Agricultura familiar

Capixaba vence concurso nacional de inventos com descascador de café portátil

Equipamento criado por cafeicultor de Afonso Cláudio dispensa uso de água, melhora a qualidade do grão e pode transformar a realidade de pequenos produtores

*Fotos: Divulgação

A inovação que nasceu da necessidade no interior do Espírito Santo ganhou destaque nacional. Com um descascador de café portátil, o produtor Marcos Antônio Delpupo, o “Marquim Torneiro”, de Vila Pontões, distrito de Afonso Cláudio, conquistou o primeiro lugar no 1º Concurso Nacional de Inventos de Máquinas, Equipamentos e Implementos Adaptados à Agricultura Familiar e aos Povos e Comunidades Tradicionais, promovido pela Embrapa. A premiação ocorreu durante a Feira Nacional de Máquinas para a Agricultura Familiar, de 16 a 18 deste mês, em Campinas (SP), e rendeu ao capixaba R$ 10 mil.

A participação no concurso, segundo ele, surgiu quase por acaso. “O concurso foi um amigo que falou e me incentivou a participar”, conta. Inicialmente sem grandes expectativas, Marquimo acabou se surpreendendo com o resultado. “Um rapaz falou que eu era um dos candidatos mais fortes, mas eu nem… Daí a pouco chegou o resultado e fiquei entre os mais votados”, relembra. A inscrição foi feita com o apoio da mulher, Lanusa, mostrando como o incentivo familiar também foi fundamental nessa trajetória.

A ideia da máquina nasceu de uma necessidade concreta no dia a dia da propriedade. “Nós sempre mexíamos com café e não tínhamos lugar de colocar o grão no despolpador”, explica. A dificuldade estava principalmente na estrutura exigida pelos equipamentos tradicionais, que utilizam água e demandam espaço adequado para descarte de resíduos. “A propriedade é perto da vila e de um córrego. Eu não ia conseguir liberação e também não tinha onde descartar os resíduos”, acrescenta.

Foi então que sua experiência como torneiro mecânico fez a diferença. “Eu sou torneiro mecânico, trabalho com oficina. Meu pai sempre foi cafeicultor e eu também participo da atividade já tem uns cinco, seis anos”, disse Delpupo. A união entre conhecimento técnico e vivência no campo permitiu que ele desenvolvesse uma solução própria. “Foi a necessidade. Comecei a pesquisar como funcionavam as máquinas, olhei um ‘trem’, outro, e consegui montar esse sistema aí”, conta. O protótipo, inicialmente criado para uso próprio, acabou superando expectativas.

O momento do primeiro teste foi marcante. “A hora que testei, foi uma emoção danada tanto para mim quanto meus amigos. Funcionou ‘filé’!”. A repercussão veio rapidamente. Os colegas começaram a divulgar o equipamento, outras pessoas foram até a propriedade conhecer a invenção, e “o ‘trem’ destacou, explodiu”, como Delpupo mesmo define. O que era uma solução caseira passou a chamar atenção de produtores de diferentes regiões.

Durante a Feira Nacional, Marquim teve contato com diversas inovações e reforçou ainda mais a motivação. Ele segue aprimorando o equipamento. “Estou investindo no maquinário, tenho ideias para acrescentar suporte, rosca, melhorar ainda mais”. O desempenho da máquina já impressiona. “Hoje (quarta-feira passada) fiz um café aqui que me surpreendeu. Levou praticamente um minuto por saco”, afirma o cafeicultor, destacando a eficiência.

Um dos grandes diferenciais da invenção é o funcionamento sem uso de água, o que pode transformar a realidade de muitos pequenos produtores. “A questão de ser zero água vai trazer um benefício muito grande, principalmente para quem não tem espaço para montar estrutura”. Além disso, o equipamento preserva a qualidade do grão. “O café verde não quebra, só abre a bandinha, então melhora a qualidade também”.

Pensando no futuro, Marquim Torneiro já projeta novos modelos. “Estou produzindo um descascador de médio porte, que deve chegar a 70 sacos por hora, e quero fazer um de grande porte, atingindo cem sacos por hora, também sem água”, revela. Outro ponto importante é a versatilidade do descascador de café portátil. O equipamento já demonstrou bons resultados tanto com café arábica quanto com o conilon. “Ele se adequou bem ao conilon também, teve uma produção muito boa”.

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos