Agricultura familiar

Quem é o embaixador do gengibre

Raiz capixaba atrai olhares de todo o mundo e encanta novos admiradores. O setor conquistou um dia pra chamar de seu!

por Leandro Fidelis

em 18/10/2021 às 7h00

8 min de leitura

Quem é o embaixador do gengibre

*Fotos: Leandro Fidelis

De uma das mais tradicionais famílias de empresários do Espírito Santo, Marcus Buaiz (42) tem orgulho de ser capixaba. Mesmo fora há 21 anos, sempre bate no peito para defender o Estado natal dentro ou fora do Brasil. O empresário, que ocupa uma cadeira no conselho do conglomerado de empresas da família (entre elas o Shopping Vitória) e, mais recentemente, se tornou sócio do Dry Cat Gin, agora levanta a bandeira do agro espírito-santense: foi aclamado “Embaixador do Gengibre Capixaba”.

“Para onde fui, levei o nome do Estado, que acredito ser um dos lugares mais lindos do mundo e com potencial para protagonista da federação brasileira. Só que o capixaba perde muito tempo valorizando mais o que é de fora. Como capixaba tão apaixonado, é um objetivo fazer com que cada vez mais a gente tenha orgulho de vestir a camisa do Espírito Santo e dizer que é daqui. Um lugar incrível para se produzir, empreender e morar”, declarou Buaiz em entrevista exclusiva para a “Conexão Safra”.

No dia 27 de julho, a convite do vereador Jefferson Rodrigues, o “Jeffinho”, de Santa Leopoldina, Buaiz foi conhecer a maior região produtora e exportadora de gengibre do país, a localidade de Caramuru, compreendida entre Santa Leopoldina, Santa Maria de Jetibá e Domingos Martins, de onde sai 80% da produção nacional. A recepção, que contou ainda com a presença do secretário de Estado da Agricultura, Paulo Foletto, oficializou o “Dia Municipal do Gengibre” (15 de maio), em Santa Leopoldina. O projeto de lei é de autoria do Jeffinho e do vereador Nelson Lichtenheld e foi sancionado pelo prefeito, Romero Luiz Endringer.

Marcus Buaiz se disse surpreso ao saber que o Espírito Santo é o maior exportador de gengibre do mundo. A expansão nas vendas é verificada principalmente nos últimos cinco anos. Em 2020, o Estado exportou 18.720 toneladas da raiz, tendo como principal destino os Estados Unidos. Uma parte significativa vai, ainda, para Europa.

Mais recentemente, o gengibre capixaba conquistou os países do Oriente Médio e da África, esses com exigências específicas quanto à qualidade do produto, que culturalmente é mais usado como tempero do que o alho. “Não tem máquina para colher, e o critério de avaliação da qualidade é pelo olho. Você vê que é uma união da capacidade da terra e do talento humano que o capixaba tem”, observou Buaiz, durante as incursões pelas propriedades rurais do roteiro.

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Com base em dados do Ministério da Agricultura (Mapa), o extensionista e coordenador do Centro Regional de Desenvolvimento Rural (CRDR) Central Serrano do Incaper, Galderes Magalhães, informou que a perspectiva é de crescimento entre 15% e 20% no volume de exportação do gengibre capixaba em 2021. No entanto, países concorrentes do Brasil tiveram super safras este ano e atrapalharam inicialmente a comercialização, a exemplo do Peru, principal adversário no continente Sul-Americano.

Só para se ter ideia do potencial da região produtora de Santa Leopoldina, em apenas um dia saíram 17 contêineres de gengibre de uma única propriedade. O clima regional favorece o transporte da raiz para a Europa, por exemplo, cuja viagem dura até 30 dias. “A safra capixaba vai até novembro e, até o momento, estamos com uma diferença de aproximadamente duas mil toneladas do produto exportado. Apesar da diminuição, estamos com o propósito de manter as taxas de crescimento, tendo em mente a grande quantidade de produtos nas áreas de cultivo e a demanda mundial”, analisou Galderes.

Endringer ressalta que, em 2020, o gengibre gerou um fluxo financeiro de R$ 47 milhões, mas só 70% deste valor foi registrado em nota fiscal. Em julho, a caixa de gengibre estava custando R$ 40, caiu para R$ 30 em agosto e voltou a valer R$ 40 em setembro. Mas houve períodos melhores de preço. Segundo o prefeito de Santa Leopoldina, quando a caixa foi comercializada a R$ 150, muitos produtores puderam ampliar a área de cultivo e melhorar a qualidade de vida. “A cadeia da produção é muito forte, basta notarmos o transporte de insumo e de esterco nas nossas estradas. Por isto brigamos para dar condições de tráfego a produtores e exportadores, porque é uma atividade que movimenta muito recurso, o que é bom para o município”.

Conexão

Ao aceitar a missão de embaixador, o empresário Marcus Buaiz aposta na sua capacidade de comunicação para promover o gengibre capixaba. “Meu objetivo não é comercial, é doação do meu tempo. Acredito que tenho capacidade de conexão, de unir esses produtores com esse talento que já demonstram exportando gengibre para os Estados Unidos, Europa e o mundo todo”, afirmou.

Buaiz sugere a criação de uma rota para quem deseja conhecer e experimentar o gengibre e também alternativas para sua reutilização. Em uma das propriedades, comandada por Erineia Plaster Bellard (39), onde as perdas são de 10% a 20%, surgem os questionamentos: “o que fazer com esse gengibre que sobra, mas com possibilidade de consumo? A união pode vir de uma cooperativa para discussão e alinhamento entre os produtores. Sem vaidade ou ego, mas com comunicação, se constrói uma corrente do bem”.

A produtora ficou animada com a possibilidade de o empresário trazer boas ideias para o aproveitamento do refugo. No último 17 de setembro, por exemplo, três caçambas de gengibre considerados sem padrão pelo mercado foram desperdiçadas. Segundo Erineia, o refugo só tem valor quando melhora a cotação do gengibre no comércio. “Quando o gengibre está caro, temos saída para o refugo com uma fábrica de balas de João Monlevade (MG) e uma de pó de gengibre de Linhares. Acho bom ver uma pessoa como Marcus Buaiz preocupada com essa perda. Quem sabe ele nos traz uma solução para gerar renda com essa sobra”, disse.

Para o vereador Jefferson Rodrigues, a oficialização do “Dia Municipal do Gengibre” marca uma nova era para Santa Leopoldina e região. “Agradeço a rapidez dos outros vereadores para aprovarem o projeto de lei na Câmara e também a vinda do Marcus Buaiz, que fortalece a nossa iniciativa. Precisamos criar uma rota de exportação, melhorar a infraestrutura e a logística do gengibre, trabalhar o reaproveitamento das sobras e, quem sabe, até proteger nossa raiz com o selo da Indicação Geográfica, porque nosso produto tem qualidade”.

União familiar- Erineia Plaster Bellard (39) e a filha Miquelaine (20) mostraram liderança na recepção a Buaiz. Enquanto elas, além do gêmeo Miquéias e sua esposa, Thaynara (19), administram a rotina no galpão, o patriarca Joazis Bellard (41) cuida da roça de gengibre. Há dez anos na atividade, a família vende a raiz para uma trade capixaba e, além da produção própria, compra de outros produtores da região. “Acho satisfatório ver mulheres na cadeia do gengibre. Meus filhos gostam de tocar os negócios”, diz Erineia.

Área

A área cultivada com gengibre no Espírito Santo cresce, em média, 20% ao ano. Até 2020, esse total era de aproximadamente 400 hectares, somando, inclusive, localidades não tradicionais no cultivo, como Guriri (São Mateus). No entanto, em 2021 o aumento deverá ser de apenas 10%, devido às dificuldades de comercialização este ano e também à qualificação dos cultivos. “Os agricultores estão mais profissionais, obtendo maiores produtividades”, destacou Galderes Magalhães (Incaper).

Não à toa o Estado apresenta a maior produtividade do mundo, com 52 toneladas da raiz por hectare, mas já houve lavouras produzindo até 167t/ha. “A variedade gigante se adaptou bem na região. O manejo respeitando ao máximo as condições do solo e o aproveitamento do solo fertilizado da última montoa para cultivar cará garante recurso para o produtor investir no ano seguinte na lavoura de gengibre”.

O produtor e comprador de gengibre Erildo Plaster (38) é uma prova disso. “Onde se colhem duas caixas de cará, saem dez caixas de gengibre na terra”, conta. Há 15 anos no mercado juntamente com o pai, Djalma (66) e mais três irmãos, ele afirma estar empolgado com a ponte com Marcus Buaiz. “Quanto mais souberem do nosso gengibre, mais pessoas vão se interessar e consumir o nosso produto. Buaiz é muito influente, basta ver o número de seguidores na rede social. Se ele teve curiosidade de vir conhecer o gengibre capixaba, certamente outros também terão”, disse.

E encantado com tudo o que viu sobre a cadeia produtiva do gengibre do Espírito Santo, Marcus Buaiz afirmou que pretende “devotar” mais tempo para visitar o Estado. Colocou como meta conhecer todos os 78 municípios capixabas nos próximos quatro anos.

Mas, questionado se o gengibre é seu primeiro contato com o agronegócio, o empresário contou que essa ligação não vem de agora. Começou há 14 anos, ao se casar com a cantora Wanessa Camargo. “Sempre fui um cara urbano e o Zezé (di Camargo, o sogro) me apresentou o campo de uma forma mais aberta. A criação dos meus filhos (João Francisco e José Marcus) é uma dádiva pois, através do conhecimento familiar do Seu Francisco e do Zezé, hoje eles têm a honra e a possibilidade de serem criados com um pezinho no agro e outro na cidade”.

 

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