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Um dos primeiros povos a imigrar para o Espírito Santo, os pomeranos fugiram aos milhares da miséria instalada na Europa para refazer a vida em regiões isoladas por florestas nas montanhas capixabas no final do século 19. Devido a sua estreita ligação da terra e com o seu cultivo, esses imigrantes, oriundos de uma região que não existe mais no mapa e foi dividida entre Alemanha e Polônia após a 2ª Guerra Mundial, fizeram do café sua principal fonte de renda. O jeito de ser, a língua própria, as tradições e a cultura agrícola atravessaram gerações, mas, apesar do pioneirismo nas lavouras, a história dos pomeranos com os cafés especiais é bem recente.
Nos municípios de Itarana, no noroeste, e Santa Maria de Jetibá e Afonso Cláudio, na região serrana do Estado, nos últimos anos, cafeicultores pomeranos passaram a investir no mercado de cafés de bebida fina e vêm se destacando em concursos até de nível nacional. A produção de especiais, calcada em princípios cooperativistas, se apresenta como um caminho promissor no campo, pois promove a permanência dos pomeranos no meio rural com qualidade de vida e sinaliza para um fator de extrema importância no contexto rural: a sucessão familiar nos negócios. E ao integrarem esse setor super valorizado mundialmente, esses cafeicultores já não estão tão isolados como os seus antepassados.
Na zona rural de Itarana, a maioria dos produtores está há menos de dez anos na atividade. Após amargarem preços inferiores produzindo café boia durante décadas, os pomeranos adotaram como rotina a foco na colheita seletiva, a despolpa e a secagem dos grãos em estufas. A Cooperativa Agropecuária Centro-Serrana (Coopeavi) presta assistência técnica, garante preço mais em conta na venda de insumos e equipamentos agrícolas e ainda assume a parte comercial dos cafés especiais por meio do seu braço ligado à cafeicultura, a Cooperativa dos Cafeicultores das Montanhas do Espírito Santo (Pronova), com sede em Venda Nova e incorporada à primeira em 2015.
O cafeicultor Hilário Boldt, de 35 anos, da localidade de Alto Limoeiro de Jatibocas (Itarana) define o comportamento dos pomeranos que, segundo ele, atrasou a entrada desses produtores no ramo dos cafés especiais. “O pomerano é assim, quando é amigo é até debaixo d’água. Infelizmente, antigamente, o banco dos nossos pais eram os principais compradores de café da região. Era uma troca de favores. As famílias tinham o hábito de sempre vender café para a mesma pessoa, e isso passava de pai para filho, uma corrente difícil de ser quebrada. Aí entram algumas cooperativas, os pomeranos sempre desconfiados em passar dados do terreno… Era aquela preocupação: se a cooperativa quebrar, as terras vão ter que cobrir as dívidas ”, avalia Boldt.
Hilário e o irmão Ailton (33) vivem um típico caso de “êxodo rural invertido ”. Quando toda a família se mudou para a cidade, a 21 km da propriedade, em pouco tempo eles decidiram voltar e fazer algo diferente. E a cafeicultura de qualidade foi o caminho escolhido. Há três anos, a dupla começou a despolpar café na busca por bebidas finas na propriedade de 25 hectares que herdaram do pai, já falecido. O sítio dedica 3 ha para a produção de arábica, o que corresponde a uma média de 250 sacas por safra, sendo 70% desse total de grãos despolpados. “Quando comecei, dei um chute pro gol sem saber o que iria dar. Foi uma surpresa grande o resultado ”, destaca Hilário.
Devido ao clima misto no sítio, a 700 m de altitude, os grãos amadurecem gradativamente e alcançam bebida de paladar superior. De olho nisso, a Coopeavi propôs um experimento para secar uma saca em estufa separada e o café atingiu excelente nota na análise sensorial. “Nós conseguimos agregar valor ao produto com a cooperativa nos passando muitas dicas preciosas ”, finaliza Ailton.
Empreendedorismo
Em Alto Jatibocas e em todo o vale do entorno, também na zona rural de Itarana, Braulino Hertzorg (47) se tornou referência pelo pioneirismo e empreendedorismo aplicado à produção de especiais. Junto com o irmão Arlindo (49), ele atua nesse setor há 14 anos e seu sucesso nos negócios estimulou outros produtores da região.
Segundo o descendente de pomeranos, a história da produção de café bebida fina na família remonta de mais e quatro décadas com o pai, Floriano Hertzorg (87), quando aindanão havia mercado para o produto. “Era uma época de muita propaganda, mas não se agregava valor diferenciado ao café especial ”, lembra.
Braulino está sempre inovando e perde a conta de quantos equipamentos já montou por iniciativa própria para despolpar café. Hoje, além de prestar esse serviço a terceiros, monta maquinários para os vizinhos despolparem por conta própria. “Eu me inspirei em um despolpador antigo que, embora não renda muito, limpa os grãos bem mais que os mais modernos ”, gaba-se Hertzorg. O resultado é a produção média de 120 sacas de cafés gourmet das 150 colhidas no sítio.
Para Hertzorg, a demora no ingresso dos pomeranos no mercado de qualidade foi motivada pelo descrédito no cooperativismo no passado. “Nosso povo ficou desacreditado nas cooperativas. Muitos investiram, e as cooperativas quebravam e deixavam os agricultores com o nome sujo na praça. Era tanta cobrança indevida que os pomeranos passaram a ficar com o pé atrás. Com a chegada da Coopeavi, a confiança do pessoal está sendo reconquistada ”, diz o cafeicultor.
O engenheiro agrônomo especialista no mercado de cafés especiais João Elvídio Galimberti (Coopeavi) destaca a importância do programa de sustentabilidade dos cafés das montanhas do Espírito Santo, iniciado em 1998 pelo Governo do Estado, e a parceria dos institutos estaduais com as cooperativas no fortalecimento da produção de qualidade entre as comunidades pomeranas. “Ali se desenvolveu todo o trabalho que vemos hoje. Na época, a Coopeavi buscou profissionais no mercado, investiu na área e procurou mostrar aos cafeicultores ser possível agregar valor ao café na via úmida e no pós-colheita. O povo pomerano é bem caprichoso no que faz e passou a ver o cooperativismo de outra forma ”, avalia Galimberti.
Referência na vizinhança
No município mais pomerano do Espírito Santo, Fátima Beize de Oliveira (33) se destaca pela produção de alta qualidade. Pelos resultados dos últimos dois anos nesse ramo, a cafeicultora acabou influenciando a vizinhança em São Luiz, a 7 km do centro de Santa Maria de Jetibá, nas montanhas capixabas.
Fátima conta que o pai sempre produziu café, mas não de qualidade. Com a morte do único irmão, há sete anos, ela não viu outra saída para a continuidade da atividade na família. Influenciada pelo marido Elivelton de Oliveira (40), degustador e classificador de café, resolveu produzir cafés finos a partir de 4 ha de terra.
A fonte de valiosos grãos são plantas com seis anos de idade cultivadas aos pés de um paredão rochoso na parte central da propriedade. Colhendo só grãos maduros em três “panhas ”, entre junho a agosto, a plantação rendeu sacas que atingiram bebidas de nota 88. Da safra geral, quase 60% é de cafés de qualidade.
“O segredo é trazer o café no mesmo dia da colheita para despolpar até de noite. E o manejo no terreiro coberto deve acontecer de hora em hora para não fermentar. Sempre pensei em fazer qualidade, mas não tinha estrutura ”, diz Fátima, mãe do Evandro (15), Camila, de oito, e Letícia, de três anos.
Além disso, a cafeicultora adotou medidas sustentáveis, a exemplo do reaproveitamento da água da despolpa e utilização da casca do café como adubo, essa última uma excelente forma de manter a umidade do terreno e garantir nutrientes para a planta.
Medalha de ouro em qualidade
Entrar no Sítio Irmãos Kutz, em Alto Barra Encoberta, a 33 km de Itarana e a mesma distância de Santa Maria, é conhecer a história de um campeão em qualidade de café. Sivanius Kutz (36) está somente há dois nos nesse ramo, mas já acumula duas vitórias em concursos regionais promovidos pela Coopeavi.
No primeiro ano despolpando café, Kutz foi campeão do concurso da Pronova em 2015. No ano passado, ele cravou mais um primeiríssimo lugar na disputa entre cafeicultores realizada durante a Semana Tecnológica do Agronegócio (Coopeavi),em Santa Teresa. Ele compara essa última vitória à conquista de uma medalha olímpica. “Como era ano de Olimpíadas, a sensação foi a mesma de um atleta ao ganhar medalha de ouro ”, diverte-se.
Para Sivanius, a receita da boa qualidade está em secar bem os grãos, espalhando-os em camadas bem fininhas na estufa. Esse capricho resultou no ano passado em 32 sacas de cafés despolpados com bebida fina atestada em todos. A atividade conta com o apoio imprescindível da mulher, Laudivânia Lutki (33) e da filha, Angélica (14).
O cafeicultor não esconde a alegria de fazer parte desse mercado. Para Kutz, faltou oportunidade para começar há mais tempo a produção de especiais. “A Coopeavi incentivou a produção de cafés finos e nos proporcionou melhores condições, porque antes ficávamos na mão de atravessadores. Perdi muito tempo produzindo bebida inferior. Só colhia e vendia. Hoje, recebo bem mais por uma saca de café e posso investir na propriedade. ”
Ano de premiações
Outro conterrâneo que não fica atrás quando o assunto é qualidade é Sidney Grü,newaldt (33). O significado do seu sobrenome tem tudo a ver com o local onde vive. Segundo o cafeicultor, em pomerano Grü,newald quer dizer “mata verde ”, uma característica marcante na propriedade de 3 ha da família localizada em Barra Encoberta, a 27 km da sede de Itarana.
Após anos dedicado a prestar serviços com retroescavadeira, Sidney acabou ingressando na cafeicultura de qualidade por força do destino. O pai dele, Laudelino Grü,newald (58) morreu em fevereiro de 2015, deixando as duas propriedades rurais para os dois filhos administrarem. “Isso mudou radicalmente minha vida. A gente sempre cultivou verdura e frutas, e como era pouco café, meu pai sempre ficou responsável por essa cultura ”, conta Sidney, o primogênito, casado com a professora Alessandra Sassemburg (32) e pai do Luiz Otávio, de quatro anos.
Para o cafeicultor, por causa da altitude elevada, o café tem um aspecto diferenciado, com grãos graúdos. A colheita começa em meados de junho, e a cata ocorre duas vezes durante o ano, priorizando grãos maduros que alcançam altíssima qualidade.
De acordo com Grü,newald, o sabor superior da bebida é decorrente dos grãos despolpados e secos no mesmo dia em terreiro coberto. O reconhecimento veio na forma de dois prêmios: a 2ª colocação no concurso municipal, a 3ª na edição do concurso da Coopeavi e como um dos 13 finalistas do Prêmio Pio Corteletti Arábica, ambos em 2016.
Floresta de cedro no cafezal
A possibilidade de alcançar melhores preços foi um chamariz para o cafeicultor Valdir Manske (43) ingressar na produção de especiais em 2010. Hoje, os cafés do Sítio Alto Santa Joana, na localidade de mesmo nome, quase na divisa de Afonso Cláudio com Santa Maria de Jetibá, conquistaram o mercado pela sua altíssima qualidade.
O primeiro investimento foi a aquisição de um despolpador pequeno. Segundo Manske, logo no primeiro ano do uso do equipamento vieram os resultados: cada saca de café valorizou R$ 100,00. Para alcançar notas que chegam a 87 pontos, o cafeicultor de origem pomerana revela que o segredo está na colheita focada em grãos maduros e em mexer constantemente os grãos enquanto secam no terreiro coberto para não deixá-los fermentar.
Outro detalhe que faz toda diferença na propriedade, a 1.000 m de altitude e com clima típico de montanha, é o sombreamento garantido pelos cedros plantados há oito anos no terreno. “Os pés de café aparentam mais saúde, porque as árvores garantem umidade e não deixam as folhas queimarem tanto como os que estão expostos diretamente ao sol ”, avalia Valdir Manske.
A colheita do café começa em junho e vai até agosto. A safra de 2016 passou de 400 sacas piladas, sendo mais de 250 de grãos despolpados. “Produzir cafés finos é um trabalho compensador. E a cooperativa ajuda muito com apoio técnico e disponibiliza todos os produtos que preciso ”, diz o cafeicultor.
Três colheitas até o natal
O cafeicultor Geraldo Grinewaldt (59) vive uma realidade adversa a de muitos produtores do seu município, Itarana, no noroeste capixaba. A 35 km da cidade, esse descendente de pomeranos, que pouco fala português, colhe três vezes ao ano em safras anuais que se estendem até perto do natal.
Segundo filho mais novo de nove irmãos, Grinewaldt é casado com Gerta Sering (56), com quem tem quatro filhos. Ele herdou 40 hectares de terras na localidade de Alto Santa Rosa e, anos mais tarde, adquiriu outros dois alqueires para seguir a tradição do pai, Augusto Germano, na cafeicultura.
Só há dez anos, o cafeicultor passou a produzir cafés finos. Em 2016, a colheita rendeu 300 sacas, sendo 200 de cafés despolpados. O clima misto facilita ter café no pé na maior parte do ano.
O pomerano revela alguns dos segredos que já ajudaram a vender uma saca por mais de R$ 700,00. “Não deixo ninguém pisar de sapato no café espalhado no terreiro e não crio animais domésticos no mesmo quintal. Isso faz a diferença ”, revela Geraldo Grinewaldt.
*Colaboraram nessa reportagem: Geraldine Csajkovics e Rômolo Demuner.





