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O que é achachairu?

Saiba como o cultivo da fruta originária da Amazônia boliviana tem se tornado um ícone do agronegócio no município de Itarana (ES) da região centro-serrana capixaba

Abel Basílio e família comandam os negócios na localidade de Matutina, a 8 km da sede. (*Fotos: Leandro Fidelis//Imagens com direito autoral. Proibida reprodução sem autorização)

Itarana já foi destaque no agro com o maior frigorífico do Espírito Santo (o Toniato) e também com o principal fornecedor de peixes de lago em zona rural do Brasil. Mais recentemente, a produção de cafés especiais voltou a projetar o município da região centro-serrana capixaba nesse cenário, mas é uma fruta exótica e doce originária da Amazônia boliviana que está fazendo o maior sucesso atualmente: o achachairu.

Pelo menos três agricultores encontraram na novidade um meio de diversificar a produção e gerar renda. Com teor de polpa e produção elevada, a fruta, que lembra o mangostão e o bacupari brasileiro, chega a custar R$ 30 o quilo. O consumo in natura ainda é o mais difundido, e as propriedades nutricionais são um chamariz. A fruta é rica em potássio, ácido fólico e vitamina C. Além disso, o clima temperado do município é considerado propício para os pomares se desenvolverem.

A ligação de Itarana com a Bolívia é recheada de coincidências. Na família Basílio, a maior produtora do município, há 30 anos um tio-avô de Abel Basílio de Souza Neto (28) trouxe do país vizinho cinco sementes de achachairu para plantar na propriedade. Outro produtor, José Carlos Loriato (56), relata outra história. A prima da sua mulher, Geovana Meneguel (56), é casada com um dentista boliviano que trabalhou em Itarana e trouxe duas sementes para o casal em 1995.

Abel e família comandam os negócios na localidade de Matutina, a 8 km do centro da cidade. Os cultivos comerciais tiveram início há nove anos consorciados com café conilon. Dos 800 pés, 450 estão em produção e outras plantas vão ter a fruta no ponto da colheita dentro de três anos. As plantas levam sete anos até começar a produzir.

A primeira safra na fazenda “Matutina Malavazi ” ocorreu em 2020, quando foram colhidas 3,5 toneladas de achachairu. Segundo Abel, a expectativa para este ano é de uma colheita três vezes maior. A safra deve terminar entre o final de março e início de abril.

 

A produtividade da fruta também chama atenção. Cada pé de achachairu da família Basílio rende três caixas de 20 kg. E o mais interessante. Mesmo colhendo a fruta somente quando está pronta para o consumo, ela fica até quase dois meses no pé sem cair.

Os produtores mantêm parcerias comerciais com supermercados na região serrana do Estado (Domingos Martins, Vargem Alta, Marechal Floriano e Venda Nova do Imigrante), além da Ceasa e São Paulo. As frutas saem embaladas com a marca “Achachairu Matutina ”. “Na cidade boliviana considerada a capital do achachairu, a fruta é vendida em beira de estrada. Porém, aqui ela não é ainda tão popular, quando vai para o comércio tentam lucrar três vezes mais, o que espanta o consumidor ”, avalia Abel.

Produtores apostam no cultivo enxertado

O casal José Carlos Loriato, o “Cacau ”, e a mulher, Geovana Meneguel, vive no Córrego do Bananal, próximo da divisa com Laranja da Terra, logo após a vila de Rizzi, a 9 km da sede de Itarana. Eles começaram os cultivos sem pretensão comercial, há 25 anos, e hoje o filho mais velho, Filipe (29), toma conta dos negócios com o achachairu.

Ao observar o tempo de cinco a seis anos para a planta começar a produzir, Cacau inovou com enxertia. A vantagem é a primeira produção antecipada para o terceiro ano, embora o pé enxertado não cresça proporcionalmente como o de semente. Das 50 plantas do sítio da família, 20 são enxertadas. “Os experimentos foram na base do erro e acerto, uma vez que não existe assistência técnica especializada ”, afirma Cacau. Além do comércio local da fruta, os agricultores produzem mudas em viveiro.

Por ser uma planta rústica, o achachairu dispensa a necessidade de poda e adubação e não tem registro de pragas e doenças, mas gosta “muito de água ”, conta Filipe. As observações dos produtores são referentes aos últimos 16 anos da produção em nível comercial. “Estamos aprendendo com a própria planta. Alguns produtores adquirem as mudas aqui e plantam em regiões mais frias do Espírito Santo. O que pode acontecer é apenas atraso na floração ”.

A média de produtividade é de 150 kg por pé nas plantas de semente. Os pés de enxerto ainda estão na primeira colheita, e a expectativa é alcançar 40 kg/pé. A floração começa em agosto, e as primeiras frutas maduras deverão aparecer no final de dezembro e início de janeiro. O desafio dos produtores é aumentar a divulgação e agregar valor com o processamento. “Busco divulgar o achachairu na internet, onde também faço os contatos ”, diz Filipe.

Cacau comenta a possibilidade de Itarana se tornar a “Capital Capixaba do Achachairu ”. “Outras cidades capixabas ainda não estão com o mesmo potencial nosso. Vamos correr atrás para ser um dos maiores produtores do Estado. Deus colocou pessoas abençoadas para irem à Bolívia e colocarem esta fruta dentro do município. Quem sabe até o brasão da bandeira de Itarana pode mudar? ”.

“Busco divulgar o achachairu na internet, onde também faço os contatos ”, diz Filipe Loriato. (*Foto: Divulgação)

 

 

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos