Alfredo Chaves concentra maior área plantada de banana vitória do Brasil

A variedade vitória foi produzida por meio do resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Capixaba de Pesquisa...

*Edézio Peterle

Lavouras exuberantes, montes cobertos por plantações e estradas que atravessam bananais. As paisagens do município de Alfredo Chaves, no sul do Estado, retratam o que os números dizem sobre essa cidade que produz 30 toneladas por ano de banana da cultivar vitória e conta com mais de 1.000 hectares de área plantada, tornando-se o maior produtor dessa variedade de banana do Brasil.

Incluindo outras espécies da principal fruta produzida e consumida em solo brasileiro, Alfredo Chaves conta com uma produção de 42 mil toneladas de banana, em uma área de 2.700 ha. As atividades envolve 600 famílias, oferecendo alternativas de emprego e rentabilidade para as novas gerações de produtores.

A variedade vitória foi produzida por meio do resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural &ndash, Incaper, em 30 anos, buscando espécies resistentes às principais doenças que atingem às bananeiras, como o Mal-do-panamá, a Sigatoka-amarela e a Sigatoka-negra.

“Não foi uma tarefa fácil, pois foi preciso congregar a essa variedade a característica de resistência, mas ao mesmo tempo estar atento à questão da qualidade da banana. A espécie vitória atende todos os requisitos agronômicos e o mais importante: ela teve uma boa aceitação no mercado ”, afirma Alciro Lamão Lazzarini, extensionista, chefe do escritório local do Incaper em Alfredo Chaves e coordenador do Polo de Banana do Espírito Santo.

Durante o longo processo de pesquisa, foram separados genótipos que apresentavam as qualidades superiores em termos de produtividade, qualidade e resistência. O Incaper junto com a Embrapa Mandioca e Fruticultura de Cruz das Almas, na Bahia, através de cruzamentos de banana da espécie pacovan com materiais resistentes, obtiveram uma série de plantas que foram avaliadas.

Depois de 20 anos de trabalhos experimentais em fazendas de Alfredo Chaves, foram apresentadas para a sociedade as variedades de bananas obtidas, através de um evento em 2005. Na ocasião, foi firmado compromisso com o governo do Estado para a multiplicação e distribuição de nove mil mudas, em forma de pomar clonal, para todo o Estado. Cada agricultor recebeu 200 mudas para cultivo e avaliação. Nesse sentido, Alfredo Chaves foi o município que mais se destacou com essa nova cultivar de banana, apresentando clima propício para o cultivo da nova cultivar de banana.

A partir daí, foi realizado um trabalho contínuo de apresentação da novidade para os produtores alfredenses, que no início se mostraram resistentes à novidade. Hoje, é possível encontrar a espécie em praticamente todas as lavouras do município, que dividem os bananais com outras variedades da fruta.

A banana vitória recebeu este nome por ter sido, realmente, uma vitória na pesquisa realizada. Trata-se de uma fruta vigorosa com bom desenvolvimento, crescimento adequado com bananeiras que produzem frutos com excelente qualidade para o mercado. Por ser resistente às doenças, não há necessidade de uso de defensivos, portanto são adaptadas ao modo de produção agroecológicas, o que condiz com a realidade da agricultura familiar.

O secretário de Agricultura de Alfredo Chaves, Antônio Carlos Petri, conta que valeu a pena todo o esforço na produção da nova cultivar e o trabalho com os agricultores do município. “A banana vitória tem produtividade, qualidade, sabor e resistência às principais doenças. Com isso, se justifica todo o investimento que foi feito em pesquisa ”, comemora o secretário.

Petri acrescenta que a variedade vitória foi um achado para os produtores de Alfredo Chaves, que se mostram entusiasmados e confiantes com a bananicultura. “Cada vez que a gente visita alguma lavoura, ficamos felizes, pois concluímos que valeu a pena ter apostado na banana vitória. ”

Intertítulo

A maior parte da produção de bananas do município acompanha a tendência das outras cidades do Estado, de ser comercializada nas grandes cidades de estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro, que é o grande consumidor de banana do Espírito Santo. Em menor escala, a fruta é vendida para cidades de Santa Catarina, Paraná, Maro Grosso, Goiás e Bahia.

O resultado positivo da produção de banana vitória tem atraído produtores de outras cidades do Espírito Santo. No início do mês de junho, um grupo de 70 produtores do município de Viana visitou propriedades de Alfredo Chaves com o objetivo de conhecer e aprender novas técnicas de manejo para melhorar a qualidade e a produtividade dos seus bananais.

Para o secretário de Agricultura de Viana, Ledir Porto, a decisão de trazer os produtores para conhecer a produção deve-se ao cultivo avançado da banana vitória na região. “Pudemos trocar experiências para melhorar a produção em nosso município como também incentivar os pequenos produtores a comercializarem a banana. Vou procurar fornecedores de mudas desta variedade para distribuir para agricultores de Viana ”, informou.

A tradicional Festa da Banana e do Leite, que este ano chega a sua 44ª edição, celebra os resultados positivos da bananicultura para o desenvolvimento de Alfredo Chaves. O evento será realizado entre os dias 28 e 31 de julho, com palestras de aprimoramento e capacitação para produtores, exposições, apresentações culturais e shows de artistas da região e nacionais.

Gerações unidas no cultivo de banana vitória

Um dos primeiros agricultores que apostou na nova espécie foi Argeu De Nadai, 73 anos, morador da localidade de São Bento de Batatal. Sua propriedade está localizada a cerca de 350 metros de altitude. A produção de bananas foi iniciada pelo pai de Argeu, ainda na década de 1960, com a substituição dos pastos por bananais.

A cultivar vitória chegou à propriedade da família De Nadai há dez anos, com apenas duas mudas, como lembra o senhor Argeu. “Ganhei duas mudas de banana vitória do Incaper, tratei-as com carinho. O primeiro cacho que colhi tinha 22 kg, o segundo pesou 68 kg. Devido ao bom resultado, fui aumentando a produção e vou aumentar ainda mais. Essa banana foi realmente uma vitória para nós produtores ”, comemora De Nadai.

A produção da banana vitória se apresentou com uma inovação e possibilitou a continuidade da atividade que agora é conduzida por Argeu De Nadai Filho (37), o que garante o sustento da terceira geração da família com a bananicultura. “Se não fosse a banana vitória, teria ido embora da roça, pois só a produção da variedade prata não estava sustentando. O que tenho hoje é devido à produção de banana ”, conta Argeu Filho.

Os números evidenciam a qualidade da banana vitória. A produção na propriedade de Argeu chega a 24 toneladas por hectare, no período de um ano. Nas mesmas condições, a colheita de banana prata chega a 8 toneladas/ano.

Além de produção da nova cultivar ser três vezes maior que a as frutas tradicionais, o custo de adubação é menor. “No começo tive receio, pois adubávamos muito. A banana vitória você aduba menos e colhe mais. Igual a vitória nunca vi igual ”, revela Argeu De Nadai Filho.

A lavoura de banana da família De Nadai tende só a crescer, pois as plantas das espécies prata e pacovan, que por ventura estão infectadas com as doenças como Mal-do-panamá, serão substituídas pela nova cultivar. Hoje, Argeu já produz as próprias mudas de banana vitória, em quantidade suficiente até para ceder aos vizinhos.

Outra família que está satisfeita com a produção de bananas é a de Florentino Favato (75), da localidade de Quarto Território. Junto com os filhos Lourenço (25) e Leandro Donna Favato (32), fornecem frutas das espécies pratinha e vitória para uma grande empresa da Grande Vitória. Para complementar a demanda, a família compra banana de produtores vizinhos.

“A banana que é comercializada na capital tem que pesar no mínimo 150 gramas, nunca menos disso. Em algumas épocas do ano, só a banana vitória atinge esse peso ”, afirma Leandro Favato.

A maior parte do bananal da família Favato é formada pelas variedades pratinha e, em menor escala, pacovan e vitória. Mas, a nova cultivar está substituindo gradativamente as outras espécies. “Tínhamos um espaço sem bananas na lavoura e plantamos a nova variedade. Quando há substituição, devido à morte ou doença da planta, repomos com a espécie vitória por ser mais resistente ”, conclui Favato.




Mariola sem açúcar é sucesso

Há 19 anos, Sérgio Fundão de Araújo, 63 anos, decidiu empreender após realizar cursos que visavam desenvolver a agroindústria no município de Alfredo Chaves. A capacitação veio em boa hora, pois o mercado de banana na época estava com dificuldade no escoamento da produção, gerando sobras de frutas. A saída vista por Sérgio, que também é produtor de banana, foi fazer e comercializar o doce da fruta.

“Alfredo Chaves produzia muito mais banana vinte anos atrás. Devido à redução de preço e problemas na produção, alguns produtores resolveram plantar mais café e a banana passou a sobrar no município. A partir daí, resolvi aproveitar o excesso de produção e montar nossa agroindústria Doces Matilde ”, conta Sérgio.

A matéria-prima da produção dos Doces Matilde é a banana d&rsquo,água, produzida na região. A banana prata também é usada, quando a variação de preço se torna viável para a agroindústria.

E a visão empreendedora de Sérgio não parou por aí. Após se consolidar na produção da mariola tradicional, ele resolveu inovar. “Vimos o crescimento do nicho de mercado por produtos naturais, foi aí que fizemos uma pesquisa e desenvolvemos a bananada sem adição de açúcar. O produto teve boa aceitação e a demanda tende a crescer. ”

A fábrica de Sérgio tem sede na localidade de São Marcos e está rodeada por bananais. Seis funcionários garantem a produção de 7.500 mariolas por dia, garante Vanderléia Galvão Curitiba, funcionária da fábrica desde o início. “O trabalho começou de forma manual com dois funcionários. A produção cresceu, e hoje, conta com ajuda de máquinas que garantem os números da produção. ”

Os produtos Doces Matilde são vendidos em lojas do mercado de Hortifruti, no Rio de Janeiro. Sérgio também comercializa sua produção no Espírito Santo, em empreendimentos turísticos de municípios como Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante e também da capital Vitória, com o nome de Doces Gasperazzo.

Além da venda de mariolas, o doce de banana de Sérgio será comercializado durante a realização da tradicional Festa da Banana e do Leite, em Alfredo Chaves. Uma das atrações que está chamando a atenção do público é a “virada dos tachos ”, que consiste na preparação de 150 kg de doce de banana, que são despejados e distribuídos. Nessa ocasião, o doce segue a receita tradicional com a adição de açúcar.

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