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*Matéria publicada originalmente em 03/01/2022*
O ano de 2021 ficará marcado na história do agro capixaba como o ano em que o Estado registrou a primeira colheita de trigo da sua história. Plantado em uma área de 50 hectares na fazenda Joaquim Ferreira Sanders, a 22 km do centro de Pinheiros, no Norte, o trigo chegou para completar o ciclo com a terceira safra de grãos da propriedade, intercalando com milho e feijão.
Uma novidade que só foi possível graças ao olhar visionário e destemido dos irmãos Arthur (37) e Lucas Orletti Sanders (35). Há um ano, Arthur viu num grupo de Whatsapp uma conversa sobre o sucesso da produção de trigo no Rio Grande do Norte. Ele lembra que o que mais chamou sua atenção foi o tempo entre plantio e colheita, e a partir daí desencadeou o processo, culminando na primeira produção do grão em terras capixabas.
“Os relatos do tempo entre plantio e colheita, de apenas setenta e quatro dias, me encheram os olhos. Vi que se encaixaria perfeitamente no nosso ciclo e assim começamos”, destaca o produtor.
A variedade plantada foi a TbioAton, desenvolvida pelo Bio Trigo Genética para clima típico do Cerrado brasileiro. O investimento foi de R$ 60 mil e rendeu aos produtores uma safra de 140 toneladas. Toda safra foi comercializada em um moinho do Espírito Santo.

Sustentabilidade na veia
Os irmãos comandam as propriedades da família desde a morte do pai, há sete anos, e tentam manter os ensinamentos deixados por ele, especialmente no que diz respeito às inovações e sustentabilidade. Há 22 anos, quando pouco se falava em sustentabilidade e consciência ecológica, o patriarca já plantava feijão nas entrelinhas do café para aproveitar a água da irrigação e economizar energia.
“Meu pai era um cara muito intuitivo. Ele pensava da seguinte forma: se estou irrigando o café posso aproveitar a água. Molho o café e o feijão ao mesmo tempo, economizo e tenho uma renda extra”, conta Lucas.
E com a produção de trigo acontece o mesmo. Segundo Arthur Sanders, a cultura do trigo, além da boa produtividade e lucratividade, também deixa uma grande quantidade de restos culturais, que melhoram a matéria orgânica do solo e ajudam na fertilidade das próximas lavouras.
O engenheiro agrônomo mestre em Fertilidade de Solos, Rogerio Oliveira Castro, pontua que “o trigo é uma opção sustentável. É um cereal que ao longo do cultivo deixa uma matéria orgânica muito boa, com fibra, de difícil decomposição. O sistema radicular dele é bastante agressivo, tornando o solo mais poroso e deixando penetrar mais água no terreno. Além disso, ele suprime vários fungos prejudiciais aqui na nossa região”.
Outra iniciativa para melhorar o solo é a compostagem feita com 100% da palha de café gerada na propriedade. Na compostagem são usados, além da palha, esterco de frango (produto rico em nitrogênio) e uma bactéria para acelerar a ação. Ao final do processo é feita uma análise em laboratório para saber exatamente quanto de adubo convencional o solo ainda vai precisar após receber a compostagem.
“Aplicamos a compostagem em qualquer cultura, mas o foco é aproveitá-la no café. Além de sustentável, ela ajuda nos custos, uma vez que o adubo está muito caro e nela tem praticamente três por cento de potássio, um dos nutrientes mais necessários e de maior custo na agricultura”, ressalta Arthur.
Para evitar o uso exclusivo de defensivos químicos no solo, há um ano e meio os irmãos implementaram o processo de multiplicação de produtos biológicos. No controle de pragas de solo usam 100% de defensivos biológicos. Já em pragas como lagartas e ácaros fazem de maneira alternada, com uma aplicação de defensivos químico e uma de biológico.
Para Arthur, que no começo não acreditou muito na eficiência dos produtos, o defensivo biológico é o presente. Mesmo com pouco tempo de uso, o produtor diz já ser possível perceber os resultados. “A gente estava perdendo rendimento e não sabia o que era, e era a fusarium voltando. E com o biológico, as áreas que caíram voltaram a crescer”, conta.
A metodologia de multiplicação dos defensivos ocorre em tanques apropriados, onde são colocados os micro-organismos vivos, juntamente com água. Após horas dessa mistura e um processo de giro da água misturada aos micro-organismos, eles se multiplicam. Depois de pronto é aplicado no solo nas lavouras de todas as culturas.
Uns dos investimentos mais recentes (cerca de R$ 150 mil), ainda em fase de implantação, é o sistema de energia solar para atender a sede da fazenda. Serão atendidos as bombas d’água subterrâneas, as casas dos funcionários, o secador e a oficina de máquinas da fazenda.
Para o agrônomo extensionista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) de Montanha, Fábio Morandi, o manejo sustentável na agricultura deve ser prioridade. “A adoção do manejo sustentável do solo, da água e da biodiversidade deve ser prioridade na nossa agricultura. É necessária uma mudança do sistema de produção de alimentos para um que conduza a regeneração de agroecossistemas”, destaca Morandi.

Na palma da mão
Na palma da mão de Lucas e Arthur, por meio de um aplicativo instalado no celular, estão todas as informações necessárias para irrigar as plantações de maneira que não falte água e nem ocorra desperdício. Há cerca de seis meses entrou em funcionamento a gestão de irrigação baseada nas informações obtidas por meio de uma estação meteorológica instalada na sede da fazenda. Além de ajudar na preservação da água, o sistema também melhora a produtividade das culturas irrigadas.
“Não estamos todo dia na fazenda e quanto mais informação na mão melhor. É um sistema que se comunica com a estação meteorológica e mostra a quantidade necessária para irrigar hoje e nos dias subsequentes. Com a água distribuída de acordo com a necessidade real das plantas, elas se mantêm com a produtividade no máximo”, destaca Lucas.
A estação captura itens como: o índice de raio UV, quantidade de chuva, evaporação e umidade.
Autossuficientes em água
Atentos, os irmãos Orletti tem como premissa que, antes de tudo, é preciso planejamento. Com a propriedade em uma região com escassez de água, investiram na construção de barragens para garantir autossuficiência do recurso. “O produtor rural só não prospera se não conseguir trabalhar, e o fator água é primordial. É um recurso que não pode faltar, nossa região tem essa escassez, por isso planejamos a construção da barragem que nos deu segurança hídrica, afirma Arthur.
Com água garantida e sem espaço para alocar mais um pivô central, Lucas e Arthur fizeram um trabalho de otimização e aumentaram a área produtiva em 10% apenas com serviços topográficos e mudança do pivô de lugar. “Quando aproveitamos ao máximo a área da propriedade crescemos de maneira sustentável e constante. Às vezes, um cano a mais que você coloca já reaproveita a mesma energia, a mesma adutora. E como nossa propriedade não tem mais espaço para irrigação do tipo pivô central, otimizar o que temos foi a maneira que encontramos para crescer sem ter que comprar mais terra”, finaliza Arthur.





