontam para possibilidades de uso da fibra em materiais avançados, enquanto a construção com madeira engenheirada abre uma avenida para produtos de maior valor agregado.
O coordenador de Sustentabilidade e Políticas Florestais da Ibá, Diego Camelo, chama atenção ainda para o aproveitamento de componentes que tradicionalmente tiveram menor valor comercial, como lignina, casca e resíduos do processamento. “Rotas de biorrefinaria permitem transformar biomassa florestal em bio-óleos, biocombustíveis, produtos químicos e novos materiais. No caso específico do pinus, a Embrapa já desenvolveu uma rota de biorrefinaria para aproveitar a própria casca, muitas vezes subutilizada, na obtenção de taninos, lignina e nanocelulose, buscando maior aproveitamento da biomassa e baixa geração de resíduos”.
Essa lógica altera a própria definição de produtividade. Não se trata apenas de produzir mais metros cúbicos por hectare, mas de extrair mais valor de cada unidade de biomassa produzida, reduzindo desperdícios e ampliando o número de aplicações possíveis.
A FAO trata essa transformação como parte de uma bioeconomia florestal capaz de combinar produção, inovação, geração de empregos e substituição de materiais de origem fóssil, desde que a produção esteja associada ao manejo sustentável e à conservação.
A discussão também coloca o pinus dentro de uma equação maior, a da transição para uma economia de baixo carbono. Durante o crescimento, as árvores retiram CO₂ da atmosfera e armazenam carbono na biomassa, que pode permanecer estocado nos produtos de madeira durante sua vida útil. Para Diego Camelo, o valor estratégico das florestas cultivadas está justamente na combinação entre produção de matéria-prima renovável, armazenamento de carbono e conservação de áreas naturais.
No Brasil, essa combinação ocorre em paisagens formadas por áreas produtivas e de conservação. O manejo em mosaico, aponta Camelo, permite integrar a produção florestal à manutenção de vegetação nativa, contribuindo para a conservação da biodiversidade, do solo e dos recursos hídricos.
O Brasil parte de uma posição favorável. A FAO destaca a dimensão dos recursos florestais brasileiros, a experiência acumulada em florestas plantadas e a capacidade industrial do país. O desafio será converter essa vantagem de matéria-prima em vantagem tecnológica, agregando valor antes que a madeira deixe o território nacional.
O segundo século já começou
Há uma mudança ainda mais profunda nessa trajetória de 120 anos do pinus no Brasil. No início, o objetivo era descobrir se uma árvore estrangeira conseguiria sobreviver no país. Depois, passou a ser produzir madeira em escala. Mais tarde, produzir mais madeira por hectare. Agora, a questão é produzir mais, melhor, com menor vulnerabilidade climática, maior valor agregado e menor desperdício.
Para Fabio Brun, presidente da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (Apre Florestas), os 120 anos representam “a celebração de uma trajetória de ciência, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento”. Na avaliação do dirigente, o pinus permitiu formar uma cadeia de matéria-prima renovável para diferentes segmentos industriais e contribuiu para reduzir a pressão sobre florestas nativas.
O pinus brasileiro, nesse sentido, já não é exatamente o mesmo pinus que chegou ao país. É resultado de 120 anos de seleção e conhecimento acumulado. E a próxima geração de florestas será resultado não apenas da árvore escolhida, mas da quantidade de informação que será possível reunir sobre ela.
Brun resume a perspectiva para o futuro em uma frase que desloca o foco da árvore para aquilo que pode ser construído a partir dela. “A história do pinus no Brasil não é apenas a história de uma árvore, mas da capacidade de produzir riqueza, gerar empregos, conservar recursos naturais e contribuir para uma sociedade mais sustentável por meio da ciência, da inovação e do manejo florestal responsável.”
A comemoração dos 120 anos ganha, assim, um significado diferente. O aniversário não é apenas sobre uma espécie que se adaptou ao Brasil. É sobre um setor que aprendeu a fazer ciência em torno de uma árvore e que agora precisa decidir o que fará com todo o conhecimento acumulado. Porque talvez a pergunta mais importante para os próximos 120 anos não seja quantos pinus o Brasil conseguirá plantar. É quanto valor será capaz de extrair, de forma sustentável, de cada árvore que já consegue produzir.






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