Cacau cabruca

Sul da Bahia recebe iniciativa global para conservação da Mata Atlântica

Com apenas 12,4% de sua cobertura original preservada e sob constante pressão de desmatamento, a Mata Atlântica ganha um reforço estratégico

Foto: Aguido Ferreira dos Santos, Ceplac

Com o objetivo de reduzir e reverter a degradação e a perda de biodiversidade na Mata Atlântica, foi lançado na quarta-feira (8/4), em Ilhéus, o projeto “Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável das paisagens agroflorestais cacaueiras”, uma iniciativa inovadora para transformar a realidade socioambiental em municípios da costa do cacau. O projeto será executado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). É financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), e tem parceria operacional da Sitawi Finanças do Bem.

Com foco central na conservação da Mata Atlântica, a iniciativa adota o fortalecimento do sistema cabruca para reverter as tendências de degradação e perda de biodiversidade na região. Por ser uma prática tradicional de cultivo do cacau sob o dossel de árvores nativas, a cabruca funciona como uma ferramenta essencial para a formação de corredores biológicos, regulação hídrica local e aumento da resiliência ecológica, reduzindo a pressão de desmatamento sobre a floresta.

Aliando a preservação do bioma com a necessidade de desenvolvimento local, o projeto beneficiará 3.000 produtores (as) que estão organizados (as) nos consórcios CIAPRA, CIMA e CDS-LS com o compromisso de que pelo menos 50% sejam mulheres e jovens.

“A Mata Atlântica é um bioma de importância mundial. O projeto será um exemplo notável de conservação produtiva, onde a agricultura sustentável coexiste com a preservação de espécies nativas e endêmicas”, explica Jorge Meza, Representante da FAO no Brasil.  

Impacto Ambiental e Econômico

As metas do projeto são ambiciosas: a restauração de 12.000 hectares de cacau em sistema cabruca, a melhoria da gestão em mais de 203 mil hectares de áreas protegidas (APAs Pratigi e Baía de Camamu) e a mitigação de 3,72 milhões de toneladas de gases de efeito estufa. No campo econômico, o projeto visa triplicar a produtividade média do cacau cabruca e aumentar em 30% a renda das famílias beneficiárias através de assistência técnica e acesso a mercados de cacau premium.

“O que estamos lançando na Bahia vai além de um projeto ambiental ou produtivo: é um modelo concreto de inovação no campo, baseado na cabruca e na conservação produtiva, que concilia produção de alimentos, conservação da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas”, afirma Thiago Guedes, diretor da CEPLAC. “Estamos posicionando a cacauicultura agroflorestal como um ativo estratégico para o futuro da agricultura mundial, considerando o grande ativo que é a agricultura familiar e a nossa juventude”, finaliza.

Governança Territorial e Inovação

Além das ações de campo, o projeto atuará na revisão de marcos legais, propondo políticas e mecanismos para promoção do manejo sustentável em dessa maneira, permitir que o produtor[MJ1] [S(2]  rural façam uso do solo com retorno econômico, ao mesmo tempo que promovem a conservação florestal, em uma escala de 1,6 milhão de hectares.

Entre as inovações planejadas estão o uso de blockchain para rastreabilidade total do cacau, a criação da Escola do Cacau para formação de técnicos e produtores, e a consolidação de um Centro de Inteligência Territorial (CIT) para monitoramento da paisagem e da biodiversidade em tempo real.

Para os produtores, a iniciativa representa uma oportunidade de acesso a crédito rural sustentável (modelo CRA Sustentável) e o fortalecimento de redes de comercialização nacionais e internacionais.

“O sistema cabruca tem uma importância muito grande para a fauna e para a flora dessa região. Trazer o processo de transição agroecológica para esse espaço de produção permite produzir uma amêndoa de cacau melhor, com mais qualidade, agregando valor a esse produto para que as famílias possam melhorar sua qualidade de vida, ter mais renda e trazer ainda mais desenvolvimento para essa região”, conta Luciano Ferreira, assentado da reforma agrária e produtor de cacau.

Sobre o projeto

O projeto “Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável das paisagens agroflorestais cacaueiras” tem como objetivo reduzir e reverter as tendências de degradação e perda de biodiversidade no Sul da Bahia com o fortalecimento do sistema cabruca.