Empreendedorismo e financiamento

Do beiju à energia solar: o microcrédito que preserva o passado e financia o futuro no norte do ES

De comunidades quilombolas aos maquinários, histórias mostram como crédito orientado, assistência técnica e tempo no campo podem virar projeto de vida

Foto: Fernanda Zandonadi

A mandioca não é apenas cultivo no norte do Espírito Santo. Em algumas comunidades, ela é memória, afeto e tecnologia doméstica. É conhecimento transmitido por repetição e cuidado: raspar, lavar, ralar, peneirar, assar e transformar a raiz em beiju. Quando a massa estala na chapa quente, a cena pode parecer simples demais para carregar tanto peso histórico. Mas ali estão gerações sustentadas por uma sabedoria que atravessou escravização, pobreza, migração e invisibilidade.

É nesse território que o microcrédito rural ganha um sentido que não cabe em slogan. Ele não financia apenas máquinas ou insumos. Também dá crédito à continuidade, como aconteceu com Andreia Costa, liderança quilombola de Santa Luzia, em São Mateus. “O beiju faz parte da cultura da nossa comunidade. Queríamos manter essa tradição e crescer ainda mais. Então, com o passar do tempo, vimos a necessidade de melhorar os processos para otimizar a produção”, conta Andreia.

Para alavancar a produção, foi preciso primeiro acessar recursos. Com apoio da linha Crediamigo, programa de microcrédito produtivo e orientado do Banco do Nordeste, Andreia comprou utensílios para a casa de farinha. A experiência deu tão certo que, depois, ela decidiu fortalecer a produção de pimenta-do-reino, outra cultura importante para a economia da comunidade. “Para isso, acessamos o Agroamigo, também do BNB”, explica.

Por meio do banco, a comunidade também conseguiu apoio para a impressão de exemplares de um livro de receitas, reunindo preparos feitos por mulheres e guardados como patrimônio afetivo. A publicação ajuda a mostrar que desenvolvimento nem sempre significa largar as raízes, mas que é possível criar condições para que a tradição continue existindo, com mais renda, estrutura e reconhecimento.

Iguaria com nome e sobrenome

Reconhecido oficialmente pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o beiju do Sapê do Norte vive, desde 2024, um capítulo importante em sua história. Na comunidade quilombola de Santa Luzia, em São Mateus, a produção tradicional agora conta com o peso de uma Indicação Geográfica (IG), selo que protege a receita ancestral e projeta o produto para novos mercados. 

O reconhecimento, cujo processo foi amparado pelo Sebrae/ES, contempla a relação entre o produto, o território e o modo tradicional de fazer, preservado por comunidades quilombolas de São Mateus e Conceição da Barra. Para quem vive da produção, a certificação ajuda a dar visibilidade a um saber transmitido entre gerações e fortalece a identidade das famílias que mantêm essa cultura alimentar.

Liderança quilombola da comunidade de Santa Luzia, Andreia Costa trabalha desde muito nova com a mãe na produção de beiju. Hoje, além de produtora, ela integra o conselho regulador responsável por acompanhar se o produto está dentro dos padrões definidos pela Indicação Geográfica.

“A nossa comunidade faz parte do Sapê do Norte, que envolve São Mateus, Conceição da Barra e também uma parte de Jaguaré, onde há comunidade quilombola. Temos a Indicação Geográfica do Beiju do Sapê do Norte, com produtores de São Mateus e Conceição da Barra. Eu faço parte do conselho regulador, que acompanha a certificação e verifica se o beiju está realmente dentro dos parâmetros e do padrão da Indicação Geográfica. Para nós, isso é muito importante, porque reconhece a nossa comunidade, a nossa produção e a nossa história”, afirma.

“O beiju faz parte da cultura da nossa comunidade. Queríamos manter essa tradição e crescer ainda mais”, conta Andreia

A fala de Andreia resume o peso simbólico do reconhecimento. O selo não cria a tradição, que já existia muito antes dele, mas gera ainda mais reconhecimento. ”Esse reconhecimento representa uma valorização para os povos tradicionais que ali vivem e produzem. Por outro lado, o registro da Indicação Geográfica possibilitará o fortalecimento da produção e comercialização local com um processo de desenvolvimento local impulsionado pelo diferencial da iguaria”, avalia Hulda Giesbrecht, analista de Inovação do Sebrae. 

Quando esse reconhecimento se soma ao crédito orientado, a tradição ganha ainda mais condições de permanência. A IG valoriza o que as comunidades já construíram ao longo de gerações, já o microcrédito ajuda a ampliar a produção e transformar esse patrimônio em renda. No caso de Andreia, as duas forças caminham juntas. De um lado, o território valorizado e, de outro, o acesso a recursos capazes de fazer esse reconhecimento chegar à casa de farinha, aos utensílios, ao livro de receitas e ao mercado.

Onde está o dinheiro?

No entanto, o acesso ao crédito barato, como o obtido por Andreia, não é regra. No Brasil, o dinheiro com “preço justo” costuma chegar com mais facilidade a quem menos precisa dele. Quem tem renda maior, patrimônio, garantias e histórico financeiro acessa taxas menores e melhores condições. Quem tem menos ganhos, renda instável ou pouca garantia encontra portas mais estreitas e, às vezes, fechadas. Quando consegue crédito, recebe dinheiro caro, oferecido em modalidades que resolvem uma urgência, mas podem prender famílias em dívidas difíceis de pagar.

O Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, mostra que pessoas com renda maior tendem a receber limites de crédito de forma mais facilitada. O problema, porém, não está apenas em ter ou não ter acesso ao dinheiro. Está também na forma como esse crédito chega. Para a população de baixa renda, os caminhos disponíveis passam frequentemente pelo cartão de crédito, rotativo, parcelado, crédito pessoal e consignado. Os famosos boletos não dão trégua. São modalidades que podem até ser úteis, mas pesam no orçamento de quem já vive com pouca margem.

Os números ajudam a dimensionar essa desigualdade. Em novembro de 2025, segundo dados do Banco Central, o cartão de crédito rotativo chegou a 440,5% ao ano. O cartão parcelado ficou em 181,2% ao ano. O crédito pessoal não consignado alcançou 106,6% ao ano. Já a taxa média do crédito livre para famílias ficou em 59,4% ao ano. Em outras palavras: para quem tem pouco, o dinheiro emprestado pode custar muito.

Nessa equação em que “dinheiro chama dinheiro”, alguns bancos de fomento se erguem como faróis em mares revoltos. Eles mostram que crédito barato, quando chega a quem mais precisa, pode render mais do que números em uma planilha. Pode virar produção, permanência no território, agroindústria e autonomia. Pode, sobretudo, transformar saberes antigos em um futuro possível.

A preocupação com esse cenário foi um dos alicerces para a criação do Observatório do Crédito para o Desenvolvimento (OCD), lançado em abril pelo BNDES e pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE). A ferramenta pode ajudar a iluminar uma parte decisiva do problema. Ela vai mostrar para onde vai o crédito direcionado e quais impactos ele realmente produz. A plataforma nasce com a proposta de dar mais transparência aos financiamentos de longo prazo em áreas como infraestrutura, setor rural e mercado imobiliário, permitindo avaliar se os recursos estão, de fato, chegando à ponta e contribuindo para gerar emprego, renda, produção e dinamismo econômico nos territórios.

Segundo André Godoy, diretor-executivo da ABDE, “o crédito direcionado só cumpre plenamente seu papel quando consegue transformar financiamento em emprego, renda e desenvolvimento econômico nos territórios brasileiros, especialmente nas regiões e setores que mais precisam de apoio para crescer”.

A iniciativa pretende reunir dados, análises e evidências em uma plataforma única, com governança compartilhada entre a ABDE, instituições financeiras de desenvolvimento e uma universidade parceira, responsável pelo rigor metodológico e pela produção científica. Na prática, o observatório deverá ajudar a identificar se financiamentos com condições mais acessíveis estão chegando a setores como a agricultura familiar e a regiões com maior necessidade de investimento, contribuindo para aperfeiçoar políticas públicas, instrumentos de crédito e estratégias de redução das desigualdades regionais.

Esse cuidado tira o debate do abstrato. Quando o crédito de desenvolvimento chega à ponta, ele deixa de ser apenas uma linha de financiamento e passa a interferir diretamente na capacidade de produzir, investir e permanecer no campo. É o caso de Itamar Lauvrs, produtor rural de Vila Pavão, que já atravessou a ponte do crédito barato. Para ele, o dinheiro teve nome e finalidade: café e energia solar. “O microcrédito, para mim, foi para fazer a parte do plantio e para instalar placas de energia solar”, diz, acrescentando que cresceu na agricultura, junto dos pais, “que não tinham muita condição”.

Com microcrédito, Itamar Lauvrs, na foto com a mulher, Thaina da Penha, e a filha Alice, investiu em café conilon e energia solar, ampliando a produção e reduzindo custos na propriedade

Antes do café, leite e pimenta-do-reino tomavam conta da propriedade. Agora, com o conilon em alta, ele buscou o Banco do Nordeste porque precisava de um empurrão para expandir e reduzir custos. E resume o que, para muitos produtores, ainda é o principal diferencial: velocidade e simplicidade. “O empréstimo saiu muito rápido e sem burocracia”.

Mão de obra, custo e o medo de “assinar demais”

Se o passado dá identidade, o presente cobra eficiência. E cobra, sobretudo, gente. As plantações do norte e noroeste capixaba convivem com um paradoxo. Por um lado, há oportunidades, por outro, há menos braços. A mecanização aparece, então, como possível resposta. Almir Berger é produtor e está ligado a uma pequena associação de sua região, onde “tem muitos proprietários, mas poucos produtores”, como ele define.

Almir Berger é produtor e está ligado a uma pequena associação de sua região, onde “tem muitos proprietários, mas poucos produtores”, como ele define

A relação dele com o Banco do Nordeste começou marcada por um preconceito antigo, alimentado por história oral. “A informação que eu tinha é que todo banco é muito burocrático”, recorda.

Anos depois, por acaso, ele foi parar em uma reunião do BNB. “Rapaz, vou lá nessa reunião”, disse a si mesmo, quando uma agenda falhou e abriu espaço para o improviso. O que encontrou, segundo o relato, foi um tipo de presença que muda o jogo para o pequeno produtor. Ele viu gente que vai até a propriedade, monta projeto junto e auxilia em tudo o que é possível.

A urgência da mudança veio quando os apanhadores de café “abandonaram” o serviço, e Almir se viu sem mão de obra. “Fiquei meio desesperado. Pensei, ‘como vou fazer? Aqui não arrumo gente’”, conta.

Ele decidiu comprar uma recolhedora e o microcrédito virou a ponte entre o ideal e o possível. “Posso dizer que ter acessado esse microcrédito pelo Agroamigo não facilitou só a minha vida. Facilitou também a dos vizinhos”, diz, explicando que a máquina também virou um bem comunitário tempos depois.

A troca de serviço substituiu a contratação formal em parte das atividades e reduziu custo e desgaste. “No ano passado, na safra, tive uma economia de cerca de 30% a 35% em comparação com a mão de obra manual, além de dar mais rapidez. E o que a gente tem de mais valioso hoje no campo é o tempo”.

Almir Berger descreve também o que, para muitos produtores, vira fator decisivo. O tempo economizado quando o banco vai até a porteira. “O fato de o técnico se dispor a vir na propriedade, pegar a documentação e montar o projeto é um diferencial enorme. Em outras agências, a gente precisa ir à cidade. Nisso, o Banco do Nordeste dá de 10 a 0”.

Em outro ponto do mapa, Matias Pereira, de 29 anos, coloca a mesma tese em termos de tecnologia. Ele vive na comunidade rural de Córrego das Flores, em Mantenópolis, e pegou microcrédito para construir uma estufa hidropônica. “Na época, eu precisava produzir mais e com menos mão de obra e ter produto durante os períodos críticos, como o verão”, explica.

Matias Pereira investiu em uma estufa hidropônica, ampliou a produção e fortaleceu o planejamento da propriedade

Para ele, crédito é projeto. “Com pouco recurso, a gente faz o que tem que fazer sem planejamento. Pode dar certo ou não dar. Quando não dá, o produtor acaba perdendo dinheiro”, diz, explicando que a estrutura e a orientação que vem junto com o dinheiro, quando se acessa o crédito, é um grande diferencial.

Matias Pereira ao lado dos pais, João Batista Pereira e Nilza Rodrigues da Silva, e de Natyelle Oliveira, compartilhando a trajetória de quem encontrou no microcrédito apoio para investir, planejar e crescer no campo

Matias também toca em um ponto sensível, o medo de banco. O microcrédito, na experiência dele, quebrou a barreira burocrática que afastava produtores. “Tem outros bancos em que a gente lida com um monte de assinatura, de burocracia, e no BNB eu só assinei e busquei o cartão, porque o resto foi tudo muito tranquilo e bem organizado”.

Capixaba da peste: um nordestino no Espírito Santo

No norte do Espírito Santo, Igor Maciel Bernardino virou personagem de uma migração que não é só geográfica, é simbólica. Saiu do escritório para a lavoura e trocou salário certo por safra futura. “Larguei uma vida de executivo, larguei uma vida tranquila e confortável para enfrentar novos desafios no campo”, diz.

Igor Maciel sendo atendido por um agente do Banco do Nordeste

Também na história de Igor, uma palavra que volta com insistência: o acompanhamento. Ele se mudou de Salvador para Pinheiros durante a pandemia de Covid-19. “Quando o mundo todo parou, entrou em colapso, dois segmentos permaneceram firmes. O alimentício e o farmacêutico. Naquele momento, foi um ponto de reflexão na minha vida. O que movimenta o mundo hoje? A produção de alimentos”.

Com essa visão, arrendou terra e começou o plantio de conilon. O microcrédito, no início, foi combustível para atravessar o tempo da lavoura, quando o investimento chega muito antes dos frutos. “Ao plantar, só veremos os frutos daqui a três anos”, diz.

Depois, com a operação mais robusta, ele entrou em uma cooperativa. “A Cresol, juntamente com o BNB, acreditou no meu projeto e liberou linhas de crédito para investimentos, como aquisição de máquinas e plantio”.

E volta ao ponto de acompanhamento. “O que me chamou muita atenção é que tanto a Cresol quanto o BNB não somente emprestaram o dinheiro, mas constantemente estão dentro da minha lavoura”.

O futuro como permanência

Se o crédito abre porta, o que se faz depois é o que define o futuro. E a palavra “futuro”, no campo, chama tanto a tecnologia quanto a sucessão.

Leandro Alves de Assis, de Alto Rio Novo, é um exemplo de como um microcrédito pequeno pode virar degrau. Ele conta que começou cedo e tinha um objetivo que não era apenas produzir, mas ser reconhecido. “Trabalho com café desde criança, com meus pais. Eu queria mesmo era ser reconhecido na cafeicultura”, diz.

Leandro Alves de Assis, de Alto Rio Novo, é um exemplo de como um microcrédito pequeno pode virar degrau

Em 2021, veio o primeiro financiamento via Agroamigo, articulado localmente. Com R$ 5.000, plantou 1.600 mudas de conilon. E fez um consórcio de culturas para pagar a parcela. “Fiz plantio de milho e feijão no meio da lavoura, faturando o valor da primeira parcela”.

O resultado veio em concursos e visibilidade. “Na safra de 2023, participei do concurso e fiquei em terceiro lugar”, diz, salientando que, depois, investiu de novo para melhorar a qualidade e construiu um terreiro suspenso para melhorar os grãos.

Em Colatina, a história de Simone Barcellos Lima e do marido, Edvaldo Lima, coloca o futuro em outra equação: energia, diversificação, agroindústria e sucessão familiar. Simone faz parte da Associação Mulheres do Cacau e trabalha há anos com chocolate artesanal. Mas a virada recente veio com energia solar financiada via microcrédito, reduzindo o custo de produção e abrindo margem para novos investimentos.

Simone Barcellos faz parte da Associação Mulheres do Cacau e trabalha há anos com chocolate artesanal

Edvaldo descreve o antes e o depois com a precisão de quem vive a conta. “Nós saímos de uma conta de energia de R$ 1.200 mensais, R$ 1.800 mensais, e estamos pagando hoje em torno de R$ 190, R$ 200 por mês”, diz. 

O lema dele é “investimento não é dívida”. Investimento é crescimento”. E não é apenas entusiasmo, é visão de longo prazo, afirma.“Nós aqui, numa pequena propriedade, estamos com R$ 1,2 milhão de investimento. Em 2028, numa safra, a gente tira todo esse valor”, explica, completando que prazo e viabilidade são palavras-chave para quem quer produzir.

O ponto de virada do microcrédito aparece quando Simone narra a visita da agente do banco e como a conversa virou diagnóstico. “Ela me perguntou o que estávamos precisando na propriedade. Eu virei brincando com ela e falei ‘Preciso de energia solar’. Ela respondeu: ‘ah, é isso que você precisa? Então tá. Vamos resolver isso agora’”, conta, sorrindo.

A facilidade do processo, para quem historicamente se afasta de banco, é parte da história. “O empréstimo foi feito no meu nome e eu nunca entrei no Banco do Nordeste, foi feito tudo aqui de casa.”

Turismo rural, turismo sustentável

Em Pancas, Audiceia Fernandes, do Recanto da Prata, leva o futuro para o turismo rural. Restaurante com fogão a lenha, cama e café, eventos, natureza. Para ela, energia solar também é infraestrutura de permanência, não luxo. “Aqui a energia solar foi um grande passo para a gente. Conseguimos instalar por meio do microcrédito do Banco do Nordeste e isso mudou nossa realidade”, diz.

Em Pancas, Audiceia Fernandes, do Recanto da Prata, leva o futuro para o turismo rural

Ela descreve o que a conta de luz fazia com o planejamento. “Antes, a conta de energia era uma preocupação constante, principalmente por causa do ar-condicionado, da piscina e da bomba de irrigação. Hoje pagamos só a taxa mínima. Isso trouxe um alívio enorme no caixa e mais segurança para continuar investindo na pousada e no restaurante”.

E faz um resumo que cabe numa placa na porteira, mas nasce da experiência. “O microcrédito não foi só um financiamento, foi uma oportunidade real de crescer com mais tranquilidade e sustentabilidade aqui no meio rural”.

Dinheiro barato, planejamento, amor pelo que faz e sustentabilidade parecem andar lado a lado. Em Jaguaré, Valtair Tiengo fala do sonho que se realizou, por meio do microcrédito, de reflorestar, produzir alimentos e, ainda, reduzir a dependência de agrotóxicos. “Hoje em dia, nós reflorestamos e também temos colheita”.

Valtair também verbaliza a condição do pequeno produtor diante das limitações. “Como somos pequenos produtores, dependemos de benefícios, porque somente com nossos braços, às vezes não é possível fazer nada”, explica.

De volta ao beiju, a tradição do futuro!

No pano de fundo, o microcrédito costura passado e futuro também quando financia energia solar. Em São Mateus, a agente Ana Durães, do Crediamigo/Agroamigo, descreve isso como transformação acompanhada de perto. “Ao longo dos meus quase cinco anos de atuação, tive a oportunidade de acompanhar de perto como o microcrédito rural transforma realidades e fortalece histórias que atravessam gerações”, afirma.

Ela fala da produção de beiju como cultura e economia em comunidades de descendência quilombola. “Em muitas delas, a produção de beiju é mais do que uma atividade econômica. Ela é tradição, identidade cultural e sustento familiar”. 

Ana também descreve um caso emblemático. “Acompanhei uma família inteira envolvida na produção artesanal do beiju.

Com o acesso ao crédito orientado, eles conseguiram ampliar a produção, organizar melhor o negócio e adquirir equipamentos que facilitaram o trabalho e aumentaram a renda da família”.

Além do beiju, a agente traz outros exemplos concretos. “O acesso ao microcrédito também possibilitou a expansão de outras atividades, como a plantação de café e pimenta, além de investimentos em energia solar, reduzindo custos e tornando a produção mais sustentável”.

Tantas histórias mostram que o microcrédito, quando orientado e próximo da realidade de quem produz, ajuda a reorganizar vidas. Ele não apaga as desigualdades históricas nem resolve sozinho os gargalos do campo, mas pode abrir caminhos concretos para quem já tem trabalho, conhecimento e vontade de fazer. No Espírito Santo, entre casas de farinha, lavouras de café, estufas, agroindústrias, pousadas rurais e sistemas de energia solar, o dinheiro emprestado passa longe de ser dívida. Vira ferramenta para preservar memórias, reduzir custos, ampliar renda e construir futuro sem romper com a identidade de cada território.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos