Até o próximo boletim

Conab mantém previsão de boa safra para conilon, produtores relatam quebra de até 40%

Companhia sustenta estimativa de queda de 4,2% para o conilon capixaba após super safra, enquanto apuração da Conexão Safra aponta perdas que chegam a 40% em regiões produtoras

colheita café Bolsa Família
Foto: Marcelo Camargo/ABr

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mantém, por enquanto, a estimativa de queda de 4,2% para a safra 2026 de café conilon no Espírito Santo. O percentual indica uma produção ainda elevada, já que a comparação é feita com 2025, ano considerado de supersafra. A posição foi enviada à Conexão Safra após a reportagem questionar a diferença entre os dados oficiais do boletim divulgado em maio, com informações coletadas em abril, e os relatos recentes de produtores, especialistas, cooperativa e extensionista do Incaper, que apontam perdas bem mais acentuadas no campo, especialmente no norte capixaba. Segundo a apuração da Conexão Safra, a quebra chega a 40% em algumas regiões.

Em nota, a Conab informou que o levantamento reflete as condições observadas em abril, no início da colheita, quando ainda não estavam consolidados indicadores como produtividade efetivamente colhida, rendimento de secagem e peso final dos grãos. O próximo boletim será divulgado em setembro, mas a companhia não informou se haverá revisão dos números. “A estimativa oficial permanece a divulgada no segundo levantamento. O próprio boletim aponta que a safra tende a ser expressiva, embora inferior ao desempenho excepcional registrado em 2025”, informou a Companhia.

Levantamento de abril

No segundo levantamento da safra brasileira de café, a Conab estimou produção de 13,6 milhões de sacas de conilon no Espírito Santo. O volume representa uma redução de 4,2% em relação ao ciclo anterior. Ainda assim, o boletim afirma que a safra deverá ser “prolífica, apenas um pouco menor” que a de 2025, considerada excepcional e recorde no estado.

Na resposta enviada à reportagem, a Companhia informou que a estimativa oficial segue sendo a do segundo levantamento.

“A estimativa é aquela divulgada no segundo levantamento da safra 2026. O levantamento reflete as condições observadas durante a coleta de informações realizada em abril, no início da colheita. Naquele momento, ainda não estavam consolidados indicadores como a produtividade efetivamente colhida, o rendimento de secagem e o peso final dos grãos”, informou a Conab.

A resposta foi solicitada depois que a Conexão Safra publicou reportagem mostrando que a percepção no campo é diferente da leitura apresentada no boletim. A apuração ouviu produtores, prestadores de serviço de secagem e pila, especialistas de mercado, cooperativa e uma extensionista do Incaper que acompanha uma área ampla de produção e mantém contato direto com cafeicultores.

Os relatos indicam uma safra bem menor que a esperada inicialmente. Em municípios como Rio Bananal, Vila Valério, Jaguaré, Pinheiros e Sooretama, produtores apontaram perdas acima de 30%, chegando a 40% em parte das lavouras. Em alguns casos pontuais, os percentuais relatados foram ainda maiores.

O Espírito Santo responde por cerca de 67% da produção nacional de café conilon, segundo estimativas da própria Conab para a safra 2026. Por isso, a diferença entre a projeção oficial e a leitura feita por fontes ligadas diretamente à produção tem impacto para o mercado, para a renda dos produtores e para a avaliação nacional da oferta da espécie.

A Conab reconheceu que os relatos de produtores e técnicos são relevantes, mas ponderou que essas informações precisam ser analisadas dentro de um recorte mais amplo da cafeicultura capixaba. “Eles são relevantes e fazem parte do processo contínuo de acompanhamento da safra. Entretanto, é importante destacar que a percepção individual ou regional nem sempre representa o comportamento do conjunto da cafeicultura capixaba e precisa ser avaliada considerando as diferenças existentes quanto à idade das lavouras, nível tecnológico, manejo, disponibilidade hídrica e condições climáticas”, informou a Companhia.

A Conexão Safra reitera que a reportagem não se baseou em uma percepção isolada. A apuração reuniu fontes de diferentes perfis, regiões e posições dentro da cadeia do conilon. Além dos próprios cafeicultores, foram ouvidos especialistas, representantes de cooperativa, prestadores de serviço que acompanham a chegada do café para secagem e pila, e uma extensionista que atua diretamente no atendimento a produtores.

Em Rio Bananal, maior produtor de conilon do Espírito Santo, conforme o Anuário do Agronegócio Capixaba de 2025, produtores de diferentes localidades relataram perdas relevantes. A extensionista do Incaper e coordenadora do escritório local, Laíz Oliveira, afirmou à Conexão Safra que a quebra passou a aparecer com mais força à medida que a colheita avançou. Segundo ela, há relatos de perdas de 25%, 30% e 40%, além de atraso na maturação dos frutos.

Marcus Magalhães, presidente do Sindicato dos Corretores de Café do Estado do Espírito Santo e especialista em mercado do agronegócio, também apontou frustração em parte das regiões produtoras. Segundo ele, havia expectativa de que o estado colhesse uma safra de conilon maior que a anterior, mas a colheita revelou perdas em determinadas áreas, principalmente no norte capixaba e no sul da Bahia.

A Cooabriel, maior cooperativa de café conilon do Brasil, também trabalha com uma safra menor que a de 2025, embora em percentual menos acentuado que o relatado por parte dos produtores. O presidente da cooperativa, Luiz Carlos Bastianello, afirmou que ainda é cedo para estimar um número definitivo, mas que a perspectiva inicial é de redução entre 10% e 15% na produção geral em comparação com o ciclo anterior.

Na resposta enviada à Conexão Safra, a Conab afirmou que o segundo levantamento já considerava a heterogeneidade do parque cafeeiro capixaba. A companhia informou que as lavouras mais velhas, mais depauperadas e com menor carga floral foram incluídas na avaliação técnica da produtividade esperada.

O boletim reconhece que essas áreas foram afetadas pela elevada produção registrada em 2025. Ainda assim, a Conab afirmou que também observou condições positivas em parte das lavouras, especialmente nas mais jovens.

“Por outro lado, também foram observadas condições climáticas favoráveis ao longo do segundo semestre de 2025 e durante o verão de 2026, contribuindo para a manutenção do potencial produtivo. Foram identificadas, principalmente em lavouras mais jovens, plantas em boas condições vegetativas, maior enfolhamento e boa carga de frutos, além da entrada de novas áreas em produção”, informou a companhia.

Outro ponto questionado pela reportagem foi a questão fitossanitária. O boletim da Conab informa que não havia registro de perdas significativas por pragas e doenças no conilon capixaba, apenas ocorrências pontuais e dentro do nível de controle para problemas usuais da cultura, como cochonilhas, ácaro vermelho, broca-do-café e doenças fúngicas.

Produtores, técnicos e especialistas ouvidos pela Conexão Safra relataram pressão relevante de pragas, especialmente cochonilha e broca, além de dificuldades no pegamento da florada, atraso na maturação e queda de frutos. A Conab respondeu que a avaliação publicada corresponde ao cenário observado no período da coleta dos dados.

“Naquele momento, não foram identificadas perdas fitossanitárias significativas em escala estadual, embora tenham sido registrados problemas pontuais relacionados a pragas e doenças usuais da cultura”, informou a Conab.

Informações em análise

A Companhia confirmou que recebeu novos relatos e dados de campo sobre problemas fitossanitários após a publicação do boletim. Segundo a Conab, essas informações seguem em análise e serão confrontadas com os dados atualizados dos próximos levantamentos.

A metodologia, segundo a Companhia, contempla todas as regiões produtoras de conilon no Espírito Santo. Para fins estatísticos, o estado é dividido em quatro grandes regiões produtoras, sendo Litoral Norte, Noroeste, Central e Sul. A amostragem considera diferentes estratos de área das propriedades, com questionários aplicados diretamente a produtores rurais e abrangência nos municípios produtores de café do Espírito Santo.

Mesmo mantendo a previsão atual de safra alta, a Conab não descarta revisão dos números. A companhia informou que o acompanhamento é dinâmico e que as estimativas são atualizadas conforme a evolução das lavouras, o avanço da colheita, as condições climáticas, as informações levantadas em campo, as ferramentas de sensoriamento remoto e demais fatores técnicos que possam influenciar área, produtividade e produção.

“O próximo levantamento deverá incorporar informações atualizadas sobre ritmo da colheita, área colhida e produtividade observada. Caso as evidências indiquem cenário distinto daquele observado anteriormente, as estimativas poderão ser revisadas de acordo com os critérios metodológicos da pesquisa”, informou a Conab.

O próximo levantamento de campo está previsto para a segunda quinzena de agosto, com divulgação dos resultados em 24 de setembro.

Confira a resposta completa da Conab:

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) informa que cabe esclarecer que a Conab acompanha a safra brasileira de café em quatro levantamentos ao longo do ciclo. Cada levantamento busca refletir o cenário mais provável para a safra, a partir das informações disponíveis no respectivo período. As estimativas são atualizadas conforme a evolução das lavouras, o avanço da colheita, as condições climáticas observadas e previstas, as informações levantadas em campo, as ferramentas de sensoriamento remoto e demais fatores técnicos que possam influenciar a área, a produtividade e a produção.

A Conab mantém, neste momento, a estimativa de queda de apenas 4,2% para o conilon capixaba em 2026?

Sim. A estimativa é aquela divulgada no segundo levantamento da safra 2026.

O levantamento reflete as condições observadas durante a coleta de informações realizada em abril, no início da colheita. Naquele momento, ainda não estavam consolidados indicadores como a produtividade efetivamente colhida, o rendimento de secagem e o peso final dos grãos. A estimativa apresentada representava a expectativa para a safra com base nas informações disponíveis naquele período.

Como a Conab avalia os relatos de produtores e técnicos que apontam perdas muito superiores, especialmente no norte do Espírito Santo, principal região produtora da espécie?

Eles são relevantes e fazem parte do processo contínuo de acompanhamento da safra.

Entretanto, é importante destacar que a percepção individual ou regional nem sempre representa o comportamento do conjunto da cafeicultura capixaba e precisa ser avaliada considerando as diferenças existentes quanto à idade das lavouras, nível tecnológico, manejo, disponibilidade hídrica e condições climáticas.

O boletim reconhece que lavouras mais velhas estão mais depauperadas, com maior desfolha e carga floral reduzida, e informa que essas lavouras representam cerca de 70% do parque cafeeiro local. Como esse fator foi ponderado no cálculo da produtividade e da produção final estimada?

As condições das lavouras mais velhas foram consideradas tanto nas observações de campo quanto na avaliação técnica da produtividade esperada. O segundo levantamento já considerava a heterogeneidade do parque cafeeiro capixaba. O boletim destacou que as lavouras mais velhas apresentavam maior grau de desfolha e menor carga floral, influenciadas, em parte, pela elevada produção observada na safra anterior.

Por outro lado, também foram observadas condições climáticas favoráveis ao longo do segundo semestre de 2025 e durante o verão de 2026, contribuindo para a manutenção do potencial produtivo. Foram identificadas, principalmente em lavouras mais jovens, plantas em boas condições vegetativas, maior enfolhamento e boa carga de frutos, além da entrada de novas áreas em produção.

Além disso, informações relacionadas à renovação dos cafezais, às condições produtivas das lavouras, inclusive aquelas associadas à sua idade, e ao perfil produtivo das propriedades integram o conjunto de informações avaliadas na pesquisa e subsidiam a consolidação das estimativas.

O documento afirma que a safra deverá ser “prolífica, apenas um pouco menor” que a de 2025, considerada excepcional e recorde no estado. A Conab entende que essa avaliação ainda corresponde ao que está sendo verificado com o avanço da colheita?

A estimativa oficial permanece a divulgada no segundo levantamento. O próprio boletim aponta que a safra tende a ser expressiva, embora inferior ao desempenho excepcional registrado em 2025.

Outro ponto de divergência está na questão fitossanitária. O boletim informa que não há registro de perdas fitossanitárias significativas, apenas ocorrências pontuais e dentro do nível de controle para pragas e doenças usuais do conilon capixaba, como cochonilhas, ácaro vermelho, broca-do-café e doenças fúngicas. Porém, técnicos e produtores ouvidos pela reportagem relatam pressão relevante de pragas, especialmente cochonilha e broca, além de problemas no pegamento da florada, atraso na maturação e queda de frutos.

A informação publicada no boletim corresponde às condições observadas durante a coleta de dados que subsidiou a estimativa de maio. Naquele momento, não foram identificadas perdas fitossanitárias significativas em escala estadual, embora tenham sido registrados problemas pontuais relacionados a pragas e doenças usuais da cultura.

A ocorrência localizada de cochonilha, broca, ácaros, doenças fúngicas, problemas de pegamento de florada, atraso de maturação ou queda de frutos pode afetar de forma distinta determinadas lavouras e regiões. Essas informações seguem sob acompanhamento e serão confrontadas com os dados atualizados dos próximos levantamentos.

A Conab recebeu novos relatos ou dados de campo sobre problemas fitossanitários após a publicação do boletim?

Sim. A análise é contínua e os resultados serão divulgados no próximo levantamento.

Essas informações poderão levar a alguma revisão no próximo levantamento?

O acompanhamento das safras é dinâmico e as informações são reavaliadas a cada nova etapa. Conforme os dados coletados no próximo levantamento, as estimativas poderão ser revisadas.

Também gostaríamos de entender melhor a metodologia. Quais regiões produtoras do Espírito Santo foram consideradas no levantamento de campo para o conilon? A amostragem permite captar diferenças entre lavouras novas e velhas, áreas irrigadas e não irrigadas, e regiões com maior concentração de perdas?

No Espírito Santo, o levantamento contempla todas as regiões produtoras de café conilon. Para fins estatísticos, o estado é dividido em quatro grandes regiões produtoras: Litoral Norte, Noroeste, Central e Sul.

A amostragem considera diferentes estratos de área das propriedades, permitindo representar a heterogeneidade da cafeicultura capixaba. O levantamento conta com questionários aplicados diretamente a produtores rurais e abrange os municípios produtores de café do Espírito Santo.

Por fim, como o próximo levantamento da Conab, já com a colheita mais avançada, deve incorporar esses relatos de quebra mais acentuada? Existe possibilidade de revisão significativa da produção estimada para o conilon capixaba?

O próximo levantamento deverá incorporar informações atualizadas sobre ritmo da colheita, área colhida e produtividade observada. Caso as evidências indiquem cenário distinto daquele observado anteriormente, as estimativas poderão ser revisadas de acordo com os critérios metodológicos da pesquisa. A dimensão de eventual ajuste dependerá dos dados coletados e da validação técnica das informações.

O próximo levantamento de campo está previsto para a segunda quinzena de agosto, com divulgação dos resultados em 24 de setembro.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos