Mais lidas 🔥

Agronegócio capixaba
Entre liderança e desafio: o novo cenário da pimenta-do-reino no ES

Meio Ambiente
Último dia da andada do caranguejo-uçá chama atenção no ES

Agricultura familiar
Entrega de mudas movimenta produtores do Sul do Espírito Santo

Previsão do tempo
Frente fria avança e eleva risco de temporais no Sudeste

Cotações
Café, boi e hortifrúti: confira as cotações do dia 18 de fevereiro

Pesquisadores da Embrapa sequenciaram, pela primeira vez no Brasil, o genoma do fungo Fusarium oxysporum f. sp. cyclaminis (Focy), agente causador da murcha do ciclame. O avanço científico ocorre após o surto registrado em 2023, que comprometeu mais de 70% da produção de Cyclamen persicum cultivado em estufas de Holambra, um dos principais polos de flores e plantas ornamentais das Américas.
O ciclame está entre as plantas ornamentais mais cultivadas no País, valorizado pelas flores coloridas e pelo longo período de floração, com forte presença em jardins e ambientes internos. A doença registrada em Holambra representou impacto direto sobre um segmento que responde por cerca de 40% do faturamento do mercado de flores em vasos no Brasil, setor que movimenta aproximadamente R$ 19,5 bilhões por ano.
O surto levou à identificação do Focy como agente causal da doença e ao sequenciamento completo do genoma da cepa CMAA 1919, atualmente depositada na Coleção de Culturas de Microrganismos de Importância Ambiental e Agrícola da Embrapa Meio Ambiente. Mais de 4 mil plantas apresentaram sintomas como amarelamento e murcha das folhas, descoloração vascular e morte dos bulbos, elevando custos de produção e exigindo intensificação de tratamentos fitossanitários.
Segundo o pesquisador Bernardo Halfeld-Vieira, da Embrapa Meio Ambiente, trata-se do primeiro sequenciamento genômico de um isolado representativo do patógeno no Brasil. De acordo com ele, a sequência genética fornece informações essenciais sobre biologia, patogenicidade e história evolutiva do fungo, permitindo o desenvolvimento de estratégias mais precisas para identificação, monitoramento e controle da doença nas áreas de produção.
O pesquisador André May destaca que a análise genômica amplia a compreensão sobre genes associados à virulência, à especificidade do hospedeiro e à adaptação ambiental. A partir desses dados, torna-se possível direcionar estratégias de manejo e acelerar o desenvolvimento de soluções mais eficazes para o setor ornamental.
Halfeld-Vieira afirma ainda que as informações obtidas são estratégicas para a construção de medidas sustentáveis, como o desenvolvimento de variedades resistentes, a definição de fungicidas mais específicos e o aprimoramento de técnicas de diagnóstico precoce.
Estudos anteriores com outras cepas de Fusarium oxysporum, como a f. sp. cubense, responsável pelo mal-do-Panamá em bananas, demonstraram que o sequenciamento genômico pode identificar genes determinantes da virulência e subsidiar o melhoramento genético e métodos de controle mais eficientes. A expectativa é que estratégias semelhantes sejam aplicadas no manejo da murcha do ciclame.
A pesquisadora Kátia Nechet observa que, embora a murcha do ciclame tenha sido relatada no Brasil desde a década de 1970, a identificação do agente causal baseava-se apenas em sintomas visíveis e testes de patogenicidade, sem suporte molecular. Segundo ela, a descrição genômica da cepa CMAA 1919 confirma a presença do Focy e estabelece base para pesquisas colaborativas voltadas à compreensão da epidemiologia da doença e dos fatores que influenciam sua disseminação.
Com a disponibilização dos dados genômicos, o setor de plantas ornamentais passa a contar com ferramentas que podem ampliar a capacidade de resposta a novos surtos, como sondas moleculares para diagnóstico rápido, programas de melhoramento genético e estratégias de manejo mais direcionadas. A integração entre biotecnologia e práticas sustentáveis tende a reduzir perdas, aumentar a eficiência produtiva e fortalecer a competitividade do mercado brasileiro de flores.




