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O agro brasileiro não para. E o mercado de capitais notou esse potencial e abraçou o Fundo de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagro). Na prática, o poupador, aquele que tem um dinheiro guardado, vai emprestar para o produtor rural. Claro, como tudo no mercado financeiro, há regras e há riscos, afinal, estamos falando de uma indústria a céu aberto, sujeita às intempéries. Mas é difícil pensar que um segmento essencial para a sobrevivência humana e, atualmente, pressionado por conta de guerras e crises energéticas, possa gerar prejuízos. O ex-secretário de Agricultura do Espírito Santo, produtor rural e atual diretor de agronegócios na EloGroup, Octaciano Neto lida diretamente com os desafios do setor e fala sobre as benesses de investir no Fiagro e financiar o agronegócio brasileiro. Confira na entrevista:
Octaciano, quais são as formas de financiamento da produção hoje em dia e como o Fiagro entra nessa equação?
O produtor tem algumas formas de financiar uma produção. Tem o Plano Safra, do Governo Federal, tem operações de barter, que é uma espécie de escambo americanizado, quando o produtor pega insumos e paga com produtos. Há ainda o mercado de crédito, que é quando o banco ou cooperativa de crédito usa o dinheiro dos poupadores e empresta para o produtor. O risco de inadimplência é todo do banco, que vai arcar com o prejuízo caso o tomador do empréstimo não pague. Há também o mercado de capitais, que funciona quando nós temos um valor e queremos aplicar o dinheiro. Pode ser na poupança, em ações ou em cotas de um Fiagro. Nesse caso, o risco é do poupador. Na prática, o Fiagro é um novo instrumento para financiar e colocar mais dinheiro no agronegócio brasileiro. Ele supre essa necessidade da falta de crédito do Plano Safra, que oferece um terço do crédito necessário hoje em dia.
O pequeno produtor rural tem acesso a esse dinheiro?
Hoje ainda não é possível o produtor, ao menos o pequeno, ter acesso a esse dinheiro, porque a gestora tem que conhecer o histórico daquele para quem vai emprestar. E fazer esse reconhecimento individual ficaria muito caro. Mas temos cooperativas que têm balanço, são auditáveis. Então ela pode pegar dinheiro de um Fiagro e, aí sim, ela mesma financiar o produtor.
E para o poupador, vale a pena investir no agronegócio?
Vale a pena sim. Mas tudo que ouço dos especialistas é que o poupador não deve colocar mais de 30% do seu dinheiro num setor apenas. Se sou poupador, a ideia é colocar uma parte do meu dinheiro no Fiagro para emprestar ao agro, mas tenho que colocar nos outros setores, como energia e tecnologia, por exemplo. Todos os setores têm riscos. Não há investimentos sem risco.
Como começar, na prática, a colocar dinheiro no agro brasileiro?
É preciso usar homebroker (sistema oferecido por diversas companhias para conectar seus usuários ao pregão eletrônico no mercado de capitais e no mercado de private equity). Atualmente, temos 25 Fiagros listados na bolsa. Há cotas que custam R$ 10 e podem ser compradas em segundos. Tem que olhar os relatórios e escolher duas ou três e investir. E é esse dinheiro do investidor que a gestora empresta para produtores e operações de agro. VEJA AQUI TODOS OS FUNDOS LISTADOS NA BOLSA DE VALORES E A RENTABILIDADE DE CADA UM
Há riscos em investir no agronegócio?
O agro é o setor mais essencial da economia mundial. A maior parte do agro é alimento. E não há nada de mais relevante para uma sociedade do que alimentação. Mas o agro não para por aí. Ele produz comida, energia, fibras. Todos setores essenciais. Desde a tropicalização das técnicas de agricultura – elas foram pensadas para países temperados, mas conseguimos adaptá-las -, o agronegócios brasileiro cresceu e hoje alimenta 10% da população mundial. É um setor de muito risco, já que é uma indústria a céu aberto, mas os produtores aprenderam muito bem como lidar com esse risco.
De que forma podemos melhorar esse processo de investir no agro?
É um sonho o processo de uma cadeia de crédito sem intermediários. Há muita gente entre o poupador, que põe dinheiro no Fiagro, e o produtor, que busca esse crédito. E todos ganham um pouco e, claro, fica mais caro para o produtor. Com as tecnologias digitais a ideia é individualizar o risco de crédito, com algoritmos fornecendo dados sobre esse risco de crédito de todos os produtores. Isso diminui o custo de captar um novo cliente e emprestar dinheiro para ele. Quando todo esse processo for digital, o custo ficará muito mais barato.
Muitos países subsidiam suas produções. No Brasil, isso ainda é raro. Como o senhor analisa esse processo?
O Brasil, se comparado a outros países, tem poucos subsídios para sua agricultura. Mas essa, no fim das contas, foi uma boa estratégia. Setores que não são subsidiados se reinventam e hoje são competitivos. Sobretudo a partir da década de 1990, caiu o investimento federal de 9% para menos de 2%. Então, precisamos desenvolver tecnologias e buscar formas de tornar o negócio competitivo. Eu olho o copo meio cheio, e digo que, por não ter subsídio, somos mais competitivos.





