Tempo e agronegócio

Clima vai redesenhar mapa do café arábica até 2050; conheça os impactos no Brasil

Estudo da RaboResearch projeta avanço das áreas inadequadas ao café arábica até 2050, indica perda de aptidão em países-chave da América Latina e aponta que adaptação e diversificação serão decisivas para preservar oferta, qualidade e identidade de origem

Cafezal, sol, verão, previsão do tempo
Imagem: Conexão Safra/IA

A geografia global do café arábica, uma das commodities agrícolas mais sensíveis às condições ambientais, começou a mudar antes mesmo de o mercado assimilar plenamente a dimensão do problema. Com temperaturas em alta, chuvas mais irregulares e maior incidência de extremos climáticos, áreas hoje consolidadas para o cultivo tendem a perder aptidão nas próximas décadas, enquanto outras regiões ganham espaço. O movimento não ameaça apenas a oferta. Ele também pode atingir o coração simbólico e econômico do setor: a consistência sensorial, a reputação das origens e o valor agregado construído em torno de territórios tradicionais.

É essa a principal conclusão do relatório Climate change redefines suitability and resilience in global arabica coffee production, divulgado pela RaboResearch em 20 de março de 2026. O estudo estima que 8% das áreas atuais de cultivo de arábica já se enquadram como inadequadas para a cultura e projeta que essa fatia poderá chegar a 20% até 2050, sob o cenário climático SSP3-7.0. Na prática, isso significa que a mudança climática no café arábica deixará de ser uma hipótese de longo prazo para se consolidar como variável central nas decisões de produção, compra, investimento e posicionamento de marca.

O relatório parte de uma constatação elementar, mas decisiva: o café arábica depende de um equilíbrio climático estreito. Temperaturas moderadas, regime sazonal de chuvas e condições específicas de altitude e sombra são parte da equação biológica da cultura. Quando esse equilíbrio se rompe, a lavoura não desaparece automaticamente, mas passa a operar sob maior risco, com produtividade mais instável, custos mais altos e necessidade crescente de adaptação. É por isso que os autores fazem uma distinção importante: áreas classificadas como marginais ou inadequadas ainda podem produzir, mas em condições mais vulneráveis.

A pressão não será uniforme entre os principais países exportadores. O estudo indica que o Brasil continuará com uma base territorial relevante para o arábica, embora enfrente perda expressiva de aptidão em termos absolutos. Hoje, 81% da área colhida atual está em zonas classificadas como adequadas; em 2050, esse percentual pode cair para 62%. Ainda assim, no quadro comparativo global, o país tende a preservar uma condição relativamente mais favorável que a de concorrentes importantes. O alerta, no caso brasileiro, está menos em um colapso generalizado e mais no avanço da marginalidade climática sobre áreas de alta produtividade, como partes do norte de Minas Gerais.

Na Colômbia, o cenário é mais delicado. O relatório projeta aumento da participação de áreas inadequadas de 7% para 18% até 2050, enquanto a fatia de lavouras em zonas adequadas recuaria de 56% para 45% da área atual de produção. Em Honduras, a deterioração aparece como a mais severa entre os casos analisados: as áreas adequadas poderiam encolher de 53% para apenas 12% da produção atual, deixando cerca de 85% do cultivo em condições marginais. Guatemala deve permanecer relativamente estável, mas com predominância de áreas marginais, sujeitas a maior volatilidade climática. Na direção oposta, a Etiópia desponta como a principal beneficiária potencial da redistribuição climática, com expansão das zonas adequadas de 39% para 50% da área hoje cultivada e triplicação das áreas altamente adequadas, de 4% para 13%.

Essas transformações ajudam a explicar por que a mudança climática no café arábica passou a preocupar não apenas produtores, mas toda a cadeia. O relatório sustenta que a questão vai além do volume disponível. O café, especialmente no segmento de maior valor agregado, não é comprado só como mercadoria. Ele é adquirido também como origem, perfil sensorial, narrativa territorial e relação de confiança entre comprador e fornecedor. Quando o clima altera as condições de solo, altitude, luminosidade, chuva e temperatura que moldam a bebida, o impacto pode aparecer na xícara e, mais adiante, na força comercial de marcas ancoradas em procedência.

Na América Latina, onde predominam cafés associados a notas de chocolate e caramelo, a pressão tende a crescer. Na América Central, a área adequada pode cair de cerca de 23% para 17% até 2050, enquanto as áreas marginais avançariam para 80% da produção atual. Na América do Sul, a proporção de áreas adequadas recuaria de aproximadamente 70% para 55%. Para países e marcas que construíram valor sobre a estabilidade da origem, o risco não é abstrato. O estudo cita diretamente a possibilidade de prejuízo para identidades comerciais fortemente associadas à procedência, como cafés vendidos sob o apelo de “100% colombiano” ou de departamentos específicos do país. Se a produção migrar para novas zonas ou passar a depender mais de misturas entre regiões com características distintas, a padronização do sabor e o prêmio de origem podem ser afetados.

No leste africano, por outro lado, o quadro abre oportunidades. Países conhecidos por cafés de perfil frutado e floral podem ganhar relevância estratégica num mercado em busca de diversificação de risco e de complexidade sensorial. Segundo o relatório, a parcela de áreas adequadas ao arábica na região pode subir de 38% para 49% até 2050, enquanto as áreas muito adequadas saltariam de 3% para 12%. O documento observa que esse movimento talvez já esteja começando a se refletir no mercado: a Etiópia registrou aumento de 34% nas exportações no último ano e Madagascar surge como novo ator, com embarques multiplicados por cinco nos últimos anos.

A Ásia aparece como um bloco relativamente mais estável em termos de aptidão climática, embora a maior parte de sua produção atual deva permanecer em condição marginal. É uma estabilidade limitada, que reduz a dramaticidade da perda, mas não elimina restrições estruturais. Em outras palavras, não se trata de uma grande fronteira de expansão fácil, e sim de uma região que pode atravessar a transição com menos ruptura do que partes da América Latina.

A resposta a esse novo mapa do café já começou e combina soluções agronômicas, genéticas e comerciais. O relatório destaca que, em áreas marginais do norte de Minas Gerais, a irrigação tem permitido boas produtividades. Também cita sistemas agroflorestais, capazes de reduzir a temperatura sobre o dossel e amortecer eventos extremos, além da migração parcial para o robusta em zonas mais quentes e secas. No campo varietal, a Colômbia ampliou o uso das cultivares Castillo e Castillo 2.0, desenvolvidas pelo Centro Nacional de Investigaciones de Café (Cenicafé), enquanto a América Central avança com híbridos F1 mais tolerantes à ferrugem e à seca. No Brasil, instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) já oferecem materiais com maior tolerância climática e potencial de qualidade para o mercado de especiais.

Grandes empresas também passaram a tratar adaptação como tema de negócio, e não apenas de reputação ambiental. O estudo menciona testes da Starbucks com híbridos de arábica em fazendas de inovação na Costa Rica e na Guatemala, a distribuição de mais de 90 milhões de mudas tolerantes ao clima, o mapeamento de mais de 325 mil propriedades pela Sucafina e o compromisso de USD 1,3 bilhão da Nestlé com agricultura regenerativa e práticas ligadas à resiliência da cadeia. O pano de fundo é claro: manter oferta, estabilidade e qualidade exigirá investimento coordenado antes que os choques climáticos se tornem ainda mais caros.

Há, porém, um ponto de cautela metodológica que o próprio relatório faz questão de registrar. As projeções de aptidão funcionam como indicadores de risco climático bruto e não como sentença definitiva sobre a viabilidade produtiva. Elas não incorporam integralmente intervenções locais, estratégias de adaptação ou respostas tecnológicas ao nível da fazenda. Ainda assim, seu valor estratégico é justamente antecipar onde a vulnerabilidade tende a crescer e onde novas oportunidades podem emergir. Para um setor acostumado a reagir a secas, geadas e quebras de safra depois que elas ocorrem, a principal mudança proposta pelo estudo é de postura: sair do ajuste reativo e migrar para planejamento preventivo.

No fim, o que está em jogo não é apenas a permanência do café arábica no mapa, mas a forma como o mundo continuará a reconhecê-lo. O clima pode redesenhar fronteiras produtivas, deslocar centros de competitividade e pressionar origens históricas. Mas a extensão desse impacto dependerá menos de uma fatalidade geográfica do que da velocidade com que produtores, torrefadores, traders, varejistas e investidores aceitarem que a resiliência da cadeia deixou de ser um tema periférico. Tornou-se, definitivamente, o centro da conversa.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos