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Entre moquecas e balões: o Espírito Santo que inspira

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Por:Leandro Fidelis
Símbolo nacional e carro-chefe dos botecos, a cachaça completa 500 anos de história em 2016. Branquinha, marvada, pinga, aguardente, mé, mata-bicho e água que gato não bebe são alguns dos nomes atribuídos à bebida destilada preferida dos brasileiros. Só no Espírito Santo, são mais de 80 destilarias em funcionamento- entre registradas e de fundo de quintal- com uma produção de 20 milhões de litros por ano, empregando cerca de cinco mil pessoas diretamente, segundo estimativa do Sindicato das Indústrias de Bebidas do Espírito Santo (Sindibebidas). Com uma produção refinada e de alta qualidade, apesar da alta tributação, a cachaça já é um ícone capixaba.
A história da cachaça está inteiramente ligada à colonização do Brasil. A partir de 1530, a produção açucareira apareceu como primeiro grande empreendimento de exploração da mão-de-obra escrava africana. De acordo com o mestre em história Rainer Sousa, os portugueses dominavam o processo de plantio e processamento da cana &ndash, já realizado nas ilhas atlânticas &ndash, e ainda contavam com as condições climáticas que favoreciam a instalação de grandes unidades produtoras pelas regiões litorâneas no território de domínio da Coroa.
Os negros eram adaptados ao trabalho compulsório, tinham mais dificuldade para fugir e geravam lucro ao reino de Portugal por conta dos impostos cobrados sobre o tráfico negreiro. E, por ironia, foram os escravos os descobridores da bebida genuinamente brasileira. No processo de fabricação do açúcar, eles realizavam a colheita da cana e, após esmagar os caules, cozinhavam o caldo em enormes tachos até se transformarem em melado. “Nesse processo de cozimento, era fabricado um caldo mais grosso, chamado de cagaça, que era comumente servido junto com as sobras da cana para os animais ”, afirma Rainer.
O hábito restrito às senzalas passou a gerar um líquido fermentado de alto teor alcoólico, originário da fermentação da cagaça sob ação do tempo e do clima. “Desse modo, podemos muito bem acreditar que os animais de carga e pasto foram os primeiros a experimentarem nossa cachaça ”, complementa o historiador. “Certo dia, muito provavelmente, um escravo fez a descoberta experimentando daquele líquido que se acumulava no coxo dos animais. ”
Os sofridos escravos experimentaram quase de forma laboratorial aquilo que se tornou, séculos depois, nosso produto tipo exportação. Segundo Rainer Sousa, outra hipótese para a origem da cachaça é que os negros misturaram um melaço velho e fermentado com um melado fabricado no dia seguinte. Nessa mistura, acabaram fazendo com que o álcool presente no melaço velho evaporasse e formasse gotículas no teto do engenho. Na medida em que o líquido pingava em suas cabeças e iam até a direção da boca, os escravos experimentavam a bebida que teria o nome de “pinga ”. Mas a “goteira ” também significava dor, uma vez que a cachaça que pingava do teto atingia em cheio os ferimentos nas costas dos escravos, fruto da punição física a que eram submetidos. “O ardor causado pelo contato dos ferimentos com a cachaça teria dado o nome de ‘aguardente’ para esse mesmo derivado da cana-de-açúcar ”, diz Rainer.
E não demorou muito para a espécie de “vinho de cana ”, somente consumido por escravos e nativos, conforme relatos do século XVI, se popularizar entre os colonizadores. Eles começaram a substituir as caras bebidas importadas da Europa pelo consumo da popular e acessível cachaça. Os quinhentos anos seguintes da bebida destilada é uma história bem conhecida pela maioria dos brasileiros de todas as classes sociais e até estrangeiros.
Criatividade para enfrentar a crise
O ano das comemorações é também um ano complicado para o mercado da cachaça. O presidente do Sindibebidas, Sérgio Rodrigues da Costa, alerta que o país está passando por um momento de crise e, por isso, é preciso criatividade para manter as vendas positivas. “O momento é difícil. Sabemos como essa situação começou, só não podemos prever como e quando vai terminar. É preciso cautela ”, avalia.
É neste cenário de incertezas que os empresários do ramo estão procurando alternativas para valorizar a bebida, afinal os custos subiram decorrente dos aumentos dos impostos que entraram em vigor no ano passado. Para o diretor do sindicato e proprietário da cachaça Thimotina, Paulo Roberto Soares Filho, o custo recai principalmente para os donos de alambiques registrados. “Estamos sujeitos a muitas exigências que tornam o custo de fabricação infinitamente maior para quem está regularizado. Infelizmente, no Brasil, são mais de vinte e oito mil rótulos de cachaça de qualidade duvidosa contra mil e duzentos atuando dentro da lei ”, salienta Paulo.
Para Paulo, a informalidade é concorrência desleal e fere a cidadania que é o consumo consciente e o processo de escolha que equilibra as relações de consumo e a responsabilidade social e ambiental. “Para garantir que a bebida é de qualidade o consumidor precisa verificar se o produto tem registro no Ministério da Agricultura e Pecuária. Esse registro atesta a boa procedência da cachaça ”, acrescenta Soares.
A busca das certificações e a participação em concursos são alternativas para se manter no mercado com algum diferencial. Uma cachaça certificada ou premiada agrega valor ao produto final, podendo ampliar em mais de 30% o valor cobrado. De Guarapari, a cachaça da “Reserva do Gerente ” acumula títulos. Foi primeira colocada no festival de degustação realizado pela Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Findes) e eleita também a segunda melhor cachaça do país pela Cúpula da Cachaça de São Paulo. De acordo com o proprietário da empresa, Ademar Belisário, ao contrário de outros setores e empresas, a marca tem apresentado um bom desempenho. “As vendas do ano passado foram superiores a 2014 em 35% e este ano, apesar de estar no início, estamos indo muito bem ”, afirma.
Na alta temporada, a sede do alambique, na Rodovia do Sol, chega a receber 500 pessoas por dia para a degustação e conhecer a produção de uma das melhores cachaças do Brasil. A Reserva foi fundada por Belisário quando se aposentou após alguns anos como gerente do Banestes, em 1996. Ele começou a fabricar cachaça artesanal como hobby. Como a qualidade do produto chamava atenção de seus amigos, a quem ele presenteava com a bebida sempre que os encontrava, resolveu transformar seu talento num negócio lucrativo. Além de fabricar a cachaça, ele vende licores de diversos sabores, como os de chocolate e morango, entre outros.
Serviço:
Cachaçaria Reserva do Gerente
Rodovia do Sol, s/n, km 28, Praia do Sol- Guarapari
*Horário de funcionamento: de terça à sexta-feira, das 8 às 17h, e sábado e domingo, das 8 às 13h
Tel: (27) 3242-2888
Público capixaba
Paulo Soares afirma que o maior consumidor do produto fabricado no Espírito Santo são os próprios capixabas. “Aqui na Thimotina nós produzimos cerca de trezentos mil litros por ano, que são muito bem recebidos pelos capixabas. Nossa cachaça tem a característica do regionalismo. Cada marca tem mercado garantido na região onde está inserida ”, diz.
Localizada em Afonso Cláudio, na região serrana do Estado, a Thimotina é uma empresa familiar que está no mercado desde 1915, graças a sua qualidade. Fundada por Francisco Thimóteo Dias, avô, do atual proprietário, a cachaça utiliza sempre cana fresca e criteriosamente selecionada no seu processo de fabricação. A colheita é manual evita que a cana não sofra nenhum tipo de queima, o que comprometeria sua qualidade, explica Paulo.
A fermentação é natural, sem adição de produtos químicos, e o processo de destilação é feito em alambique de cobre, que catalisa importantes reações no processo. Da destilação, a “cabeça ” e a “cauda ” são eliminadas, aproveitando-se somente a parte nobre do destilado, chamada “coração ”. Seu amadurecimento é processado em barris de carvalho, que conferem à cachaça um bouquet especial, com aroma e sabor deliciosamente apurados, reconhecidos em todo o país.
Serviço:
Cachaça Thimotina
Estrada Afonso Cláudio – Floresta – s/n
Afonso Cláudio (região serrana)
Telefone: (27) 3735-1343
www.thimotina.com.br
Queda nas exportações de cachaça
Os dados abaixo são do Ministério da Agricultura. Em 2013, 2014 e 2015, as exportações de cachaça amargam números pífios. Terceiro destilado mais consumido no mundo, a cachaça patina há 20 anos entre 0,5% a 1% da nossa produção anual, o que equivale a cerca de 1 bilhão e 400 milhões de litros, sem previsão de medidas que possam reverter esse quadro. Para piorar a situação, perto de 50% dessa exportação mínima vai a granel para o exterior (sem valor agregado). A cachaça artesanal também representa uma parcela mínima desse volume exportado. “Por isso, os produtores artesanais preferem o mercado interno, pois já está consolidado ”, afirma Paulo Soares Filho, vice-presidente do Sindibebidas/ES.
Descarte vira combustível em alambique
Há cinco anos, o empresário MarcosChequer (67), de Marechal Floriano, na região serrana, não sabe o que é ir a um posto de combustível para abastecer o carro. Desde que passou a produzir o próprio álcool, ele já economizou mais de 30 mil litros, o equivalente a cerca de dois caminhões-tanque.
A experiência começou quando o fabricante da cachaça Melgaço percebeu ser possível aproveitar o líquido descartado no processo de produção no alambique, no Distrito de Melgaço, em Domingos Martins.
SegundoChequer, de cada 200 litros de cachaça, são desperdiçados 120 litros considerados impróprios para o consumo. “Eu tinha a opção de produzir uma cachaça de segunda linha ou transformar este resto em álcool combustível. ”
Para produzir o álcool hidratado, o empresário desenvolveu um tanque de alumínio com uma coluna mais alta. Dá para produzir até 20 mil litros por mês. “Quanto mais alta essa coluna, mais puro será o combustível no processo de evaporação ”, explicou.
Chequertem três carros, que percorrem uma média de 45 mil quilô,metros por mês. Ele calcula economizar R$ 27,00 a cada 100 quilô,metros rodados.“Infelizmente, a lei não permite que eu venda a produção, só o consumo próprio, porque o preço final seria bem mais em conta que o praticado no mercado ”, garante o empresário.
As ideias de MarcosChequernão param por aí. Recentemente, ele passou a transformar o bagaço da cana em papel.
Destilado capixaba entre os melhores do mundo
Uma marca capixaba está entre as mais premiadas em competições nacionais e internacionais. Trata-se da cachaça Coisa Nossa, produzida no distrito de Várzea Alegre, em Santa Teresa, na região serrana do Estado. Em 2014, a bebida ganhou o título de melhor destilado do mundo e vem acumulando outras conquistas, a mais recente na 26ª, Expocachaça, realizada em junho em Belo Horizonte.
A Coisa Nossa foi fundada há 60 anos por uma família de origem italiana e orgulha-se da produção 100% artesanal. A partir de 2004, os proprietários passaram a utilizar pesquisas laboratoriais e bioquímicas para selecionar as leveduras mais produtivas e resistentes extraídas da própria cana-de-açúcar da fazenda.
A fermentação da cachaça é outro diferencial, com o uso de barris de madeiras nativas, em vez das importadas, e aço inox. A bebida alcança alto grau de pureza e sua baixa acidez agrada a diferentes paladares. “Quem consome sente um tom frutado, que não agride as vias aéreas ou o paladar. E após uns quinze minutos é possível perceber o retrogosto de cana ”, garante Zaluar Igreja, gerente comercial da marca.
O alambique onde é fabricada a Coisa Nossa tem capacidade para produzir de 40 a 60 mil litros por ano. Segundo Zaluar, a marca está presente nas maiores redes de supermercados, bistrô,s, pousadas e restaurantes. “Temos uma aceitação incrível do nosso produto no mercado, mas ainda falta apoio do Estado e dos capixabas em geral para aumentar a valorização do nosso produto, considerado um dos melhores do Brasil ”, afirma o gerente.
E é nos concursos dentro e fora do país que a cachaça Coisa Nossa se destaca. Em abril de 2014, a marca conquistou dois dos principais prêmios do San Francisco World Spirits Competition que promove disputas internacionais entre destilados de todo o mundo. A Coisa Nossa superou 1.474 rótulos de 64 países com uma versão de cachaça amadeirada, envelhecida por dez anos em barris de castanha, e faturou o título na categoria Duplo Ouro. Na mesma competição, a cachaça Coisa Nossa Branca cravou a segunda colocação.
Em junho deste ano, a mesma versão amadeirada, mas envelhecida durante oito anos em barris de bálsamo, conquistou o prêmio principal na categoria Extra Premium, vencendo concorrentes de todo o Brasil na Expocachaça, em Minas Gerais. A cachaça Coisa Nossa Branca também foi premiada no evento. “A Expocachaça foi o melhor evento que já participamos. É importante mostrar qualidade para outros Estados, uma vez que na visão da maioria dos frequentadores da feira o Espírito Santo não possui tradição neste tipo de produção ”, avalia Zaluar.
Para o representante da Coisa Nossa, os alambiques com excelência no produto final estão mudando a maneira do mercado nacional enxergar a cachaça capixaba. “Nosso Estado tem muito potencial e gostaríamos de compartilhar nosso método com outras empresas para que, num futuro próximo, possamos padronizar o mercado de cachaça, sempre com foco na qualidade. ”
Ainda este ano, a marca vai lançar um produto com a utilização de método de envelhecimento semelhante ao do whisky, apesar do barril de madeira nacional. A bebida chegará ao mercado após 11 anos de envelhecimento em barris de castanha queimada com cana caiana. Segundo Zaluar, a bebida está pronta para envase e só falta definir o tipo de vasilhame para iniciar as vendas.
Serviço:
Cachaça Coisa Nossa
Várzea Alegre- Santa Teresa
*Visitas guiadas disponíveis todos os dias
Telefone para agendamento: (27) 99708-7203 (falar com Nicelo Scotta)
A cachaça brasileira
- 40.000 produtores no Brasil
- 98% de pequenos e micro-empresários
- 600 mil empregos diretos e indiretos
- 11,5 litros de consumo de cachaça por ano por habitante
- 7 bilhões de reais de movimento anual em sua cadeia produtiva
- 4.000 marcas de cachaça disputam mercado no Brasil
- Exporta cerca de 1% de sua produção anual
- 50% das Exportações é de cachaça a granel
- 70% da produção brasileira é de cachaça de coluna ou industrial e 30% de cachaça de alambique
- Mercado informal: ainda elevado em algumas regiões o que elevaria a nossa produção para algo em torno de 2 bilhões de litros/ano
- 3º, Destilado mais consumido no mundo
- 87% do market share dos mercado de destilados no Brasil
- Bebida nacional do Brasil por Decreto Federal
- Patrimô,nio Cultural de Minas Gerais por Lei Estadual
- Patrimô,nio Histórico e Cultural do Rio de Janeiro por Lei
- 70% do consumo de cachaça é realizado em bares e restaurantes e 30% nos demais pontos de vendas
- Produto que mais tem “a cara brasileira ”, segundo pesquisa do Centro de Indústrias de São Paulo
- Ú,nica bebida, na atualidade, capaz de ter um boom no mercado internacional
(*Fonte: CBRC- Centro Brasileiro de Referência da Cachaça, dados de 2012)





