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“O papel das mulheres na cafeicultura mudou drasticamente. Hoje, elas são fundamentais para a inovação e a gestão eficaz de recursos dentro de uma empresa”, afirma Laura Vanessa Usuga Mejia, jovem produtora de Medellín, Colômbia.
Historicamente, as mulheres já ocupam papel fundamental na produção de café ao redor do mundo há séculos. Porém, assim como no Brasil e em nossos vizinhos da América Latina, esse trabalho também foi invisibilizado ao longo dos anos.
Agora, essa realidade começa a mudar na Colômbia. Terceiro maior produtor de café do mundo, o país tem 160.000 mulheres produtoras de café. E é para expandir a produção e a renda que muitas delas vêm tomando a frente em ações que focam em inovação.
“Tenho muito orgulho de ser cafeicultora porque estamos participando cada vez mais de diferentes setores. É um campo predominantemente masculino, mas as mulheres estão cada vez mais assumindo o protagonismo nas fazendas e vemos mais delas com marcas de café fazendo um trabalho incrível”, declara Natalia Llanos, outra jovem produtora que também vem dando novo fôlego à produção da família.

Os dados ainda mostram que elas têm muito espaço para conquistar. Segundo a Federação Nacional de Cafeteiros da Colômbia (FNC), até 2022, apenas 31% dos produtores de café na Colômbia eram mulheres. E, no setor da comercialização de café verde nos mercados locais, as tarefas eram ainda mais dominadas por homens, girando entre 80% e 90% do total de trabalhadores da área.
Vale pontuar que esses dados revelam os nomes que estão em escrituras e documentos. Muitas vezes, as mulheres do campo perdem destaque justamente por não terem seus nomes incluídos como donas das propriedades ou parte da mão de obra camponesa.
Mulheres liderando negócios de café na Colômbia
A partir destes dados oficiais, contudo, algumas ações têm possibilitado o avanço da participação feminina no setor cafeeiro do país. “Na Colômbia, as mulheres agora recebem mais apoio, inclusive do governo, que nos últimos anos tem incentivado a participação feminina em projetos rurais, oferecendo suporte econômico, técnico e de outras naturezas para melhorar a qualidade de vida das famílias, promover a autonomia e fomentar o crescimento pessoal”, revelou Mejia.
E esse incentivo tem surtido efeito. Recentemente, a participação delas também tem avançado em setores onde há tomada de decisão acontecendo. Ainda de acordo com os dados mais recentes da FNC, em 2022:
• 24% dos membros dos comitês municipais são mulheres (em comparação com 16% no período de quatro anos anteriores).
• 15% dos membros dos comitês departamentais são mulheres (em comparação com 8% no período de quatro anos anteriores).
• 26% da área plantada com café está nas mãos de mulheres.
Para acessar mercados de alto valor, algumas das articulações do governo colombiano e das produtoras foram a criação do “Programa de Mulheres Produtoras de Café”, com a missão de promover a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres em toda a organização, e da Política de Equidade de Gênero, lançada pela FNC no final de 2021.
Não é à toa que a própria Juan Valdez, marca da FNC para cafeterias e negócios de valor agregado, criou uma linha de cafés produzidos por mulheres e o programa Mulheres Cafeicultoras. Segundo a Juan Valdez, “a iniciativa de marketing para o café produzido por mulheres, tem por objetivo aumentar ainda mais sua visibilidade, melhorar sua renda e continuar promovendo seu acesso ao mercado internacional”.
Mais de 1.000 mulheres já participaram do programa em nível nacional, e mais de 400 foram capacitadas em gestão ambiental, igualdade de gênero, questões organizacionais, marketing, produtividade, qualidade e lucratividade.
Para se ter uma ideia do tamanho do mercado de olho no café produzido por elas, hoje o programa produz 270 toneladas, aproximadamente.
De olho em inovação
Fermentação, variedades e, no centro, o turismo. Tudo isso tem sido sementes plantadas – e até já colhidas – pelas mulheres do café da Colômbia. A passos largos, as mulheres, em especial as mais jovens, vêm tomando a frente da sucessão familiar e buscando na inovação uma forma de elevar as finanças no café.
E, para desbravar essas novas possibilidades de fonte de renda, elas ultrapassam as porteiras da propriedade. Muitas vezes, percorrendo literalmente centenas de quilômetros para levar a qualidade da produção diretamente até os consumidores.
Foi assim que conheci Natalia Llanos, a terceira geração da família na cafeicultura. Ela viaja cerca de 6 horas do sul da Colômbia até a capital, Bogotá, onde comercializa cafés e outros produtos da fazenda.
Cafeicultora do município de Garzón, no departamento de Huila, Llanos vem toda semana participar do Tradicional Mercado de las Pulgas de Usaquén. A feira reúne artesãos e produtores de diversos itens, incluindo alimentos. E é uma ponte entre os cafés e turistas de todo o mundo.


Ali, Natalia e a família comercializam cafés torrados em grãos ou moídos, além de outros produtos. E aqui vem uma das inovações incentivadas por ela: a economia circular.
A preocupação em aproveitar cada pedaço da produção e gerar menos impacto resulta em novos itens à venda. “Temos, além dos cafés, pacotinhos com cáscara de café. É um produto de economia circular e, para isso, usamos todos os derivados de café que podemos, incluindo a casca do fruto, que é assada com açúcar de cana”, explicou ela sobre o alimento, vendido como uma opção de petisco.
Crescendo na cafeicultura
Mas, para chegar até o trabalho de hoje, com investimento em qualidade, marketing e na ampliação dos produtos oferecidos, a jovem descobriu, na prática, o potencial da cafeicultura.
O interesse de Llanos surgiu enquanto acompanhava o trabalho do pai, cafeicultor de segunda geração, que passou, inclusive, a se aventurar em viagens por meio da Federação Nacional de Cafeicultores. Foi nessas oportunidades que a família e a própria Natalia começaram a aprender sobre cafés especiais.
Ainda assim, a produtora demorou para tomar a decisão de participar de fato do setor. “Eu não estudei nada relacionado a café e acho que nunca imaginei trabalhar com ele, mas, quando descobri o mundo dos cafés especiais, foi amor à primeira vista.”
Hoje, Llanos é gerente geral da marca Sié, criada para comercializar os cafés produzidos por eles em Huila. “Gosto muito da parte comercial. Acho que é o departamento em que me sinto mais à vontade”, revela.
A marca de café torrado está no mercado há aproximadamente cinco anos. “Minha principal motivação para criar a Sié foi dar visibilidade aos mais de 45 anos de trabalho do meu pai e incentivar o consumo de café de qualidade”, conta.
Um avanço coletivo
No departamento de Huila, estão aproximadamente 80 mil famílias. E é trabalhando em conjunto que Llanos acredita que os cafeicultores da região conseguirão avançar mais.
“Parcerias são importantes no mundo do café. Trabalhamos em conjunto com familiares e amigos que são produtores, incluindo a Finca Nogales, uma grande aliada para variedades e diferentes processos de fermentação, onde a inovação é fundamental e o treinamento contínuo é a chave para o sucesso”, destacou ela.
“É um grande desafio manter-se no mercado, continuar conquistando paladares e aumentar nossa visibilidade local”, disse a empreendedora. Para driblar as barreiras e chegar ao consumidor, o objetivo é seguir trazendo novidades, como uma linha de cafés torrados especialmente para espresso, além de alcançar lojas internacionalmente com o café torrado.
O processo de sucessão familiar também vem florescendo na região de Antioquia, bem pertinho da cidade de Medellín. É ali que fica a propriedade da família Usuga, que hoje tem Laura como um norte na inovação e no comércio.

A apenas 20 minutos de carro de Medellín, no distrito de Santa Elena, conhecido por suas flores e café, Laura cresceu vendo a cafeicultura ser o centro das atenções. “Minha família trabalha com café há mais de 200 anos, principalmente com métodos tradicionais de cultivo. Há sete anos, decidimos mudar para a agricultura orgânica”, conta ela.
E foi outra empresa, estrangeira e comandada por mulheres, que auxiliou a família a investir em qualidade. “Meus pais foram pioneiros no cultivo de cafés especiais em Medellín. Eles receberam apoio técnico quando uma empresa belga descobriu nosso café. Um dia, quando levamos alguns grãos para torrar para nosso próprio consumo, a empresa Velvet veio até a fazenda. Depois de provarem nosso café, mostraram aos meus pais a oportunidade que tínhamos”, lembra.
Turismo rural e café de altura
Assim, o café especial trouxe também outras portas para diversificar a renda dos Usuga. E eles não perderam a chance de destravar todas essas possibilidades e partir para o café especial e, depois, para o turismo rural.
A região no entorno de Medellín sofreu com conflitos e violência, mas é justamente no desenvolvimento rural que muitas famílias apostaram para ressignificar o espaço e trazer oportunidades à população. E, aqui, o café ocupou esse espaço junto ao turismo.
“Como nossa propriedade fica muito perto da cidade e a qualidade do nosso café representava uma oportunidade significativa para o turismo na cidade e para o crescimento econômico da família, meus pais decidiram arriscar e começar a trabalhar com cafés especiais”, explicou Laura.
O turismo se firmou como realidade para a família por meio das mãos de Laura, que trouxe o impulso necessário para implementar o roteiro e divulgá-lo digitalmente.


“Esta foi minha contribuição como jovem. Essa mudança geracional em que acreditamos e que nos define entrou em cena. Busquei não apenas inovações na agricultura, mas também explorei alternativas de crescimento no turismo, em diferentes plataformas que nos ajudam a conectar com diversos países. É o caso do Airbnb, onde oferecemos a melhor experiência em Medellín”, orgulha-se ela, que conquistou a melhor avaliação da plataforma para tour de café na cidade.
Mas as inovações não pararam por aí. Com as visitas constantes, vieram também pedidos por café torrado para venda direta ao consumidor. E Laura não hesitou em se tornar a própria mestre de torra da sua marca, que fecha o ciclo da produção à venda dos pacotes na propriedade.
“Agora torramos nosso próprio café e, além disso, temos a capacidade de apoiar outros cafeicultores comprando café de qualidade a preços justos e competitivos. Isso representa uma melhoria não só individual, mas também coletiva para nossa comunidade cafeicultora, que foi tão negligenciada durante anos”, declarou.
Esta experiência turística, que já é oferecida em espanhol e inglês, deu base para a criação de cinco linhas de café diferenciadas, cada uma com um sabor e aroma únicos.
Mas a produtora não quer parar por aqui. Laura está agora concluindo a graduação em Comércio Internacional, com o objetivo de garantir que sua marca continue chegando ao maior número possível de países, além de contribuir com a imagem dos cafés da Colômbia como um todo.
“Pretendemos continuar focando em microlotes ou variedades exóticas, já que as pessoas buscam diversidade, sabores ou novos perfis. Também queremos nos tornar a primeira fazenda de cacau em Medellín. Estamos trabalhando nisso e esperamos, em breve, conectar esses dois produtos, que juntos formam uma excelente combinação”, concluiu a empreendedora.
Fotos: divulgação / Agência de desarrollo rural de Colombia / Thais Fernandes.





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