Turismo rural

Ruraltur nasceu no Nordeste, ganhou o Brasil e traduz a força do turismo rural

Feira criada a partir de uma articulação regional se consolidou como vitrine nacional do turismo rural e da valorização da identidade, da cultura e dos negócios no campo

Ruraltur

Criada na Paraíba a partir de uma iniciativa que ganhou escala nacional, a Ruraltur se consolidou como uma das principais vitrines do turismo rural brasileiro. Em entrevista, Regina Amorim, gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae na Paraíba e uma das coordenadoras do evento, relembra a origem da feira, detalha sua trajetória itinerante pelo país e defende que o fortalecimento da identidade local, da cultura e dos negócios do campo é o caminho para ampliar o turismo em municípios de todos os portes. Confira a entrevista, na íntegra:

Como surgiu a Ruraltur?
A Ruraltur nasceu a partir da experiência que tive em 2004, quando participei da primeira Feiratur, uma feira nacional de turismo rural realizada em São Paulo. Na época, o turismo rural ainda era muito novo para nós, e a Paraíba também não tinha produtos tão estruturados nesse segmento. Mesmo assim, levamos uma amostra da nossa produção associada ao turismo, com rapadura, cachaças, doces e redes de dormir. A partir dali, surgiu o desejo de sediar uma feira semelhante na Paraíba. Como isso não foi possível naquele momento, decidimos criar a Ruraltur, inicialmente como Feira Regional de Turismo Rural da região Nordeste.

Como foi a primeira edição?
A primeira Ruraltur reuniu Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Foram 40 estandes montados no Shopping Sebrae, em João Pessoa. Foi um começo muito importante, porque mostrou que havia espaço para um evento voltado ao turismo rural com identidade regional e foco na valorização do que o meio rural oferece em cultura, gastronomia, saberes e experiências.

Em que momento a feira deixou de ser regional e ganhou projeção nacional?
A Ruraltur foi sediada pelo Sebrae Paraíba durante dez anos. Na décima edição, o Sebrae Nacional percebeu o potencial da iniciativa e decidiu transformá-la em uma feira do Sistema Sebrae, com caráter itinerante. Isso foi muito positivo, porque permitiu que outros estados também passassem a sediar o evento e que a própria Paraíba pudesse se enxergar dentro de um contexto mais amplo do turismo rural brasileiro.

Por quais estados a Ruraltur já passou?
Depois da Paraíba, a feira foi para o Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, onde ocorreu em Venda Nova do Imigrante, em 2019. Depois veio a fase digital, por causa da pandemia. Em 2020, a Paraíba coordenou a Ruraltur Digital, e em 2021 isso foi feito pelo Maranhão. Em 2022, a feira voltou para Bananeiras, na Paraíba. Em 2023, foi para Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Em 2024, aconteceu em Currais Novos, no Rio Grande do Norte. Em 2025, foi realizada em Mucugê, na Chapada Diamantina, na Bahia. Agora, estamos em Santa Teresa, em um cenário muito bonito e bastante representativo do meio rural.

O que representa, para você, ver a feira chegar a eventos desse porte?
É uma emoção muito grande perceber que a Ruraltur se consolidou. Eu arrisco dizer que este é um dos eventos mais sólidos do Sistema Sebrae e que também reúne condições de se tornar uma feira internacional. Já houve, inclusive, convite para levar a Ruraltur ao Peru, e também existe a possibilidade de Portugal. Isso mostra a força do turismo rural do Brasil e a relevância desse segmento para a economia, para a cultura e para a valorização dos territórios.

Por que o turismo rural ganhou tanta importância nos últimos anos?
Porque o turista está cada vez mais em busca de singularidade, autenticidade e identidade. Ele quer encontrar experiências que tenham relação com o jeito de ser e de viver de cada lugar. O meio rural oferece exatamente isso. Além disso, o Brasil é um país com forte presença rural. Segundo dados do IBGE, 60% dos municípios brasileiros são rurais. Isso significa que existe um imenso potencial para transformar a ruralidade em oportunidade de desenvolvimento, sem abrir mão da cultura local.

Todo município pode ser turístico?
Eu acredito que sim. Todo município pode ser turístico, desde que consiga reconhecer e valorizar sua cultura, seus saberes e seus fazeres. Mesmo uma cidade pequena, que ainda não tenha meios de hospedagem, pode se inserir em uma rota ou estar próxima de um município-polo que ofereça essa estrutura. O importante é compreender que o turismo pode ser construído em rede, com base na identidade do território.

Qual é o papel do empreendedor nesse processo?
O empreendedor é aquele que enxerga antes da maioria. Quando ele percebe que há um fluxo começando a surgir, mesmo que ainda pequeno, ele entende que ali existe uma oportunidade. É nesse momento que começam a aparecer pousadas, restaurantes rurais, agências de turismo receptivo, caminhadas, turismo de aventura e outras iniciativas. Isso já está acontecendo na Paraíba, acontece em Santa Teresa e também em muitos outros lugares do Brasil.

Que meta a Paraíba estabeleceu para o turismo?
Nossa meta para 2026 é colocar os 223 municípios da Paraíba no mapa do turismo, dentro do processo de regionalização. Hoje já temos 147 municípios inseridos, o que representa 66% do total. Esse é um trabalho que o Sebrae desenvolve em parceria com o governo e com as gestões públicas municipais. É um esforço para mostrar que o turismo pode ser uma estratégia de desenvolvimento em todo o estado.

Qual mensagem você deixa para os estados e municípios que querem fortalecer o turismo rural?
É preciso valorizar o que é nosso. O turista não sai do lugar de origem para encontrar no destino a mesma coisa que já tem em casa. Ele quer conhecer a identidade do território que está visitando. Por isso, pertencimento, cultura local e autenticidade precisam estar no centro da estratégia. Quando um município entende isso, ele passa a enxergar o turismo não só como visitação, mas como oportunidade de desenvolvimento econômico, social e cultural.