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No dicionário Aurélio, a definição da palavra regenerativa aponta para aquilo que reconstrói ou restabelece, dá nova vida, vitalidade ou energia. É justamente o que propõe a pecuária regenerativa — uma prática agropecuária que promove a restauração da saúde dos solos, da biodiversidade e dos ecossistemas. Uma alternativa viável, inclusive, para reduzir as emissões de carbono.
Do ponto de vista conceitual, a zootecnista Renata Eller explica que a pecuária regenerativa não visa apenas produzir carne ou leite, mas gerar serviços ecossistêmicos — como água limpa, biodiversidade, solo fértil e captura de carbono. Segundo a especialista, a ideia é que a fazenda se torne mais resiliente, produtiva e ambientalmente positiva ao longo do tempo.
“Na prática, a pecuária regenerativa prioriza o aumento da matéria orgânica e da biodiversidade no solo, estimulando o ciclo de nutrientes e a infiltração de água, com menor dependência de químicos (fertilizantes e defensivos), valorizando processos biológicos e naturais, e ampliando o potencial de sequestro de carbono no solo e na vegetação, ajudando a mitigar as emissões de gases de efeito estufa”, disse Renata.

O modelo, que propõe uma mudança estrutural nos sistemas produtivos, é uma tendência mundial e representa um marco para o futuro da pecuária nacional e capixaba.
“No Espírito Santo, onde as propriedades rurais muitas vezes convivem com solos sensíveis e períodos de seca, a adoção de práticas regenerativas — como o manejo rotacionado de pastagens, a integração lavoura–pecuária–floresta e o uso de bioinsumos — fortalece não apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a resiliência econômica das famílias produtoras”, disse o zootecnista Filipe Barbosa Martins – gestor de projetos da Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag).
Em sua avaliação, para o Brasil se tornar competitivo, principalmente nos produtos destinados à exportação e diante das novas exigências dos consumidores no mercado interno, será necessário se adaptar. “A tendência é que os pecuaristas migrem para essa prática e passem a utilizar métodos regenerativos.”
Renata, porém, faz um alerta: “não basta romantizar a mudança”. Segundo a zootecnista, alguns desafios tornam o processo mais lento e cheio de incertezas, principalmente nos primeiros anos. Esses entraves passam pela falta de assistência técnica especializada, pela ausência de políticas públicas estruturadas e por linhas de crédito que reconheçam os benefícios ambientais.
Na visão da especialista, contudo, a maior barreira é a resistência cultural.
“Os produtores, acostumados ao modelo convencional, têm dificuldade de abandonar velhos hábitos, mesmo sabendo que não são sustentáveis no longo prazo.” E acrescenta: “Adotar práticas regenerativas significa reformular a lógica da produção, integrando saberes tradicionais, ciência ecológica e inovação social.”
Transição lenta
Apesar da seriedade do tema, a adesão ao modelo ainda é embrionária no estado. Mesmo assim, bons exemplos começam a surgir de norte a sul do Espírito Santo. A favor do bem-estar animal, do uso consciente dos recursos naturais e do reaproveitamento de materiais e produtos — associado à experiência já bem-sucedida com o aproveitamento das fezes de suínos para fertirrigação de pastagens —, os gestores da Fazenda do Frade, em Itapemirim, no sul capixaba, optaram pela pecuária regenerativa.
“É muito fácil observar, por meio de análise visual mesmo, as diferenças de nossas pastagens que recebem a fertirrigação oriunda da suinocultura em comparação às que não recebem. Isso se comprova quando fazemos as análises de solos dessas áreas individuais”, explica Odael Spadeto Junior, gerente e médico veterinário responsável técnico da fazenda.
Quando adquiriram a propriedade, o local estava bastante degradado, e os proprietários iniciaram um processo de recuperação tanto das áreas agricultáveis quanto das pastagens. Eles optaram pelo sistema de compost barn: uma cama de serragem que, misturada à urina e às fezes diárias dos animais — removidas diariamente —, passa pelo processo de compostagem e se transforma em adubo orgânico após 90 dias.
“Optamos por confinar nosso gado no sistema de compost, assim teremos bem-estar animal associado à produção de adubo orgânico que utilizaremos tanto nas nossas lavouras de milho, para a produção de silagem — alimento para o gado —, quanto nas pastagens, diminuindo o uso de adubos e herbicidas químicos”, pontua. Júnior disse ainda que o confinamento é recente e que a primeira cama de serragem será retirada no final de novembro.
Nas áreas baixas da propriedade, plantam milho para silagem; nas partes altas, realizam o trabalho de recuperação das pastagens. “A fazenda é autossuficiente: o pasto e a produção de silagem feita com o milho conseguirão manter a fazenda o ano todo, sem a compra de ração de terceiros”, destaca Renata.
Em 2011, após concluir o curso de engenharia florestal, Caio Wan-Del-Rey decidiu aplicar os conceitos de práticas regenerativas na fazenda da família, localizada em Mucurici, no extremo norte. Começaram pelo reflorestamento e pelo cercamento de nascentes e, em seguida, pelo manejo de pastagens respeitando a fisiologia das plantas.
“Temos um sistema com 11 módulos de pastejo, e os animais vão rodando entre esses módulos. A gente calcula a lotação, a quantidade de animais e o tempo de ocupação, sempre respeitando a planta — altura de entrada e altura de saída. Cada módulo tem água, cocho para suplementação e sombra para os animais ruminarem e descansarem, contribuindo assim para o bem-estar animal”, detalha Caio.
A família Wan-Del-Rey adota o que chama de piquete móvel: o tamanho do piquete é determinado conforme a estação do ano, a quantidade de animais e a taxa de rebrota do pasto, observando sempre o momento certo de entrada e saída do gado.
“Os piquetes não são fixos, e a gente consegue controlar melhor se vai ter mais ou menos animal, se precisa descansar mais e deixar o espaço sem gado, porque são piquetes pequenos. Chegamos a fazer piquetes de 50 metros por 120 metros, acomodando de 30 a 60 animais, em média.”
Com mais de 600 árvores já plantadas, a meta é atingir cerca de 3 mil espalhadas pela propriedade, gerando sombra, melhorando o solo, ampliando a absorção de carbono e contribuindo para a infiltração de água.

Desenvolvimento Sustentável da Cadeia do Leite
Lançado em agosto de 2023, o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cadeia do Leite do Espírito Santo é uma iniciativa do Governo do Estado, com horizonte de execução até 2032, voltada ao fortalecimento, à transformação sustentável e ao aumento da competitividade da cadeia leiteira capixaba.
Entre as ações do eixo estratégico Sustentabilidade está a integração da pecuária regenerativa, com foco em restaurar ecossistemas, aumentar a eficiência produtiva e garantir a resiliência econômica e ambiental das propriedades rurais.
Para o secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), Enio Bergoli, a pecuária regenerativa não é uma tendência, e sim uma necessidade.
“A inserção de práticas regenerativas permite aumentar a produtividade sem ampliar áreas de pastagem, melhora a qualidade do leite, reduz custos de produção e contribui diretamente para metas globais de baixo carbono e neutralidade climática. A pecuária regenerativa não é apenas uma tendência — é uma necessidade para garantir competitividade, segurança alimentar e equilíbrio ambiental do campo nas próximas gerações”, salienta o secretário.
Entre as diretrizes do programa estão: manejo do solo e pastagens regenerativas; integração lavoura–pecuária–floresta (ILPF); gestão da água e bem-estar animal; redução de emissões e economia circular; formação técnica e educação regenerativa; e indicadores de sustentabilidade.





