Revolução verde

A transformação agroecológica que acontece no Norte do Espírito Santo

Iniciativas de agroecologia e produção orgânica estão gerando uma verdadeira revolução nas regiões Noroeste e Norte do Espírito Santo.

A introdução da batata-doce biofortificada impactou diretamente a renda das famílias agricultoras de Montanha. É o caso da professora Manoelita Alves Peruchi, da comunidade de Cristóvão. (*Fotos: Divulgação)

No Norte, Noroeste e Extremo Norte capixabas, uma revolução silenciosa está em curso. Nas comunidades rurais de Ecoporanga, Montanha, Nova Venécia, Pedro Canário, Pinheiros e Ponto Belo, agricultores familiares dão novo rumo à produção de alimentos, que não só promete uma agricultura mais saudável e sustentável, mas também reescreve as narrativas do desenvolvimento rural na região do Espírito Santo com clima característico do semi-árido.

A agroecologia emerge como uma força transformadora nas propriedades, promovendo uma nova visão de vida e saúde para agricultores e consumidores. O projeto “Multiplicando Saberes, Produzindo Vida“, desenvolvido pela Fundação de Desenvolvimento e Inovação Agro Socioambiental do Espírito Santo (Fundagres Inovar), Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e Fundo de Desenvolvimento Econômico, Científico, Tecnológico e de Inovação (Fundeci), administrado pelo Banco do Nordeste (BNB), dentro do Programa de Desenvolvimento Territorial (Prodeter)- PAT Agroecologia, é um exemplo vívido dessa revolução verde.

A jornada começa em Ecoporanga, onde agricultores resilientes enfrentaram desafios pessoais e ambientais para abraçar a agroecologia. Sob o olhar atento do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e com o apoio do Incaper, da Fundagres Inovar e do BNB, eles se uniram para formar uma Organização de Controle Social (OCS), possibilitando a comercialização direta de produtos orgânicos. Não é apenas uma história de sucesso econômico, mas também um testemunho de transformação pessoal e coletiva, onde a saúde, o bem-estar e o respeito ao meio ambiente são priorizados, como veremos adiante.

Em Ponto Belo, a agroecologia floresce como uma nova esperança para agricultores que buscam uma vida mais digna e sustentável. Através de iniciativas como a Unidade Agroecológica de Experimentação Participativa, onde a olericultura e a fruticultura são destaque, eles estão aprendendo e compartilhando conhecimentos, integrando a ciência com saberes ancestrais para cultivar alimentos de forma mais saudável e respeitosa com o meio ambiente. A colaboração entre instituições como Fundagres e Incaper fortalece esse movimento, transformando o campo em um epicentro de inovação e vitalidade.

A agroecologia também se mostra como uma alternativa viável e promissora para o desenvolvimento rural sustentável em Nova Venécia, Pedro Canário e Pinheiros. Agricultores dos três municípios estão adotando práticas agroecológicas, diversificando cultivos e buscando mercados institucionais para garantir renda estável para suas famílias. Com o apoio do Incaper e do Banco do Nordeste, eles estão abrindo caminho para uma agricultura mais justa e regenerativa. Enquanto na primeira cidade, agricultores criaram a que promete ser a primeira cooperativa orgânica do Estado, em Pedro Canário e Pinheiros, “guardiões” preservam sementes crioulas devido à demanda crescente por alimentos saudáveis e livres de contaminantes.

Andressa Alves (Incaper)

Já em Montanha, a agroecologia é mais do que uma prática agrícola: é uma filosofia de vida que permeia a gestão municipal e inspira comunidades inteiras. A lei que promove a produção orgânica e o respeito ao meio ambiente em vigor foi encaminhada pela comunidade, sendo posteriormente sancionada pelo prefeito, André Sampaio. Uma das iniciativas é o atendimento à comunidade Cristóvão, recolhendo o lixo para evitar queimadas no local. Além disso, a gestão articula a comunidade para receber equipamentos do governo do Estado, visando melhorar a produção agrícola. Para o próximo ano, o município pretende sensibilizar mais produtores, utilizando o caso de sucesso de Cristóvão. Paralelamente a isso, o Incaper local iniciou um processo de incentivo à produção da batata-doce biofortificada “Beauregard”, desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), dando um rumo inovador à produção agroecológica de Montanha, como veremos a seguir.

E outros municípios estão criando marcos legais da agroecologia por meio do comitê gestor formado por Incaper, Banco do Nordeste e Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). De acordo com Andressa Alves (Incaper), coordenadora do ‘Multiplicando Saberes’, o Instituto participa dessas mobilizações em níveis municipal e estadual. Com isso, além de Montanha, Nova Venécia, Linhares e Viana já aprovaram ou estão a caminho de aprovação de legislações de incentivo à agroecologia e/ou inserção de alimentos orgânicos nas compras governamentais. Neste último município, o Ministério Público (MP) articulou o projeto “Pacto Agroecológico em Viana”, onde um dos resultados foi a criação de uma política municipal de agroecologia. A intenção, segundo Andressa, é incentivar iniciativas semelhantes em outros municípios capixabas, com apoio do MP e do Fórum Espírito-Santense de Combate aos Impactos de Agrotóxicos e Transgênicos (Fesciat).

Como ressalta a coordenadora de agroecologia, a sociedade está cada vez mais preocupada com os impactos da ação humana no planeta e na própria saúde. “Aquecimento global, poluição, alimentação saudável são temas presentes no nosso dia a dia. A agroecologia e a produção orgânica vêm ganhando espaço a cada dia entre os agricultores que não querem se contaminar com agrotóxicos e se preocupam com a terra que passará para os filhos e os consumidores que se preocupam com o meio ambiente e com uma alimentação mais nutritiva e sem agrotóxicos”, diz.

Andressa completa que, na agroecologia, também se luta para que o alimento seja produzido de forma local, respeitando os ecossistemas, a tradição alimentar e as formas de comercialização direta em feiras e mercados populares. “Para que esses agricultores se mantenham prestando esses serviços ambientais é importante terem renda garantida. Por isso, o Incaper apoia e incentiva o acesso a mercados institucionais como a comercialização dos produtos orgânicos para merenda escolar, o programa Compra Direta de Alimentos, onde os alimentos adquiridos dos agricultores são doados a lares de acolhimento a idosos, serviços de acolhimento institucional para crianças e adolescentes e famílias atendidas pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), entre outras”. Assim, são oferecidos alimentos saudáveis e de qualidade para essas pessoas e, ao mesmo tempo, garantem renda estável para as famílias de agricultores.

Essas histórias de sucesso não seriam possíveis sem o apoio dedicado de indivíduos e instituições comprometidas com uma visão de futuro mais verde e equitativa. Agentes de desenvolvimento como Sonia Lucia de Oliveira Santos, da Célula de Desenvolvimento Territorial do Banco do Nordeste- Superintendência do Espírito Santo, encontram gratificação pessoal e profissional no trabalho com agricultores agroecológicos. Sonia é citada “por 11 em cada dez agricultores agroecológicos”, o que valoriza esses heróis muitas vezes anônimos e que estão pavimentando o caminho para uma agricultura mais justa e regenerativa. “A minha experiência com os agricultores agroecológicos, através do Prodeter, é muito gratificante. Oportunidade de crescimento pessoal e profissional”, define.

Sonia Santos (Banco do Nordeste)

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos