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Bons negócios com bambu

Mosteiro Zen-Budista de Ibiraçu incentiva cultivo da variedade Guadua como alternativa de diversificação

*Foto: Leandro Fidelis/*Imagem com direito autoral. Proibida reprodução sem autorização

*Matéria publicada originalmente em 22/08/2017

O Espírito Santo dá os primeiros passos para cultivar bambu Guadua no norte do Estado. As primeiras 300 mudas foram adquiridas pelo Mosteiro Zen Budista Morro da Vargem, de Ibiraçu, e estãosendo distribuídas entre os agricultores do município.

De origem amazônica, a variedade da gramínea vem sendo amplamente usada na construção civil em países como a Colômbia. Além disso, uma iniciativa conjunta entre poder público, empresariadoe a direção do mosteiro promete transformá-la em alternativa de renda e diversificação nas propriedades rurais nos próximos anos.

A ideia surgiu depois da participação do monge Daiju Bitti, abade do mosteiro, em um treinamento no Japão, onde a cultura do bambu é muito presente. Ele conta que os planos de fomentar ocultivo ganharam força após uma missão técnica em maio deste ano, na Colômbia, com a participação dele, do prefeito de Ibiraçu, Eduardo Marozzi Zanotti, e do vereador Weverton FerreiraTonon.

A convite da Universidade de Quindío, o grupo conheceu pesquisas na área tecnológica com destaque para o bambu Guadua na fabricação de supercondutores em substituição às baterias decelulares, além de obras públicas. A viagem incluiu também pequenas indústrias e laboratórios que testam a resistência do bambu na arquitetura e na engenharia.

“Na Colômbia vimos pontes, catedrais, escolas, pedágios e até edifícios com cinco andares feitos com o material. É o país onde o uso do bambu é mais avançado na construção civil, enquanto o Brasil carece de estudos e legislações adequadas ”, diz Daiju.

Numa comparação otimista para os capixabas, a Colômbia é o terceiro maior produtor mundial de café e a região onde tem bambu é a mesma das lavouras cafeeiras, a conhecida Zona Cafetera. “Lá, bambu e café estão misturados. O Espírito Santo é grande produtor de café como os colombianos, por isso podemos fazer a conjugação entre café e bambu sem nenhum conflito. ”

 

MAIS PRODUTIVIDADE

O bambu é uma cultura de rápido crescimento, permitindo obter a primeira colheita já no quinto ano, além de ser uma produção agrícola de baixo custo. Diferentemente das variedades maiscomuns no Estado, o Gadua não cresce em touceiras, possui cultivos mais isolados, que permitem trânsito entre os pés, cortes seletivos e produção maior por hectare.

“Não precisa de muito espaço na propriedade para plantar. Trata-se de uma variedade considerad a econômica, tem volume de massa maior que o eucalipto, com crescimento mais rápido, em cincoanos já dá para corte. E é uma cultura perene, não precisa de replantio. Além disso, a celulose do bambu vai ocupar um importante espaço no futuro ”, destaca.

A viabilidade do bambu enquanto alternativa econômica depende de um conjunto de fatores, avalia o coordenador de projetos da Gerência de Agroecologia e Produção Vegetal da Secretaria de Estado da Agricultura (Seag), Pedro Carvalho. Entretanto, é oportuno destacar que a viabilidade na produção não necessariamente significa a constituição de um mercado. “Questões como concentração de oferta, infraestrutura logística, existência de unidades de beneficiamento e, sobretudo, de demanda são variáveis que precisam ser equacionadas para atestar a viabilidade econômica da atividade ”, diz.

Para Carvalho, é necessário analisar a atividade numa perspectiva sistêmica, desde seu início na propriedade rural, passando por todas as atividades desenvolvidas até se chegar ao produtoacabado adquirido pelo consumidor final. “Cabe destacar ainda que toda a diversificação das propriedades rurais é bem-vinda, se entendermos que estamos vivendo um momento de transiçãoglobal de mercados, culturas, mitos e verdades e por fim, tendências. Não adianta se pensar num caminho mercadológico se não houver o risco de se reinventar e acreditar no novo. No caso dobambu não é diferente. Desde uma pegada ambiental até econômica, tudo é possível, desde que haja produção, empreendedorismo e visão sistêmica de futuro ”, conclui o pesquisador.

