Anuário do Agronegócio Capixaba

Turismo rural redesenha mapa do desenvolvimento do Espírito Santo

Há décadas visto como um destino de praia, moqueca e tradições religiosas, o estado agora revela uma nova face, mais diversa, interiorana, produtiva e ancorada na vivência rural

Foto: Pedro Oliver/Asscom RuralTures

O Espírito Santo vive um momento de transformação no turismo. Há décadas visto como um destino de praia, moqueca e tradições religiosas, o estado agora revela uma nova face, mais diversa, interiorana, produtiva e ancorada na vivência rural. O que antes era compreendido como um território de passagem começa a se consolidar como um destino completo, onde cultura, agricultura, natureza e experiência se entrelaçam para formar uma nova identidade turística capixaba.

A nova fase se materializa em uma grande rede de rotas que costuram o território capixaba. São caminhos como a Rota do Inhame, o Caminho Pomerano, a Rota Imperial Barcelos, a Rota do Grande Buda, os circuitos de agroturismo da Serra, a Rota da Ferradura em Guarapari, a Rota do Dragão em Muqui, os roteiros de cafés especiais do Caparaó e os percursos de aventura em Pancas.

Mais do que produtos turísticos, as rotas representam histórias, identidades e economias que começam a se fortalecer e serão exploradas em detalhes nas próximas páginas. A esse mosaico se somam novos movimentos de mercado que têm ampliado a capilaridade do turismo capixaba, como a aproximação estratégica entre operadoras nacionais e o trade local, fortalecendo a chegada do Espírito Santo a prateleiras de agências de todo o país.

De Norte a Sul, estradas rurais, trilhas históricas e pequenos povoados antes restritos à vida agrícola tornaram-se protagonistas da nova matriz turística do estado. Esse movimento se intensificou nos últimos anos graças a uma combinação de planejamento estratégico, fortalecimento da governança e investimento contínuo na qualificação de empreendedores locais. Os resultados já aparecem. Segundo a Pesquisa de Identificação do Perfil do Turista de Inverno (2025), conduzida pela Secretaria de Estado do Turismo (Setur-ES) em parceria com o Connect Fecomércio, 99,3% dos visitantes recomendariam o Espírito Santo e mais de 92% afirmam que a viagem atendeu ou superou suas expectativas.

Para o coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio, André Spalenza, esses números representam mais do que satisfação. Revelam uma mudança na relação do turista com o território. “O visitante consome mais, permanece por mais tempo e busca qualidade. Quando ele volta pra casa e recomenda o estado, se torna um embaixador espontâneo da marca Espírito Santo”, afirma. Os dados reforçam ainda os pilares que sustentam essa percepção: 94% de aprovação da gastronomia, 90,6% de segurança e 89,3% de hospitalidade.

André Spalenza, turista satisfeito se torna ”embaixador espontâneo” do ES. Foto: divulgação

O crescimento é visível também nos indicadores oficiais. O Índice de Atividades Turísticas (Iatur/IBGE) registrou crescimento de 4,6% em 2025, alcançando o maior nível da série histórica iniciada em 2014. No transporte aéreo, Vitória recebeu 1,09 milhão de passageiros até agosto, aumento de 12,5% em comparação ao ano anterior. E a PNAD Turismo 2024 (IBGE) aponta que o estado recebeu 440 mil viagens domésticas, que geraram R$ 563 milhões em receita e um gasto médio de R$ 2.118 por viagem. Números que reforçam a maturidade do setor. A alta na conectividade e no fluxo de passageiros também se reflete na procura crescente identificada por operadoras como a Azul Viagens, que registrou aumento de 21% no número de passageiros e 40% no faturamento relacionado ao destino Espírito Santo, evidenciando um mercado em expansão.

A Setur-ES credita o avanço à continuidade de políticas públicas baseadas em governança e planejamento. Entre os pilares estão o Plano de Marketing Turístico, o fortalecimento das dez regiões turísticas pela Gestur e incentivos como a manutenção da redução do ICMS do combustível de aviação, medida que tem ampliado a conectividade aérea do estado. A pasta ressalta que a comunicação integrada, a estruturação de produtos e a profissionalização do trade vêm sendo fundamentais para consolidar essa nova fase. Nesse contexto, as recentes articulações com a Azul Viagens reforçam o compromisso do estado em ampliar a presença no mercado nacional, aproximando operadora e empresários para inserção qualificada do destino em circuitos comerciais de grande alcance.

Fortalecimento

Nesse ecossistema, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/ES) assume papel central no fortalecimento da base empresarial que sustenta o turismo rural e o agroturismo. “O Sebrae tem mais de 60 profissionais dedicados ao fomento do turismo capixaba. Trabalhamos junto ao Comitê Estratégico de Turismo e com parceiros como o Aeroporto de Vitória. É a governança que sustenta esse crescimento. Ela garante que as políticas públicas tenham continuidade e resultados concretos”, afirma Pedro Rigo, superintendente da instituição.

Pedro Rigo, superintendente do Sebrae/ES, governança é a base do crescimento do setor. Foto: divulgação

Segundo Rigo, o estado registrou crescimento de 23% no número de pequenos negócios turísticos, ultrapassando 15 mil empresas e gerando cerca de 6.000 empregos diretos. Essa atuação estruturante se fortaleceu ainda mais com iniciativas nacionais, como a definição do Espírito Santo como sede do Polo Sebrae de Turismo de Experiência, sediado no Distrito Turístico de Pindobas, reforçando o estado como referência em produtos turísticos autênticos e experiências de alto valor agregado.

Rigo reconhece, no entanto, que o desenvolvimento ainda é desigual. Há um desequilíbrio no desenvolvimento do turismo rural no estado (Leia mais na reportagem de Rosimeri Ronquetti, na página 34). As Montanhas Capixabas e o Caparaó avançaram mais rapidamente graças a uma combinação de atrativos naturais consolidados, rotas já estruturadas e maior organização da cadeia produtiva.“O Sebrae tem enfatizado que essas barreiras estão sempre presentes e, por isso, as ações precisam ser integradas para que haja tração”.

O superintendente destaca que o diferencial tem sido a ação integrada entre Sebrae, municípios, entidades locais e parceiros privados, isto é, governança e articulação que geram escala e visibilidade. Por outro lado, territórios do Norte e Noroeste apresentam ainda oferta dispersa, menor densidade de serviços turísticos e fragilidade na governança local, o que explica o ritmo mais lento de consolidação.

Para reverter esse cenário, o Sebrae tem atuado com programas de qualificação, fortalecimento de governança e estruturação de rotas turísticas em territórios que ainda carecem de atrativos consolidados. Essas ações agora contam também com o reforço de linhas de crédito ampliadas, como o Bandes Giro Turismo, que teve aumento de 60% em sua capacidade operacional, oferecendo até R$ 300 mil para empreendedores do setor e estimulando investimentos em regiões ainda em desenvolvimento.

Parte do esforço é converter atenção em atendimentos práticos. De acordo com Pedro Rigo, o Sebrae destinou recursos e equipes para apoiar o setor no estado. Eventos como a RuralturES (feira de turismo rural) e a própria Feira dos Municípios promovem capacitação e conectividade entre atores e atraem investidores. “Os municípios que ainda não têm tanta maturidade nos ativos de turismo podem conquistar investidores que buscam esse potencial ainda inexplorado”, analisa. As recentes reuniões promovidas com a Azul Viagens em Vitória, Domingos Martins e Guarapari reforçam esse movimento, reunindo dezenas de empresários da hotelaria e outros segmentos na construção de estratégias conjuntas para elevar o posicionamento do Espírito Santo no mercado nacional.

RuralturES, evento conecta produtores, promove capacitação e fortalece o turismo rural. Foto: Governo do estado do Espírito Santo.
Feira dos Municípios reúne a diversidade cultural e turística de norte a sul do estado. Foto: Governo do estado do Espírito Santo.

Além do ambiente institucional, o mercado nacional também reage positivamente. Para o presidente executivo da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav-ES), Rodrigo Stange, o estado vive um momento especial no imaginário dos operadores. “O grande diferencial do Espírito Santo é a autenticidade das experiências, da canoa havaiana ao nascer do sol às vivências nas propriedades rurais onde produtos do agroturismo são ofertados através de experiências gastronômicas, além do ecoturismo, que vem crescendo fortemente”, destaca.

Rodrigo Stange, (Abav-ES), diferencial capixaba é a autenticidade das experiências.

Stange adianta que a entidade prepara para 2026 um programa amplificado de divulgação dos segmentos rural e religioso, considerados os mais promissores da próxima década nas agências de viagens associadas. Esse novo ambiente de confiança e projeção também se expressa no comportamento do público. Segundo dados apresentados pela Azul Viagens, o turista que escolhe o Espírito Santo ainda compra majoritariamente de última hora e usa pontos, o que revela um mercado de oportunidade que tende a se consolidar conforme o destino ganhar maior maturidade comercial e presença nacional.

O turismo capixaba viveu ainda outro marco recente: a oficialização do China Park Eco Resort como primeiro resort do Espírito Santo ao integrar a Associação Resorts Brasil. A conquista posiciona as Montanhas Capixabas em um novo patamar, amplia o potencial de atração de turistas e fortalece a narrativa de diversificação e qualificação do turismo no estado. O empreendimento, com mais de 1 milhão de metros quadrados e foco em sustentabilidade e experiência integrada, passa a compor a vitrine nacional de resorts, impulsionando todo o entorno.

Também contribui para esse momento a ampliação do crédito voltado ao turismo. O Bandes elevou de R$ 30 milhões para R$ 80 milhões os recursos do Bandes Giro Turismo, possibilitando que pequenos empreendedores realizem reformas, ampliações e investimentos em serviços essenciais ao desenvolvimento turístico. A linha, apoiada pelo Fungetur e por garantias como o Fampe, já atendeu 35% dos municípios capixabas, demonstrando forte demanda e impacto direto na economia local.(*Com apuração da reportagem, além de informações do Sebrae/ES e Fecomércio/ES).

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos