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O conflito no Oriente Médio já ultrapassa a esfera geopolítica e avança, com velocidade, sobre o coração das cadeias globais de alimentos. Quando uma guerra ameaça o Estreito de Ormuz, um dos corredores logísticos mais sensíveis do planeta, o choque não se limita ao petróleo. Ele se espalha pelo gás, pelos fertilizantes, pelos fretes, pelas embalagens, pelos custos industriais e, por fim, pelo preço e pela disponibilidade de comida. No agronegócio, onde energia, insumos e transporte se combinam de forma inseparável, o efeito é menos um desdobramento colateral do que uma reação em cadeia.
É esse o diagnóstico central do relatório Conflict in the Middle East: Impact on global food and agribusiness, divulgado pela RaboResearch em 12 de março de 2026. Segundo o estudo, a atual escalada na região e a interrupção parcial do tráfego no Estreito de Ormuz estão produzindo ondas de choque de curto prazo, mas também podem deixar marcas estruturais sobre custos, margens e fluxos comerciais do sistema global de alimentos e agronegócio. O documento destaca que a região é ao mesmo tempo eixo de energia, hub de fertilizantes, polo petroquímico, rota logística e mercado importador de alimentos, o que amplia a profundidade do impacto.
O primeiro e mais severo abalo está na energia. O relatório lembra que o Estreito de Ormuz segue como o mais crítico gargalo energético do mundo, e qualquer interrupção ali repercute rapidamente nos mercados de petróleo e gás. O encarecimento do barril se transmite aos combustíveis refinados, como diesel e gasolina, e depois se infiltra nos custos de produção, de transporte e de processamento. Economias asiáticas aparecem entre as mais expostas, dada a forte dependência do petróleo do Oriente Médio: a região responde por 95% das importações de petróleo do Japão, cerca de 55% das de China e Índia, 70% das da Coreia do Sul e 60% das dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). A Europa, por sua vez, surge como especialmente vulnerável pela dependência do gás natural liquefeito da região.
No agronegócio, a alta do diesel pesa em toda a cadeia. Afeta a margem do produtor rural, encarece a logística e pressiona setores intensivos em energia, como papel para embalagens, vidro e produção em estufas. A diferença, em relação a outros choques, é que agora o custo maior do combustível chega acompanhado de uma série de outros pontos de tensão concentrados na mesma região. O Oriente Médio não é apenas fonte de energia: ele também é nó logístico e industrial para insumos decisivos ao campo e à indústria de alimentos.
Poucos segmentos sentem isso tão rapidamente quanto o de fertilizantes. O relatório estima que quase um terço das exportações globais de ureia, quase metade das exportações globais de enxofre, 15% dos embarques globais de MAP, DAP e TSP e quase 20% das remessas de amônia costumam atravessar essa rota. Com a queda abrupta do tráfego de navios e a escalada dos riscos, os preços reagiram de imediato: a ureia no Norte da África subiu 20%, enquanto o gás natural na União Europeia avançou cerca de 70% na primeira semana do conflito. Para um setor em que fertilizantes representam de 40% a 50% dos custos variáveis dos grãos, a pressão sobre o orçamento do produtor é instantânea.
A preocupação cresce porque o relatório aponta que a crise já começa a ganhar contornos mais complexos do que os observados durante o confronto de 12 dias entre Israel e Irã em 2025. Com o Catar suspendendo a produção de gás natural liquefeito, a planta de ureia da Qatar Fertiliser Company (QAFCO), com capacidade anual de 5,6 milhões de toneladas, foi paralisada, elevando o risco de novas interrupções na região. Se a instabilidade se prolongar, o prêmio de risco na negociação global de fertilizantes tende a deixar de ser passageiro para se tornar parte do custo estrutural do mercado.
O efeito não se distribui igualmente entre os países. Índia e economias do Sudeste Asiático devem sentir mais volatilidade por sua forte dependência de importações de fertilizantes. A China aparece mais protegida em nitrogênio e fosfato, mas permanece vulnerável no enxofre, insumo essencial para seus produtores de fosfatados e amplamente importado da região do Golfo. Além disso, tanto China quanto Índia, grandes fabricantes de agroquímicos, dependem fortemente de petróleo e gás importados para a produção de químicos básicos usados nos ingredientes ativos dos defensivos. Em cenário de energia cara, o custo sobe na indústria e tende a ser repassado, ao menos em parte, para o campo.
Nos grãos e oleaginosas, o impacto ainda é mais indireto, mas nem por isso pequeno. A principal via de transmissão, segundo o relatório, é o frete. O petróleo mais caro eleva a volatilidade nos mercados futuros e adiciona despesas com transporte e seguro. Exportadores tendem a absorver parte desse aumento por meio da queda da base paga ao produtor, enquanto compradores enfrentam preços mais altos com a incidência de sobretaxas de combustível. Entre as exceções, óleo de soja e óleo de canola ganharam suporte diante da perspectiva de perturbações no mercado de energia, já que ambos são matérias-primas para biodiesel e diesel renovável. No caso brasileiro, o estudo observa que o diesel mais caro pode reforçar a demanda por óleo de soja ao favorecer uma implementação mais rápida ou um aumento da mistura para 16%.
No açúcar, o comportamento inicial foi mais contido. Os preços recuaram alguns pontos percentuais desde o início do conflito, possivelmente porque o aumento do frete já encarece a conta do importador e desestimula compras no curto prazo. Ainda assim, a região do Golfo abriga refinarias importantes nos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Iraque. Num conflito prolongado, a entrada de açúcar bruto pode ficar restrita, mesmo que parte do abastecimento consiga ser mantida por estoques ou rotas terrestres mais caras.
O segmento de proteínas animais também entra na zona de risco. O Oriente Médio é grande importador de carne de frango, carne bovina, ovinos vivos, carne ovina e lácteos. No caso do frango, a região responde por 15% do comércio global e por quase 10% do crescimento mundial da produção, o que ajuda a dimensionar seu peso na demanda internacional. O Brasil, fornecedor relevante de carne de frango e bovina, já enfrenta custos maiores com seguro e frete, além de ajustes especulativos nos mercados futuros. Para a carne bovina brasileira destinada à China, a rerotagem via Cabo da Boa Esperança pode acrescentar cerca de duas semanas ao trânsito e elevar despesas logísticas.
Austrália, China e Tailândia também sentem os reflexos. Cerca de 90% das exportações australianas de ovinos vivos têm o Oriente Médio como destino principal, majoritariamente por Ormuz, justamente em um período sazonalmente sensível para os embarques. Já China e Tailândia, importantes exportadores de carne de frango para a região, tiveram as vendas suspensas temporariamente, o que provoca acúmulo de estoques e pressão baixista nos preços domésticos, comprimindo margens. Nos lácteos, Europa e Nova Zelândia são os principais fornecedores para o Oriente Médio, e compradores da região já antecipam aquisições de leite em pó e outros produtos estáveis, elevando temporariamente o custo do leite para a indústria de alimentos e bebidas.
O impacto alcança até a etapa menos visível, mas mais presente, da cadeia: a embalagem. No papel, o problema recai sobretudo sobre a Europa. O setor europeu de embalagens de papel é estruturalmente autossuficiente e opera com excesso de oferta, mas exporta volumes importantes para o Oriente Médio. Ao mesmo tempo, por ser intensivo em energia, sofre quando gás e eletricidade encarecem por períodos prolongados. O relatório aponta que preços altos de energia comprimem margens, podem acelerar o fechamento de pequenas fábricas e favorecem produtores nórdicos ou integrados, menos expostos do que mercados dependentes de gás natural, como Reino Unido, Itália e Alemanha.
Nas embalagens plásticas, a tensão é ainda mais direta. O Oriente Médio fornece aproximadamente um terço da nafta comercializada globalmente, principal matéria-prima usada por crackers a vapor na Europa e na Ásia para a produção de polímeros. O estreito também escoa cerca de USD 20 bilhões a USD 25 bilhões anuais em produtos petroquímicos e correlatos, o que o transforma em um dos gargalos mais concentrados da cadeia global de plásticos. A Europa depende estruturalmente de importações de poliolefinas, enquanto China, Coreia do Sul e Japão dependem fortemente da disponibilidade de nafta para manter suas plantas. Se o bloqueio persistir, o aperto na oferta de resinas pode se traduzir em alta de preços à vista, margens mais finas para convertedores e nova pressão inflacionária sobre bens embalados.
Os consumidores aparecem como destino inevitável dessa pressão acumulada. A RaboResearch trabalha com um cenário em que, se o trânsito marítimo por Ormuz ficar comprometido por um período prolongado, o Brent poderia se aproximar de USD 110 por barril e o gás europeu, medido pelo TTF, de EUR 100 por MWh. Nessa hipótese, a inflação na zona do euro ultrapassaria 3% em 2026, com crescimento econômico cerca de 0,3 ponto percentual abaixo das projeções anteriores. Nos Estados Unidos, a inflação também superaria 3%, em um contexto já marcado por sensibilidade do consumidor e dificuldade da indústria para repassar custos. Na prática, isso significa troca por marcas mais baratas, avanço de marcas próprias no varejo, menor consumo fora de casa e pressão adicional sobre processadores de alimentos.
Na Ásia, a reação esperada varia conforme o mercado. Na China, empresas de alimentos tendem a absorver parte dos aumentos para preservar participação, mesmo à custa de margens mais apertadas. Nos países do Sudeste Asiático, onde o consumidor é mais sensível ao custo de vida, a tendência é de enfraquecimento da demanda caso as empresas consigam repassar os reajustes. O estudo sugere, assim, um cenário em que o conflito no Oriente Médio e agronegócio global passam a se relacionar não apenas pelo lado da oferta, mas também pela erosão gradual do poder de compra e pela mudança no padrão de consumo.
A conclusão do relatório é direta: o conflito e a perturbação no Estreito de Ormuz estão produzindo um choque econômico de várias camadas, com a energia no centro e impactos sucessivos sobre fertilizantes, plásticos, logística e cadeias-chave do sistema alimentar. Ásia, Europa e os próprios países do Golfo surgem entre os mais expostos. Se a crise persistir, o resultado pode ser uma combinação duradoura de custos mais altos, inflação resistente, mercados de commodities mais apertados e margens cada vez mais comprimidas no campo e na indústria. Não se trata apenas de uma guerra regional com efeitos difusos. Trata-se de um teste severo para a resiliência do abastecimento global de alimentos.