Ainda segundo Carvalho, a constituição de um mercado novo depende de um processo de intervenção na oferta e na demanda. “Pelo lado da oferta, é necessário estimular a produção em escalacomercial, a qual garanta volume e regularidade para oferta local. Pelo lado da demanda, é necessário mudar hábitos e levar os consumidores capixabas, tanto empresas quanto famílias acriarem o hábito de consumir e utilizar o bambu. ”

 

MUDANÇA DE PARADIGMA

A difusão do uso mais qualificado do bambu, começando pelas propriedades rurais, é um dos desafios da iniciativa em Ibiraçu. “Para nós, o bambu tem o uso muito rudimentar. Quando pensamos nele, é num chiqueirinho ou galinheiro provisórios ou fazer estacas para escorar plantios de tomate, chuchu e maracujá, nunca focamos seu uso permanente. Antes de começarmos a produção,precisamos primeiramente quebrar essa mentalidade que bambu é gambiarra e dar nova dimensão à sua utilização ”, avalia o monge Daiju.

A dica do monge é promover pequenas mudanças na rotina do produtor, principalmente na hora de criar estruturas para a produção agrícola. “Se o produtor vai fazer um galpão para encaixotartomate, já pensa logo em cortar eucalipto para fazer a estrutura. A ideia é ter um novo elemento como opção, que é o bambu, que estará ali, na sua área. Uma moita de bambu em qualquerpropriedade enfeita, é bonita. E a variedade Guadua é mais convidativa, não repele. ”

A busca por informações para sustentar o projeto no Estado continua neste ano. Em outubro, está prevista uma excursão para a sede do Instituto Jatobás, onde foram adquiridas as mudas. Acomitiva contará com os prefeitos de Ibiraçu, Montanha, Mucurici e Ponto Belo.

De acordo com o monge, a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) concentra plantios pioneiros do Guada no Brasil e mantém viveiros e um depósito que distribui bitolas devários tipos de bambu para utilização em projetos arquitetônicos. A própria sede do instituto foi construída com o material.

“O grupo pretende analisar a aplicação do bambu e a parte comercial do negócio. Trata-se de um projeto de médio e longo prazo. A madeira é um bem escasso e o eucalipto encontra problemasdependendo do tipo de solo. Por sua vez, o bambu funciona como proteção das encostas dos rios, um problema sério em terras capixabas, pois não temos matas ciliares. O bambu vai ocupar umespaço importante nas construções nos próximos vinte ou trinta anos, em substituição ao ferro e à madeira. Nós queremos estar na vanguarda disso ”, avalia Daiju Bitti.

Além das missões técnicas, a ideia é organizar seminários e grupos de estudos para envolver empresários, arquitetos, engenheiros e produtores rurais capixabas na iniciativa. “O período é dejuntar o máximo de informações para não parar com essa febre. Temos que colocar a coisa para fermentar naturalmente, não vamos trazer ilusões. O agricultor já vive muito sacrificado e estácansado de se iludir com tantas ondas de diversificação com promessa de renda. Não queremos passar por isso, o bambu depende do campo e sua implantação tem que seguir passo a passo. ”

 

ÂNIMO

O empresário e produtor rural Marcos Antônio Baptista, dono de uma serraria e marcenaria em Ibiraçu, aposta no desenvolvimento regional com a cultura do bambu. “Meu interesse em relação aoprojeto é mais uma alternativa de trabalho e fonte de renda. O bambu é matéria-prima para a fabricação de móveis e construção civil, mas também é opção para a própria edificação rural. Agente percebe a dificuldade dos produtores para construir galpões e outros similares com o longo tempo para colher eucalipto e o custo para tratá-lo. A cultura do bambu vem pararevolucionar essa realidade ”, afirma Baptista.

O secretário Municipal de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Meio Ambiente de Ibiraçu, Paulo Roberto Da Rós, promete acompanhar os resultados. “A iniciativa despertou muita curiosidadeentre os produtores rurais do município. O bambu é algo novo no Estado e pretendo detectar os produtores com interesse e providenciar mudas para começarem os plantios. ”

Membro da missão na Colômbia, o prefeito de Ibiraçu, Eduardo Zanotti, pretende incentivar o plantio do Guadua no município. “Nós temos que diversificar cada vez mais e gostaria de ver obambu produzir tão bem como na Colômbia. O bambu é mais uma opção de ganho para o agricultor e de suma importância para a preservação ambiental. A gramínea tem um papel muito importante,pois acumula água na época da chuva e durante a estiagem vai soltando essa água para sua própria produção ”, destaca.

O bispo emérito de Colatina e reitor do Santuário Diocesano Nossa Senhora da Saúde, em Ibiraçu, Dom Décio Sossai Zandonai, acompanha de perto a evolução do projeto. “Fiquei encantado com aproposta. Toda ideia inovadora vale a pena arriscar no sentido positivo da palavra, se não o agricultor fica sempre na mesmice”.

*LEIA A REPORTAGEM COMPLETA NA EDIÇÃO 27!

 

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos