Meio ambiente

Nova espécie vegetal é descoberta no Espírito Santo e já corre risco de extinção

Uma pesquisa de mestrado realizada em colaboração com a Ufes apontou a existência de uma nova espécie de planta ornamental na região serrana do Espírito Santo

Fotos: Vagner Faller e Alexandre Magno

Uma pesquisa de mestrado realizada em colaboração com a Ufes apontou a existência de uma nova espécie de planta ornamental na região serrana do Espírito Santo. Trata-se da Philodendron quartziticola, uma planta que se assemelha ao popular antúrio (Anthurium andraeanum), do mesmo grupo também da taioba e da jiboia. A notícia ruim é que a nova espécie já foi descoberta em situação de risco de extinção devido à forte interferência humana, principalmente pela mineração de areia, abertura de estradas, expansão de pastagens e plantios de eucalipto, entre outros fatores. 

Flor da Philodendron quartziticola

O responsável pela identificação foi o mestrando Alexandre Magno, que é orientado na sua pesquisa na área de taxonomia – ramo da biologia responsável por descrever, identificar e nomear os seres vivos – pela professora Cássia Sakuragui, da Escola Nacional de Botânica Tropical do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Ele ainda tem co-orientação de Luana Calazans, bióloga e técnica do Herbário Vies, localizado no setor de Botânica do Departamento de Ciências Biológicas da Ufes, no campus de Goiabeiras.

Endêmica do ES

A nova espécie foi encontrada em locais próximos às unidades de conservação Reserva Águia Branca (no município de Vargem Alta) e Reserva Kaetés (que se estende entre os municípios de Castelo, Vargem Alta, Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante e Alfredo Chaves), em áreas denominadas morros de sal.

Segundo Magno, os morros de sal são formações naturais típicas da região serrana do Espírito Santo, associadas a afloramentos de rochas ricas em quartzo. “Quando esse material se decompõe ao longo do tempo, forma grandes áreas de areia branca, com aspecto muito claro, que de longe lembra sal, o que dá origem ao nome popular”. Ele explica que as características desse ambiente são “solo arenoso, pobre em nutrientes, com alta drenagem e forte exposição, o que cria condições muito específicas que favorecem o surgimento de plantas altamente especializadas, muitas vezes restritas a esses locais”.

Morro de sal na região serrana capixaba

A descoberta da Philodendron quartziticola aconteceu durante uma expedição de campo feita pelo pesquisador em janeiro de 2024, quando foram observadas apenas plantas com frutos. “Em novembro daquele ano”, conta ele, “retornei ao local e consegui coletar exemplares com flores, o que foi essencial para confirmar que se tratava de uma espécie ainda não descrita pela ciência”.

Magno ressalta que o gênero Philodendron é muito diverso na Mata Atlântica, que é um dos principais centros de diversidade desse grupo no Brasil. Existem dezenas de espécies distribuídas ao longo do bioma, ocupando desde florestas ombrófilas (conhecidas também como florestas pluviais tropicais, pois o período de seca é praticamente inexistente) até ambientes mais especializados, como afloramentos rochosos e áreas de restinga.

O pesquisador afirma que muitas dessas espécies têm distribuição bastante restrita e estão associadas a condições ambientais muito específicas: “Esse parece ser o caso da Philodendron quartziticola, que até o momento só foi registrada em áreas de substrato quartzítico na região serrana do Espírito Santo, sendo possível que ela seja endêmica do estado”, ou seja, com ocorrência exclusiva em solo capixaba.

Risco de extinção

Apesar de comemorar a descoberta, o pesquisador conta que a notícia ruim é que a espécie Philodendron quartziticola já surge com risco de extinção: “Esse é um ponto central da descoberta. A espécie ocorre em um ambiente muito específico, com distribuição restrita e já bastante impactado, porque os morros de sal são naturalmente frágeis e hoje sofrem forte pressão humana, principalmente pela mineração de areia, abertura de estradas, expansão de pastagens, plantios de eucalipto e pela invasão de gramíneas exóticas. Isso faz com que a espécie seja considerada ameaçada de extinção, mesmo tendo sido descrita recentemente”.

Para Magno, “descrever uma nova espécie nessas condições é, ao mesmo tempo, uma conquista científica e um alerta”. Ele continua: “Só conseguimos pensar em estratégias de conservação quando sabemos que a espécie existe. Nesse sentido, o trabalho taxonômico também tem um papel fundamental na proteção da biodiversidade, especialmente em regiões como a Mata Atlântica, que já sofreu intensa perda de habitat”.

Mercado ornamental

Sobre o mercado de plantas ornamentais, Magno avalia que “não faz sentido falar em valor comercial da Philodendron quartziticola neste momento, pois se trata de uma espécie recém-descrita, com ocorrência restrita e já considerada ameaçada”. Ele acrescenta que “quando se fala em espécies raras e recém-descobertas, a exposição excessiva ou a valorização comercial precoce pode, inclusive, incentivar a coleta ilegal”. “Por isso”, continua, “neste momento, o mais importante é garantir a conservação da espécie no seu ambiente natural; só a partir disso é que se pode pensar, com responsabilidade, em qualquer uso ornamental futuro”.

A etapa atual do mestrado é de análise e tratamento das informações coletadas no trabalho de campo. “É uma fase em que começam a surgir novos resultados, e há outras descobertas em andamento que ainda podem ser desenvolvidas”, informa o pesquisador.