Gargalo na infraestrutura

Brasil tem safra de 356 milhões de toneladas, mas falta espaço para armazenar grãos

Com safra estimada em 356,3 milhões de toneladas, país tem capacidade para armazenar apenas 223 milhões de toneladas e precisa investir cerca de R$ 148 bilhões para reduzir o gargalo

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Foto: Claudio Neves/Portos do Paraná

O Brasil precisa investir cerca de R$ 148 bilhões para zerar o déficit de armazenagem de grãos e adequar sua infraestrutura ao ritmo de crescimento da produção agrícola. A conta expõe um dos principais gargalos do agronegócio nacional: enquanto a safra brasileira de grãos está estimada em 356,3 milhões de toneladas em 2025/26, a capacidade estática de armazenagem gira em torno de 223 milhões de toneladas.

Na prática, faltam espaço e estrutura para aproximadamente 135 milhões de toneladas. Isso significa que parte expressiva da produção precisa ser transportada, comercializada ou mantida em condições menos eficientes logo após a colheita, aumentando a pressão sobre estradas, portos, fretes e custos operacionais.

Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a sétima estimativa para a safra 2025/26 aponta produção de 356,3 milhões de toneladas, volume 1,2% superior ao registrado no ciclo anterior. A área plantada está estimada em 83,3 milhões de hectares, avanço de 2% em relação à safra 2024/25.

O problema é que a infraestrutura de armazenagem não acompanha o mesmo ritmo. Com capacidade para 223 milhões de toneladas, o país consegue guardar apenas cerca de 62% da safra estimada. A diferença entre produção e capacidade instalada cria um déficit direto próximo de 135 milhões de toneladas.

A recomendação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) é que a capacidade de armazenamento de um país seja de pelo menos 1,2 vez a sua produção anual. Considerando a safra brasileira atual, o ideal seria uma estrutura próxima de 428 milhões de toneladas. Por esse critério, a distância entre a realidade brasileira e o nível recomendado seria ainda maior.

O gargalo afeta especialmente regiões de forte produção de grãos, onde o avanço da soja, do milho e do sorgo tem ampliado a necessidade de silos, armazéns e estruturas de secagem. Segundo a Conab, o desempenho positivo da safra 2025/26 é puxado principalmente pela soja, com aumento de 7,7 milhões de toneladas, pelo milho primeira safra, com acréscimo de 3 milhões de toneladas, e pelo sorgo, com incremento de 1,4 milhão de toneladas em relação ao ciclo anterior.

A soja segue como principal cultura do país, com produção estimada em 179,1 milhões de toneladas na safra 2025/26. O milho total aparece em seguida, com 139,6 milhões de toneladas. Juntas, as duas culturas respondem pela maior parte do volume colhido e também pela maior pressão sobre a logística agrícola.

A falta de armazenagem suficiente reduz a margem de decisão do produtor. Sem espaço próprio ou regional para guardar a produção, muitos agricultores acabam dependendo mais intensamente do escoamento imediato no período de colheita, quando há concentração de oferta. Essa situação pode elevar custos, pressionar o frete e limitar estratégias de comercialização em momentos mais favoráveis.

Além do impacto econômico, a insuficiência de armazéns também cria desafios operacionais. A necessidade de movimentar grandes volumes em curto período sobrecarrega rodovias e terminais, amplia filas em pontos de recebimento e pode aumentar riscos de perdas por atraso, exposição inadequada ou deficiência no manejo pós-colheita.

O cenário ganha relevância porque a produção brasileira continua em expansão mesmo com oscilações climáticas e ajustes entre culturas. A Conab aponta que, apesar de quedas em produtos como arroz, trigo, algodão, feijão e milho segunda safra, o resultado geral permanece positivo, sustentado pelo crescimento de culturas de grande escala.

A tabela de produção por Unidade da Federação mostra a concentração do volume nacional no Centro-Oeste, que deve colher 177 milhões de toneladas na safra 2025/26. Mato Grosso, principal produtor do país, aparece com 111,2 milhões de toneladas. Em seguida, destacam-se Paraná, com 46,2 milhões de toneladas, Rio Grande do Sul, com 36,7 milhões, Goiás, com 35,3 milhões, e Mato Grosso do Sul, com 29,6 milhões.

Essa distribuição reforça a necessidade de investimentos em armazenagem próximos às áreas produtoras. Quanto maior a distância entre a lavoura, os armazéns e os corredores de exportação ou consumo interno, maior tende a ser o custo logístico. Para o produtor, a estrutura disponível pode representar a diferença entre vender no pico da colheita ou aguardar melhores condições de mercado.

O investimento estimado de R$ 148 bilhões, portanto, não se limita à construção de silos. Ele envolve uma mudança estrutural na forma como o país organiza o pós-colheita, com ampliação da capacidade estática, modernização de unidades armazenadoras, melhoria de acesso às propriedades, financiamento adequado e integração com a logística de transporte.

Sem esse avanço, o Brasil seguirá produzindo mais do que consegue armazenar. A safra recorde, que confirma a força do agronegócio nacional, também evidencia uma fragilidade antiga: o país aprendeu a ampliar produtividade e área plantada, mas ainda precisa acelerar a infraestrutura que sustenta a produção depois que ela sai do campo.

Sobre o autor Fernanda Zandonadi Desde 2001, Fernanda Zandonadi atua como jornalista, destacando-se pelo alto profissionalismo e pela excelência na escrita de suas reportagens especiais. Tem um conhecimento aprofundado em agronegócio, cooperativismo e economia, com a habilidade de traduzir temas complexos em textos de grande impacto e relevância. Seu rigor e qualidade na apuração e narração de histórias do setor garantiram que seu trabalho fosse constantemente reconhecido pela crítica especializada, o que a levou a conquistar múltiplas distinções e reconhecimentos em premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos