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No início de dezembro foi instalado o último transmissor do Projeto de Monitoramento da Tartaruga-de-Couro por Telemetria Satelital (PMTTS) na temporada reprodutiva de 2025. A iniciativa é uma exigência do licenciamento ambiental conduzido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para atividades de pesquisa sísmica marítima na Bacia de Campos. O objetivo do projeto é entender, principalmente, como a espécie interage com as atividades humanas no ambiente marinho, com ênfase nos empreendimentos de exploração e produção de petróleo e gás.

A Dermochelys coriacea, maior tartaruga marinha do planeta, está classificada no Brasil, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), como criticamente em perigo – nível mais grave antes da extinção na natureza. Todos os anos, fêmeas da espécie sobem às praias da Reserva Biológica (Rebio) de Comboios, no Espírito Santo, para nidificação: essa é uma importante fase do ciclo reprodutivo da tartaruga, que retorna ao seu local de nascimento para desovar. São, em média, apenas 14 animais por temporada reprodutiva – que ocorre de setembro a dezembro de cada ano. No ciclo de 2025, sete novas fêmeas foram identificadas e marcadas com aparelhos de telemetria.
Projeto de Monitoramento
A telemetria por satélite é uma técnica que permite o monitoramento remoto do comportamento de animais e possibilita colher informações sobre os deslocamentos realizados e ambientes frequentados por eles. O método é especialmente útil para o estudo de espécies que realizam grandes migrações.
Para o PMTTS ser possível, o trabalho é executado, basicamente, em duas fases:
Primeira
- Monitoramento das praias no período noturno: as equipes de monitoramento buscam fêmeas de D. coriacea ao longo da Rebio. Por muitas vezes, a localização dos animais é identificada pelo rastro deixado por elas na areia. As fêmeas sobem nas praias para a postura dos ovos geralmente entre 21h e 4h, preferencialmente quando a maré está cheia; há utilização de luz vermelha de baixa potência durante o manejo para evitar desconforto do animal ou alteração em seu comportamento (tartarugas são atraídas pela luz);
- Marcação dos animais avistados: é realizada a retirada de amostra de tecido e de sangue do animal, a sua medição e a colocação de anilha (anel de identificação);
- Instalação do aparelho de telemetria: o equipamento de comunicação satelital é preso à quilha do casco do animal. A pequena estrutura não impacta na mobilidade da tartaruga (seja em terra ou na água); e
- Marcação dos ninhos: os ninhos encontrados são sinalizados para acompanhamento e proteção até a eclosão dos ovos independentemente das fêmeas terem sido visualizadas. Os ninhos de D. coriacea tem característica bastante específicas e fáceis de serem identificadas: grande área de areia mexida para confundir os predadores sobre o local exato dos ovos.
Segunda
- Telemetria: acompanhamento do deslocamento das fêmeas através das informações enviadas por satélite e produção de relatórios que descrevem a rota e comportamento migratório dos animais.
O monitoramento satelital permite a visualização do deslocamento das fêmeas no oceano pelo tempo que o dispositivo permanecer acoplado à carapaça da tartaruga. Espécimes marcados ainda no primeiro ano do projeto continuam enviando informações de localização; um dos animais, por exemplo, transmitiu sinal próximo à região da foz do rio da Prata entre Argentina e Uruguai e, posteriormente, de uma área oceânica próxima às ilhas de Tristão da Cunha.
Mapa dos deslocamentos das tartarugas-de-couro monitoradas por telemetria satelital – Imagem: Sistema de telemetria
0 PMTTS é executado desde 2024 pela Fundação Projeto Tamar com a supervisão do Centro Tamar, do ICMBio, e da equipe do licenciamento ambiental do Ibama.
Sobre a Dermochelys coriacea
A tartaruga-de-couro possui distribuição natural desde oceanos tropicais e temperados (Atlântico, Pacífico e Índico) até regiões subpolares. Isso se deve a um sistema de controle, próprio da espécie, que permite manter a temperatura interna mesmo em ambientes frios (endotermia comportamental).

Uma D. coriacea adulta pode chegar até 2,1 m de comprimento e 900 kg. O formato de seu casco, caracterizado por manchas circulares brancas e pequenas quilhas ósseas recobertas por couro flexível, possibilita mergulhos superiores a 1.500 m (o maior entre as tartarugas) em busca de alimentos.
