Parcerias capixabas

O poder das collabs: a essência colaborativa no universo cervejeiro

O poder da colaboração entre as cervejarias independentes nas Montanhas Capixabas e no Caparaó, no Espírito Santo.

Em Venda Nova do Imigrante, uma parceria entre as cervejarias Grecco e Tarvos culminou com o lançamento da primeira bock da região, no inverno de 2022. (*Leandro Fidelis/Imagem com direito autoral. Proibida reprodução sem autorização)

A colaboração entre cervejarias independentes nas Montanhas Capixabas e no Caparaó não apenas geram produtos únicos e saborosos, mas também contribui para o desenvolvimento das respectivas regiões. O fortalecimento das parcerias entre pequenos negócios, como as cervejarias artesanais, impulsiona a economia local e gera empregos e renda para a comunidade.

A onda de “collabs” entre os cervejeiros resultou em mais dez cervejas inéditas no último ano, segundo o blog “Rota da Cerveja”, e em eventos como o “IPA Day”, em sua segunda edição neste sábado (22), em Venda Nova do Imigrante. As colaborações especiais ajudam a ampliar a visibilidade das marcas e produtos, além de fomentar o turismo na região. É um grande atrativo para os consumidores, que buscam novas experiências e produtos diferenciados.

Além disso, essas parcerias também podem gerar uma troca de conhecimentos entre os cervejeiros, promovendo a capacitação e o aprimoramento dos processos produtivos.

“Trata-se de criar uma cerveja especial, que não faz parte da linha tradicional na qual a cervejaria normalmente atua. É um processo de compartilhamento de conhecimento, no qual as cervejarias estudam e desenvolvem a cerveja em conjunto. Além disso, a dimensão social também é importante: você aprende com seu parceiro e ele aprende com você. E consequentemente, as empresas se tornam parceiras mais próximas”, analisa Tedesko Almeida, sócio-proprietário da Piwo Cervejaria Rural, de Venda Nova.

Isso leva a uma melhoria na qualidade dos produtos, o que pode contribuir para a fidelização dos clientes e, consequentemente, para o crescimento do negócio. É a oportunidade para os empreendedores ampliarem suas redes de contatos e se conectarem com outros profissionais do mercado.

Para Carlos Eduardo Rodrigues, da Panzert (Ibatiba), as collabs ajudam a aumentar a visibilidade e a conscientização das cervejarias independentes envolvidas, o que pode levar a um aumento na demanda e ajudar a construir uma base de fãs mais ampla.

“E ainda podem ajudar a promover a ideia de que as cervejarias independentes são uma comunidade unida e colaborativa, em vez de concorrentes diretos. Ajudam a construir um senso de camaradagem e respeito mútuo, o que pode levar a mais colaborações no futuro”, afirma Rodrigues, que neste ano lançou a Hop Lager Maracujá, em parceria com a Ronchi Beer, de Pedra Azul (Domingos Martins).

Cássio e o irmão, Carlos Eduardo Rodrigues, sócios da Panzert (Ibatiba).

Nas collabs, os cervejeiros utilizam equipamentos e instalações de ambas as cervejarias, e a colaboração de suas equipes de produção para garantir que o processo seja eficiente e eficaz. “A maturidade e a experiência dos cervejeiros convergem para a melhor forma de executar a receita, sempre debatendo os porquês de cada escolha”, destaca Fábio Schneider, da Bello Monti, também de Domingos Martins.

Ainda segundo o cervejeiro, a união de duas ou mais pessoas no processo de elaboração e produção das receitas acabam, por sinergia, potencializando a capacidade criativa dos envolvidos.

“Gera produtos melhores e/ou únicos, ajudando a alavancar o mercado com um novo produto de qualidade. Sem falar que também acaba atraindo o cliente que até então não era fiel ou conhecedor das cervejarias em questão”, complementa.

Além disso, algumas cervejarias artesanais já usam ingredientes locais, como lúpulo da região, o que pode ajudar a promover a agricultura local. Os municípios de Viana, Alfredo Chaves e Venda Nova contam com cultivos experimentais, com destaque para o metropolitano, cujo projeto é o primeiro do Brasil de iniciativa do poder público.

Em Domingos Martins, um sítio é pioneiro no Estado na produção de lúpulo de diferentes variedades e com mudas certificadas pelo Ministério da Agricultura (Mapa). Logo na primeira colheita, em abril de 2021, os proprietários fizeram “collab” com a cervejaria Barba Ruiva para a produção de dois rótulos usando lúpulo in natura. As cervejas foram uma Pilsen lupulada, com o amargor tradicional, típico da cidade de Pilsen (República Tcheca), e uma Double Ipa.

Moretina: A cerveja que une tradições italianas e cervejeiros artesanais- A Moretina foi a primeira cerveja colaborativa de Venda Nova do Imigrante, cidade conhecida pela influência dos imigrantes italianos. Em 2021, a Piwo e a Tarvos uniram-se para criar uma cerveja típica local em homenagem aos 130 anos da imigração na região. Inspirados pela cena cervejeira artesanal americana, os cervejeiros desenvolveram a Italian Pilsner, um estilo de cerveja que se popularizou nos Estados Unidos. O nome “Moretina” foi escolhido em uma enquete nas redes sociais e faz referência a um jogo tradicional praticado em Venda Nova, transmitido pelos descendentes de italianos. Após a produção, as cervejarias idealizadoras compartilharam a receita com outros cervejeiros da cidade, que a ofereceram durante a Festa da Polenta, em outubro daquele ano.

Empregos

As micro e pequenas empresas (MPEs) desempenham um papel fundamental no desenvolvimento econômico e social, gerando empregos e impulsionando a renda da comunidade. No Espírito Santo, entre abril de 2022 e abril de 2023, um total de 47.527 mil empregos foram criados, com as MPEs sendo responsáveis por 71,5% dessas oportunidades, o equivalente a 34 mil empregos.

Os dados foram revelados em um levantamento realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base nas informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Os números destacam a importância desses pequenos negócios na geração de empregos e no fortalecimento da economia local.

O Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares) não soube informar a quantidade de postos de trabalho oferecida pelas cervejarias no eixo da BR-262 entre as regiões do Caparaó e Viana, já na Grande Vitória. No entanto, um levantamento junto a 30 cervejarias em atividade ao longo da rodovia dá conta de 90 empregos diretos e 450 indiretos.

Proprietário da Tarvos, Ricardo Feitosa destaca que o turismo na região representa boa parte da renda das famílias e gera empregos.

“A partir do momento que o dinheiro circula, as cervejas artesanais vieram fortalecer ainda mais a região com hotéis, restaurantes, propriedades de agroturismo e rotas com bom atendimento. Somos parte disso. Além de toda a oferta, hoje o turista pode experimentar um universo de vários gostos, estilos e acaba tendo uma experiência diferente”.

Fábio Schneider (Bello Monti) disse acreditar que a paixão leva os cervejeiros a oferecerem o melhor para os clientes. (*Foto: Leandro Fidelis)

Paixão

A paixão dos cervejeiros pelo que fazem é uma das forças motrizes por trás dessas colaborações especiais. Ao trabalharem juntos, eles conseguem criar algo único e especial que vai além do simples lucro financeiro, mas também se conecta com a cultura e o estilo de vida da região.

Segundo Carlos Eduardo (Panzert), numa produção colaborativa, quando a cerveja está pronta, as cervejarias podem trabalhar juntas para promovê-la e distribuí-la. Isso pode envolver o uso de rótulos especiais e embalagens únicas para destacar a colaboração e a exclusividade da cerveja, e a organização de eventos especiais para apresentar a cerveja ao público.

Para ele, outro aspecto importante é o papel que as cervejarias artesanais podem desempenhar na construção de comunidades locais fortes. “Elas podem servir como locais de encontro para os moradores, eventos, festivais e atividades sociais. Isso pode ajudar a criar uma sensação de comunidade e pertencimento, e promover a cultura local”, afirma.

Fábio Schneider (Bello Monti) disse acreditar que a paixão leva os cervejeiros a oferecerem o melhor para os clientes. Esse combo inclui: produtos de qualidade, atendimento humanizado e encantador e oferecer não apenas uma cerveja e, sim, uma história, um sentimento e uma experiência. “Nada disso acontece sem paixão. Produtos colaborativos, via de regra, são o ápice do saber e do sentimento de duas mentes apaixonadas por cerveja. Quando a intensão é oferecer ao cliente algo único, o sucesso é garantido”.

O cervejeiro afirma ser o público de cerveja artesanal no Brasil em torno de 5% de todo o mercado, mas o setor ganharia se as cervejarias locais focassem em qualidade e fidelizassem cada vez mais consumidores. Além disso, ele julga ser necessário maior aproximação entre os cervejeiros, principalmente para fomentar o desenvolvimento seja com cursos, simpósios e outras ações para ganho coletivo, não só financeiro, como também técnico.

A colaboração é fundamental no cenário cervejeiro atual. Na década de 1970, na Inglaterra, quando surgiu o movimento em busca da ‘cerveja de verdade’ como alternativa à massificação da indústria cervejeira dominada pelas lagers, os cervejeiros já queriam ressuscitar as Ales. Naquela época, os cervejeiros costumavam visitar uns aos outros para produzir cervejas juntos. A questão das colaborações vai além do aspecto financeiro; é uma oportunidade de aprender em conjunto, compartilhando esse momento de aprendizado. Neste segundo semestre, faremos colaborações com cervejarias nacionais, processo que começou em maio durante o Festival ISO, em Belo Horizonte”. (Tedesko Almeida, Piwo Cervejaria Rural). (*Foto: Leandro Fidelis/Arquivo)

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos