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Sementes de maracujá que geram renda e um negócio inovador na divisa com o ES

Há dois anos o empresário Sandro Reis viu nos resíduos do maracujá a oportunidade de abrir um novo negócio

por Redação Conexão Safra

em 04/10/2013 às 0h00

8 min de leitura


Muitos anos de estudo, pesquisas e uma ideia fi xa de empreendedorismo na cabeça: por que não transformar em óleo as sementes de maracujá? O negócio que existia só no papel, em forma de pesquisas em conceituados centros de estudo, agora é sucesso garantido e gerador de renda no Espírito Santo e Rio de Janeiro.


O pesquisador e empresário Sandro Reis fundou a empresa Extrair, há dois anos, e é destaque em várias revistas científi cas, jornais, artigos e matérias de televisão a nível nacional.


O óleo extraído das sementes de maracujá é vendido para empresas de cosméticos de São Paulo, Acre, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A capacidade é de seis mil quilos de óleo por mês. Neste período de entressafra da fruta estão sendo processados 80% dessa capacidade.


A produção atual atende a várias empresas no Brasil e gira em torno de quatro mil quilos de óleo por mês. As sementes de maracujá são subutilizadas para a fabricação de cosméticos. A matéria prima, que possui essa função hidratante, acaba sendo incorporada a grandes receitas de produtos que chegam todos os dias a milhares de pessoas.


Por enquanto, apenas o maracujá é utilizado, mas já existem planos para fazer o mesmo processo com a goiaba, a graviola e o café. Após a utilização do óleo, produz-se a torta bagaço, mais um resíduo que vem da semente, compactada em forma de pó, que pode ser aproveitada na alimentação do gado leiteiro. Estão sendo realizados estudos sobre a riqueza nutritiva desse produto, além de outros benefícios.


O estado do Rio de Janeiro já foi um dos maiores produtores de maracujá do Brasil. A capacidade estadual é de sete mil toneladas por ano, mas apenas duas mil são produzidas, por isso, a matéria prima para abastecer a Extrair tem vindo do Espírito Santo e da Bahia. Vale destacar que o Brasil é o maior produtor de maracujá do mundo, seguido do Equador. Atendendo a esta demanda, os óleos de maracujá são enviados para outros países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão.

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“Eles consomem a fruta de outros países, mas não plantam, em contrapartida, consomem também esses óleos para a produção de cosméticos. Eu cheguei a enviar material para os Estados Unidos, agora estou com uma encomenda para o Reino Unido e também para o Japão. Para o Japão, não vou exportar óleo, o material encomendado foi a torta e a semente. Estou apenas começando e é claro que o foco é o crescimento ”, conta Sandro Reis.


A empresa é a única que realiza o processo no Rio de Janeiro e também no Espírito Santo. Existem outras no ramo no Brasil, mas nenhuma com a capacidade de processamento tecnológico como a de Bom Jesus do Itabapoana. Tudo foi patenteado pela UENF e o pesquisador que desejar comprar essa ideia deverá também pagar à UENF royalties pelo trabalho realizado. Por enquanto, o apoio se dá nessa fase de divulgação e reconhecimento.


“Uma empresa em Linhares começou um processo parecido, mas não deu certo e nem funciona mais. Inclusive, repasso meu produto para grandes empresas em São Paulo e acabo suprindo também a carência delas ”, lembra Sandro.



Planos para encontrar investidores no negócio


Para conseguir a produção, as sementes são compradas nas indústrias de polpa de fruta ou de suco. Com a baixa da safra, tem sido difícil encontrar sementes no mercado e o pagamento pelo que antes era jogado fora, ajuda a encontrar novos colaboradores. O quilo da semente de maracujá varia de R$ 0,15 a R$ 0,30. Tudo vai depender do grau de sujidade e da temperatura das sementes (às sementes mais limpas e resfriadas pagam-se o valor maior).


“Estou procurando sementes para comprar, o que tem se tornado difícil com a baixa produção da fruta no estado do Rio de Janeiro. Estou procurando investidores para investir na extração de óleo e no projeto de aproveitamento da casca do maracujá. Nesta segunda etapa iremos fazer a farinha da casca e o isolamento da pectina, que é uma substância muito utilizada pela indústria alimentícia ”, afirma Sandro.



Como começou


Para que essa história saísse do papel algumas parcerias foram importantes: a Embrapa Agroindústria de Alimentos, Pesagro e a Universidade Estadual do Norte Fluminense. O projeto Arranjo Produtivo Local do Maracujá teve a perspectiva de produzir 600 litros de óleo de semente de maracujá por dia. O financiamento inicial foi da Faperj, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, desenvolvido e coordenado pela Embrapa.


Em Bom Jesus do Itabapoana, a unidade foi piloto, um exemplo para experimentos de viabilidade financeira, mas com o passar do tempo foi mostrada a excelência do negócio. “E não foi apenas a ideia de subutilizar as sementes, como também gerar empregos para uma região com pouco desenvolvimento industrial e Índice de Desenvolvimento Humano baixo ”, comenta Sandro.


Já patenteada pela UENF, a tecnologia é fruto do Projeto APL-Maracujá, desenvolvido de 2006 a 2009, com o apoio do CNPq. A pesquisa começou a partir das pesquisas de doutorado das estudantes Suelen Alvarenga Regis e Eliana Monteiro Soares de Oliveira, com orientação do professor Eder Dutra de Resende, e permite prolongar a vida útil da semente de maracujá, preservando a qualidade do óleo. A empresa foi a vencedora do prêmio Brasil de Engenharia 2011 na categoria ‘Profissional’ &ndash, temática ‘Resíduos Sólidos’.


A ideia de abrir a fábrica surgiu quando o empresário Sandro Reis participava de um congresso de óleos em Lavras (MG). Ele conta que, empolgado com a possível empreitada, buscou na internet mais informações sobre a cultura do maracujá no Estado do Rio de Janeiro. Acabou encontrando o pesquisador Sérgio Cenci, da Embrapa, que na época estava envolvido com o projeto APL- Maracujá.


“Mandei um e-mail para ele, que prontamente me respondeu marcando uma reunião. Por incrível que pareça, ele também tinha uma ideia idêntica à minha. Então, montamos o projeto e submetemos à Faperj para captar recursos. Aí entrou o professor Eder, que já pesquisava o aproveitamento de resíduos das indústrias de sucos. O casamento foi perfeito ”, afirmou na época Sandro Reis. Sem experiência no ramo, Sandro passou dois anos estudando o assunto &mdash, da montagem do projeto até a inauguração da empresa. A Faperj investiu R$ 220 mil em três projetos, e o próprio Sandro investiu mais R$ 100 mil de capital próprio.


Cadeia de negócios vinda de resíduos As sementes viram óleo que segue direto para a indústria transformando-se em cremes, xampus e produtos diversos. Quem antes via problemas nos resíduos e a total falta de investimento, agora enxerga uma grande cadeia de negócios. O agricultor planta mais, a indústria de polpas produz em escala maior e a empresa de resíduos paga pelo material que antes era usado somente como ração para animais.


Há muitos anos no mercado e atendendo todo o sul do Espírito Santo está a Papa Frutas, indústria de polpas localizada em Mimoso do Sul, que vende para um amplo mercado como o norte e o noroeste do estado do Rio de Janeiro, como também todo o Sul do Espírito Santo. O mercado cresceu. Além de maracujá, goiaba e acerola, outras frutas tropicais também são utilizadas na fabricação de polpas.


Para Hélio Carrera Filho, o projeto da Extrair foi visto como desafiador e útil no setor. Imaginar que as sementes produziriam tanta preciosidade foi, no início, mais uma constatação. Há dois anos as sementes passaram a ser enviadas para a cidade fluminense e não mais para o gado. A destinação correta dos resíduos sempre foi uma preocupação, e a destinação como cadeia de negócio ficou ainda mais sustentável para a empresa.


“Eu faço todo o meu relatório sobre resíduos, mostrando como exemplo que somos sim uma empresa preocupada. Tudo se aproveita, das cascas até as sementes. O gado come e misturamos na ração. O maracujá, por exemplo, apenas 30% dele vira polpa, o restante, 70%, são resíduos que sempre demos uma destinação. Achei essa novidade certa e inovadora ”, lembra Hélio.


Além de indústrias no Rio de Janeiro e agricultores, a empresa fluminense hoje busca resíduos de duas fábricas de polpas no Espírito Santo: de Guarapari e Mimoso do Sul. Em Guarapari, a destinação era a mesma de Mimoso do Sul, o que não servia mais era utilizado nas polpas. A matéria bruta também ia direto para a alimentação do gado. No início não foram acordados valores, tendo sido realizada, primeiramente uma experiência, mas o êxito foi tão grande que o negócio está no mercado há 15 anos.


“A Summer Fruit tem 15 anos no mercado e com crescimento constante, atendemos a grandes redes de supermercados. Agregar valor no negócio é muito importante. Os cremes e óleos de maracujá são consumidos no mundo inteiro. O mercado de estética é um dos que mais crescem no mundo, importante saber que fazemos parte dele. Ainda não conheço a empresa dele, mas tenho muita curiosidade de ir pessoalmente. Acredito nesse crescimento ”, comenta Oly Fonseca, dono da empresa Summer Fruit.

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