Apesar de toda adaptação natural, a espécie tem apresentado um declínio populacional acentuado no mundo inteiro ao longo dos anos. Alguns dos fatores listados por pesquisadores são:
- Interação com embarcações e captura incidental/pesca: os animais são atropelados por embarcações e são capturados por espinhel ou redes de pesca – o que pode causar lesões severas no corpo e até afogamento;
- Caça aos animais e coleta de ovos: os ovos são frequentemente retirados ilegalmente dos ninhos para consumo humano, seja como alimento, seja como afrodisíaco;
- Interação com animais domésticos: há crescentes relatos sobre animais domésticos, como cachorros abandonados ou criados soltos nas praias, atacando, amputando e matando fêmeas no momento da desova;
- Poluição marinha: os animais comumente confundem detritos plásticos flutuantes com águas-vivas (seu alimento favorito). A densidade do corpo do animal muda com a ingestão de grandes quantidades de plástico impedindo que consiga mergulhar para buscar alimentos, morrendo de fome ou, ainda, por problemas no sistema digestivo. Alguns espécimes foram encontrados com quase 5 quilos de plástico no estômago;
- Mudanças climáticas: o sexo dos répteis é definido pela temperatura de incubação dos ovos; no caso das tartarugas, a temperatura da areia onde estão os ninhos. Com o aumento da temperatura a proporção entre o sexo dos filhotes é alterada. Além disso, as mudanças climáticas impactam na oferta de alimentos e até no fluxo das correntes marítimas, muito usada pelos animais para deslocamento;
- Perda de habitat de desova: o avanço das construções humanas em praias de desovas é uma das principais ameaças ao ciclo de vida das tartarugas marinhas. A iluminação artificial também representa risco, pois desorienta os animais que, fora dos seus rumos, podem sofrer com predadores, atropelamentos e desidratação.
Reprodução da tartaruga-de-couro
A D. coriacea atinge sua maturidade sexual após os 20 anos de idade. Seu ciclo reprodutivo a partir de então, se repete a cada dois ou três anos. Nesse intervalo, as fêmeas ficam no que é designado como área de alimentação – local onde os animais passam a maior parte da vida seja para crescimento e desenvolvimento para a vida adulta ou, no caso, armazenamento de reserva antes da migração para reprodução e desova. O deslocamento de uma área para a outra pode chegar a seis mil quilômetros.
Cada fêmea de tartaruga-de-couro desova cerca de seis vezes por temporada com subidas para nidificação a cada 10 dias. Em média, 80 ovos são postos por ninhada; desses, 20% não são viáveis (não geram filhotes). Acredita-se que a função desses ovos “placebo” seja criar uma distração para possíveis predadores que, após chegarem aos ovos falsos, geralmente colocados mais superficialmente, não persistam até os que contém gema e que podem gerar filhotes. Os ninhos da espécie possuem mais de um metro de profundidade; são os mais profundos entre as tartarugas marinhas.
Após a eclosão, que geralmente ocorre de noite, os filhotes seguem em direção ao mar orientados pela luminosidade refletida em condições naturais. Estima-se que um em cada 1000 filhotes chega à idade adulta. As fêmeas voltam à terra apenas para por os ovos; os machos, por outro lado, passam a vida inteira no mar.
Rebio Comboios
Gerida pelo ICMBio, a Rebio Comboios foi criada em 1984, principalmente, para proteger tartarugas-marinhas e seus locais de desova.
O monitoramento dos animais nas praias da Reserva é realizado há mais de 40 anos pelo Projeto Tamar (hoje compartilhado com o Centro Tamar/ICMBio) devido ao aparecimento regular da Dermochelys coriacea e outras espécies de tartaruga, como a Cabeçuda (Caretta caretta), na região.
Com a criação da área protegida procurou-se evitar intervenções humanas que interferissem no comportamento dos animais, como construção imobiliária, iluminação e trânsito de pessoas e veículos.
A Rebio está localizada na Foz do rio Doce que, além da presença de tartarugas-marinhas, é marcada pela ocorrência de toninhas – pequeno cetáceo classificado como criticamente em risco no Brasil, e por ser ponto de concentração das baleias jubarte e de outras espécies de interesse econômico, cultural e ambiental.




