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O recente episódio em que uma gigante estatal chinesa autorizou a busca por terras agrícolas no Brasil para iniciar o plantio de grãos como soja, milho e algodão acendeu um alerta que ultrapassa a mera discussão econômica: trata-se de uma questão de soberania nacional, segurança alimentar e proteção do agricultor brasileiro.
A estatal chinesa Hulunbuir State Farm Group formalizou essa intenção em 2025 após reunião com a Sociedade Nacional de Agricultura. Em um contexto de crescente dependência da China pelos grãos brasileiros, o Brasil exportou para o país asiático cerca de US$ 49,7 bilhões em produtos agropecuários em 2024, mais de 30% do total da pauta agro do Brasil.
A proposta chinesa tem, em tese, pontos atraentes: tecnologia agrícola avançada, irrigação moderna e manejo que, supostamente, aumentariam a produtividade. No entanto, os riscos são profundos e multifacetados. Permitir que uma potência externa conquiste parcelas significativas de terras brasileiras, mesmo em áreas degradadas, pode minar o protagonismo do agricultor nacional, que construiu sua posição no mercado com trabalho, capital e riscos inerentes ao setor.
A entrada de uma gigante estatal com forte respaldo econômico pode inevitavelmente deslocar produtores familiares e médios, reforçando a concentração fundiária e a financeirização da agricultura. Esse fenômeno já vem sendo estudado e mostra que o avanço de capital internacional sobre áreas estratégicas pode intensificar a concentração de terras no Brasil, prejudicando os pequenos produtores e alterando estruturas locais de produção.
Outro ponto crítico refere-se à soberania. Terras agrícolas não são meros ativos; são recursos estratégicos que garantem segurança alimentar e autonomia produtiva. Ao permitir que atores externos dominem grandes extensões de solo, abre-se espaço para que decisões sobre o que, como e em que quantidade produzir sejam influenciadas por interesses estrangeiros, e não pelo equilíbrio das necessidades internas brasileiras. Imagine se, em um momento de crise global, esses agentes priorizarem a exportação de sua produção para outras regiões, o Brasil poderia enfrentar escassez interna justamente de itens que sempre produziu com excelência.
A legislação brasileira já impõe restrições à compra de terras por estrangeiros, justamente para evitar tais riscos, mas há sempre o perigo de que estruturas societárias complexas barram esse controle legal e permitem a aquisição indireta por meio de empresas interpostas. Essa manobra jurídica fragiliza ainda mais o controle das riquezas territoriais do país.
Além disso, a entrada massiva de capital externo pode cronificar dependências econômicas. Já hoje o agronegócio brasileiro exporta milhões de toneladas de soja para a China, e essa forte dependência comercial expõe o país a choques externos e à vulnerabilidade frente às decisões do parceiro comercial. Inserir um agente estrangeiro diretamente no processo produtivo pode aprofundar esse desequilíbrio, tornando o Brasil ainda mais dependente de quem já é seu maior comprador.
É preciso, portanto, uma discussão transparente, ampla e voltada ao longo prazo: qual o papel do agricultor brasileiro no futuro do país? Como proteger a soberania sobre nossas terras? Investimentos e tecnologia são bem-vindos, desde que apoiem e fortaleçam o produtor nacional, e não o suplantem.
Permitir que uma potência estrangeira se estabeleça como produtora de grãos em solo brasileiro sem garantias claras de reciprocidade, proteção legal e respeito ao setor interno é um risco que o Brasil não pode correr. O desenvolvimento deve estar atrelado à autonomia, à justiça econômica e à preservação da identidade produtiva que nos tornou um dos maiores líderes do agronegócio mundial.





