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Segurança no Campo

(In)segurança no campo

O crescente aumento no número de roubos e furtos na zona rural preocupa produtores, entidades ligadas ao agro e o Governo do Estado. Em busca de uma saída para o problema todos esses atores, juntos, criaram o Comitê de Segurança Rural

por Fernanda Zandonadi e Rosimeri Ronquetti

em 11/03/2022 às 13h49

12 min de leitura

(In)segurança no campo

“Tive duas propriedades invadidas. No ano passado, em quatro meses, fizeram vários furtos. Em cada um, iam levando de duas em duas vacas, três em três. Abriam a porteira, o gado saía e eles colocavam em um caminhão e iam embora. Foram 25 cabeças perdidas nesse tempo. Em janeiro deste ano, invadiram o confinamento (local onde o gado é alimentado e os insumos e instrumentos da fazenda, guardados) e levaram motosserra, ração. Meu prejuízo foi de mais de R$ 200 mil”.

O relato é de um pecuarista de Jerônimo Monteiro, no Sul do Espírito Santo, que preferiu não se identificar, mas concordou em relatar a insegurança que vive diariamente em suas propriedades.

“O meu pessoal já está com medo de trabalhar no confinamento, daí sempre ficam duas ou três pessoas por lá. O que a gente sabe é que chegam uns oito homens e fazem o serviço. Levam embora o que tem de valor. Ninguém quer pagar para ver do que eles são capazes. E não tem horário para roubar não, é qualquer hora do dia ou da noite. Se não prender um ou dois desses ladrões para dar exemplo, vai piorar cada dia mais”, avalia.

O caso do pecuarista de Jerônimo Monteiro é apenas um exemplo dos tantos crimes que têm assustado os moradores do interior do Estado. E não se limitam ao gado ou aos limites das propriedades. Em setembro de 2021, uma carga de café avaliada em R$ 470 mil foi roubada por criminosos armados em São Mateus, no Norte capixaba. Um casal, que fazia o transporte da carga, foi rendido por cinco homens que estavam em um carro. Os assaltantes levaram 720 sacas de grãos.

As forças de segurança fazem o que podem, mas não é o bastante. “Registrei a queixa na delegacia. Foi gente na propriedade para olhar. Deram assistência. Mas pegar os bandidos, não pegaram”, conta o pecuarista de Jerônimo Monteiro.

A falta de estatística sobre esses crimes que abalam os homens do campo é a primeira barreira para, efetivamente, dar mais segurança àqueles que põem comida nas nossas mesas. “Nunca conseguimos um levantamento. Como podemos dizer se há subnotificação se não temos esse número? Precisamos de uma base de dados de crimes rurais. Hoje, não existe uma aba, uma planilha, que filtre essas ações de bandidos nas propriedades”, explica o presidente do Sindicato Rural de Cachoeiro de Itapemirim, Wesley Mendes.

O presidente da Associação Agricultura Forte, João Bayer, afirma que, nos anos anteriores, não era tão comum a ocorrência de roubos e furtos fora do período da colheita de café, o que atualmente é frequente. Para ele, o sistema de segurança é frágil, falta efetivo policial, entre outras situações que atrapalham o patrulhamento rural.

“Os produtores rurais são vítimas de um sistema de segurança frágil que os faz sofrerem nas mãos de quadrilhas especializadas. Casos como roubos de implementos agrícolas, maquinários, veículos, insumos e invasão de residências, latrocínios, assaltos, sequestros, tráfico de armas e drogas, entre outros, têm sido noticiado diariamente, principalmente em alguns dos municípios da região Norte. Falta policiamento e uma organização tática no monitoramento da segurança rural. A demora da chegada das viaturas quando acionadas, a dificuldade de comunicação, a falta de conhecimento de estradas e rotas dos policiais e de comunicação entre as polícias Civil e Militar prejudica ainda mais a eficiência do patrulhamento rural”, pontua Bayer.

 

Banco de dados organizado e atualizado

 

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As estatísticas são o primeiro passo para mapear os crimes e entender como os criminosos agem. Uma das soluções apresentadas pelo Comitê de Segurança Rural, grupo capitaneado por iniciativa da Federação da Agricultura do Estado do Espírito Santo (Faes) que une representantes de órgãos do governo do Estado e da sociedade civil. “O trabalho é grande e longo, mas tivemos o sinal verde do governador (Renato Casagrande) para trabalhar e combater os crimes rurais. Na reunião com o governador, vimos boa vontade política. Ele está empenhado, nos ouviu e sabe exatamente o que acontece no trabalho de combate ao crime rural”, continua Wesley, ao citar o documento entregue a Casagrande e os principais eixos de trabalho.

Mas, de nada adianta um banco de dados não alimentado corretamente. Afinal, nem todos os produtores fazem o boletim de ocorrência. Primeiramente, porque as propriedades normalmente são distantes dos centros das cidades e, consequentemente, das delegacias. A solução que poderia estar na tecnologia também apresenta falhas. O boletim on-line, feito pela vítima via internet, só pode ser preenchido e enviado por meio de computador. “Hoje, o computador é o smartphone. E não é possível fazer o boletim de ocorrência por ele. Isso precisa ser solucionado”, aponta o sindicalista.

Para tentar sanar esse problema, que não é exclusividade da região Sul, o Sindicato Rural de Jaguaré, no Norte do Estado, faz, desde 2021, campanha de conscientização junto aos associados para emissão do boletim de ocorrência e também ajuda na confecção do documento.

Jarbas Alexandre Nicoli Filho, presidente do sindicato de Jaguaré. Foto: arquivo pessoal

“Os produtores vinham até o sindicato pedir ajuda para resolver a situação dos roubos nas propriedades. Quando chegamos na Polícia Civil, nos diziam não haver registros e que, sem dados, não podiam fazer nada. Daí surgiu a ideia da campanha, de mostrar ao produtor a importância do boletim de ocorrência. Quando sabemos de um caso de roubo, eu mesmo faço contato com o produtor, converso, explico a necessidade de registrar a queixa e colocamos o sindicato à disposição para fazer o boletim on-line. Muitos vêm fazer, enquanto outros dizem que não vai dar em nada e não fazem mesmo”, explica Jarbas Alexandre Nicoli Filho, presidente do Sindicato Rural de Jaguaré.

Essa também é a orientação passada aos produtores pela diretoria da Associação Agricultura Forte. “A polícia precisa de dados para atuar de forma estratégica. Por isso, sempre orientamos os produtores a fazerem o registro do boletim de ocorrência detalhando o ocorrido, mesmo nos casos pequenos, e a usar o 181 para denúncias de forma anônima. Assim, auxiliamos numa atuação mais eficiente da polícia”, ressalta o presidente da entidade.

 

Muitos maestros, resultados rápidos

 

As ações a favor da segurança no campo precisam ser orquestradas e sob muitas batutas. Tanto que a primeira reunião do comitê foi multidisciplinar. Foram debatidas as propostas apresentadas ao governador e que podem balizar as estratégias a curto e médio prazo. A curto prazo, a proposta é o aumento do patrulhamento rural.

O governo sinalizou de forma positiva interesse em aumentar a escala de policiais, o que minimizaria a falta de efetivo. Ao mesmo tempo, sugerimos que delegacias busquem estagiários de Direito. Esses estudantes poderiam fazer o trabalho cartorial que hoje é feito por investigadores. Dessa forma, esses agentes que antes ficavam presos nas delegacias poderão sair para a parte investigativa”, salienta Mendes, ressaltando, ainda, a necessidade de que alguns desses policiais tenham prioridade nas investigações de crimes rurais.

O presidente da Faes, Julio Rocha, destaca que um dos objetivos do plano é resgatar a sensação de segurança e coibir a criminalidade. Mas para isso é preciso a participação efetiva da sociedade, combatendo a recepção de produtos roubados.

“Queremos com esse planejamento resgatar a sensação de segurança no meio rural e coibir os delitos de furtos e roubos. Porém, o êxito desse planejamento vai depender da tranquilidade de toda a sociedade, por exemplo, combatendo o crime de receptação de produtos de roubo e, sistematicamente, os receptores”, afirma Rocha.

Nesse sentido, uma ação coordenada entre as secretarias de Segurança e Saúde, além do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) trabalharia justamente esse eixo: o do receptador. Isso porque alimentos roubados vão além da esfera criminal e entram na preocupação da saúde pública. Um exemplo é a carne. Toda proteína entregue aos consumidores passa por um rígido controle, que identifica uma série de doenças que podem gerar mal a quem ingere.

Presidente da Faes Júlio Rocha. Foto: Wenderson Araújo

“Se há problemas numa cadeia de compra e venda organizada, o gado é descartado. Mas no mercado paralelo, não há esse controle. Os consumidores correm o risco de saúde por causa de zoonoses, como a brucelose. Por isso, há um trabalho intenso, especialmente do Idaf, para identificar esses receptadores”, explica Mendes.

 

Delegacia dos crimes rurais

 

Um outro tema abordado no documento entregue ao governo e que impulsionou a formação do comitê é a criação de uma delegacia especializada em crimes rurais. Com os investigadores livres para ir a campo e alguns deles priorizando a busca por autores de crimes nas propriedades, os inquéritos seriam remetidos para uma delegacia especializada e para dar seguimento ao inquérito. Ainda na área da segurança, Wesley Mendes diz que foi solicitado que a patrulha rural possa ser conduzida o ano inteiro, e não apenas entre março e novembro.

“O patrulhamento rural não é uma rotina estabelecida e segue a demanda da zona urbana. No verão, há reforço de policiamento no litoral. Então, por que o rural tem que ficar desprotegido nesse período? Sabemos que há uma logística e necessidade diferentes. Vamos pegar Cachoeiro como exemplo. Cerca de 80% da população vive em 20% do território. Os demais 20% ocupam 80% do território. Ou seja, a demanda é diferente e a insegurança acaba reinando na zona rural”.

Uma das soluções já apresentadas é a ampliação da Operação Colheita, que nos últimos anos ocorria de maio a novembro. “Na primeira reunião do comitê, foi deliberada a possibilidade de ampliarmos a operação para o ano todo. Estamos fazendo esse planejamento”, explica o subsecretário de Integração Institucional da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), Coronel Celante.

“A secretaria estará sempre de portas abertas para receber aqueles que conhecem a realidade de onde moram. Não há como planejarmos um emprego maior de efetivo sem que pessoas da região participem da discussão. Além disso, orientamos a todos acionar o 181 para denúncias. É importante e tudo ocorre em total sigilo”, conclui.

 

Experiências que deram certo Brasil afora

A secretária Executiva da Associação Agricultura Forte, Fernanda Permanhane, reconhece ser a segurança no campo um problema complexo, que exige recursos e inteligência estratégica para sua solução. Porém, alguns bons exemplos Brasil a fora mostram ser possível, se não resolver, pelo menos minimizar o problema. “Temos casos bem sucedidos como de Goiás e Rondônia, que adotaram o patrulhamento rural georreferenciado e instalaram um centro de comando e controle rural, aumentando a comunicação direta com os produtores, utilizando GPS nas viaturas, mapeando e identificando as estradas rurais. Os Estados reduziram expressivamente o índice de roubos e furtos nessas localidades. Bons exemplos que poderiam ser adotados no Espírito Santo”.

 Os furtos e roubos de cabeças de gado, equipamentos e insumos tiravam o sono dos pecuaristas goianos. O problema foi minimizado após uma parceria entre os produtores rurais e a Polícia Militar. Batizado de Batalhão Rural, o esquema conseguiu reduzir em 50% os roubos nas fazendas.

O programa aproxima as forças de segurança do produtor, faz um cadastro da propriedade e coloca à disposição do homem do campo toda estrutura logística na viatura de atendimento. Quando o produtor é cadastrado no programa, a marca do gado entra no sistema. Isso também é feito com o maquinário. Depois, é traçada a melhor rota para a viatura chegar ao local e o produtor entra em um grupo de WhatsApp ou Telegram para trocar informações com policiais e outros produtores.

Outro exemplo é o Guardião Rural do Distrito Federal. O programa leva segurança a áreas acessadas por estradas de terra e que, muitas vezes, apresentam sinal de celular precário. Em meados do ano passado, cerca de 400 propriedades rurais eram atendidas por uma tropa de 150 homens e três companhias, responsáveis pela segurança na zona rural de 12 municípios no Distrito Federal.

Além da aproximação direta dos policiais e moradores, um aplicativo foi desenvolvido especialmente para a região. Por meio dele, a comunidade pode trocar mensagens e, em contato com o batalhão, enviar a localização da propriedade, caso necessário.

Comitiva do ES em visita ao Distrito Federal. Foto: arquivo pessoal

O presidente da recém-criada Federação Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança Pública do Espírito Santo, Márcio Correia, esteve no DF, em novembro passado, juntamente com policiais capixabas, para conhecer de perto o projeto e, assim, replicar no Estado.

“O Programa no DF funciona muito bem e vimos que podemos aplicar aqui. A ideia é muito interessante, pois o produtor rural é orientado a cuidar melhor da sua segurança patrimonial com visitas dos policiais às propriedades, orientando e cadastrando tudo que tem na fazenda, desde os funcionários até o maquinário. Já estamos tendo reuniões com a PM de Linhares para execução de um projeto piloto em uma determinada região já na próxima colheita do café”.

Para Correia, é necessário o apoio dos produtores rurais na segurança da sua propriedade. “O produtor rural precisa se conscientizar de que ele é papel fundamental para contribuir com sua própria segurança. É fácil encontrar propriedades rurais onde a residência do produtor ou o galpão onde armazena seus produtos não possuem alarme, cercado, cachorros, câmeras de segurança, entre outros recursos. É preciso entender que esse fator dissuasório faz com que o inimigo (no caso o ladrão) pense duas vezes antes de tentar invadir a sua casa ou propriedade”, salienta o presidente.

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