Poder feminino na cafeicultura

Mais que colher e cuidar do café no terreiro, cafeicultoras de Iúna, no Caparaó, ampliam os conhecimentos sobre gestão da propriedade e passam a tratar a roça como empresa

Numa época em que “empoderamento feminino ” virou assunto recorrente numa sociedade onde ainda predominam acentuadas diferenças entre os sexos, as mulheres rurais rediscutem o seu papel nos negócios. Cada vez mais, elas saem do posto de coadjuvantes para assumirem o protagonismo da agricultura familiar em diferentes atividades.

Na zona rural de Iúna, no Caparaó capixaba, a cafeicultura de qualidade está transformando a comunidade de Fazenda Alegria, no distrito de Pequiá, a 30 km da sede do município. Para conquistar bons preços e aumentar o poder de argumentação junto aos compradores, mais que colher e cuidar do café no terreiro, as moradoras dedicam-se a ampliar os conhecimentos sobre gestão e se tornaram verdadeiras executivas de lavouras.

O terreiro, as plantações e as estufas deixaram de ser apenas o quintal de casa para virarem o escritório de 15 participantes do núcleo feminino ligado à Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Lajinha (Coocafé), com sede na cidade mineira de mesmo nome. Durante cinco anos, o grupo vai receber treinamento para profissionalizar e evoluir os negócios na cultura predominante da localidade.

O objetivo é dinamizar a rotina das propriedades cafeeiras, de modo que homem e mulher troquem
experiências e enxerguem as propriedades como empresas familiares. Nesse contexto, é importante o diálogo e a parceria, sem que ninguém leve os louros sozinho, conforme destaca a coordenadora socioambiental e responsável pelos quatro núcleos femininos da Coocafé, Cíntia Mesquita. “Hoje, a cafeicultura acontece com homem e mulher, um do lado do outro. Agora, ela senta com o marido e discute sobre café, os gastos e a administração da propriedade, esse é o lado mais prazeroso no núcleo ”, diz.

Segundo Cíntia, o núcleo da Fazenda Alegria começou há dois anos inspirado em iniciativas semelhantes no sul do Brasil. Ao focar na gestão das propriedades, a ideia é inserir as famílias na busca do desenvolvimento social. “Quando só os homens participavam dos eventos da cooperativa, tínhamos dificuldade de incluir a família, uma vez que eles compareciam sozinhos ou se ausentavam. Convidando as mulheres, elas trazem consigo maridos e filhos, que são parceiros agrícolas e contribuem para a organização da propriedade. ”

Os encontros são realizados quinzenalmente na Igreja Católica da comunidade e revelam vocações diversas. De acordo com a coordenadora, as muitas habilidades agregam ao projeto. “Há mulheres com mais aptidão para controles administrativos, análise sensorial, comunicação por meio das redes sociais, além da colheita e pós-colheita do café. Muitas tinham vergonha de falar em público e, hoje, têm mais facilidade. A vaidade também aflorou, isso é bom para a família e o companheirismo ”, avalia Cíntia.

Presidente do núcleo da Coocafé em Fazenda Alegria, a cafeicultora Onivercina Lourenço Assumpção Januário, de 48 anos (na foto principal no início desta reportagem), conta que sua vida mudou após a criação do grupo. “Nós saímos da ociosidade, e adotamos uma
visão diferente da cafeicultura. Nós estamos aprendendo a administrar a propriedade, que nada mais é que uma empresa, que vai existir de geração em geração. Na falta do marido, agora temos autonomia para gerir a propriedade. A mulher, querendo, pode se empoderar sim ”, diz.

Meio Ambiente

No papel de empresárias rurais, as mulheres do núcleo da Coocafé ainda tem uma caminhada de treinamentos previstos. Elas participaram de um workshop da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB/ Sescoop-ES) sobre gestão ambiental e dão os primeiros passos na questão da rastreabilidade do café.

No próximo semestre, ainda dentro do módulo de gestão de propriedades, o grupo inicia um curso de administração, de três meses, em parceria com algumas instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/ES) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

De acordo com Cíntia, a expectativa é que, na colheita de café de 2018, o grupo esteja mais alinhado e inicie o processo de conscientização ambiental dentro das propriedades. “As mulheres são o foco do desenvolvimento. Então, sua maior responsabilidade é abrir a porteira e verificar se está tudo em dia ”, destaca Cíntia Mesquita.

A proposta do núcleo é disseminar as informações para toda a comunidade, principalmente sobre meio ambiente. Segundo a coordenadora do núcleo, em Fazenda Alegria vivem 84 famílias, com pelo menos uma mulher em cada. “As mulheres do grupo
vão propagar todo o projeto para a comunidade. O sétimo princípio cooperativista, o interesse pela comunidade, é importantíssimo nesse projeto ”, destaca.

A presidente, Onivercina Assumpção, ressalta a importância de manter os focos social, econômico e ambiental juntos nas ações do núcleo feminino. Logo no primeiro ano de atividades, o grupo instalou contêineres em toda a localidade para resolver a coleta de lixo não-orgânico na localidade.

Segundo a presidente, a ideia agora é realizar projetos para conscientizar os moradores para preservação do córrego e construção de fossas sépticas. “Não é fácil, mas juntas conseguiremos. Muitos maridos eram contra e agora estão nos apoiando totalmente. Com união a gente consegue tudo. ”

No último dia 8 de abril, a Coocafé, em parceria com a Prefeitura de Iúna, o Instituto Terra, Idaf e Incaper, promoveu um Dia de Campo, com palestras e coleta de embalagens de agrotóxicos envolvendo dezenas de agricultores. Através dessas iniciativas, as mulheres mostram sua cara e transformam a Fazenda Alegria, fazendo jus ao nome, em um lugar mais alegre de viver.

Coopeavi cria novo núcleo feminino

Um novo núcleo feminino ligado à Cooperativa Agropecuária Centro-Serrana (Coopeavi) está em fase de formalização em Alto Jatibocas, na zona rural de Itarana, conhecida localidade produtora de café arábica. O grupo conta com 20 mulheres e tem como foco a cafeicultura de qualidade.

Desde dezembro passado, o grupo promove reuniões na Igreja Luterana local, e as participantes se mostram bem animadas com a possibilidade de se profissionalizarem no ramo em que já atuam ao lado dos pais, maridos e filhos.

É o caso da cafeicultora Leninha Herzog (36), que participou do 1º Workshop de Degustação de Café promovido pela Coopeavi, em abril. “O café é a renda principal da maioria do grupo, é o nosso forte. Nós queremos aperfeiçoamento na atividade para termos mais chances de agregar valor à produção ”, disse.

A bióloga da Coopeavi, MarcelaTakiguti, é responsável pela implantação e coordenação dos núcleos femininos da cooperativa. Com o núcleo de Alto Jatibocas, a Coopeavi soma quatro projetos ligados diretamente às mulheres. “As mulheres mantêm o bem-estar das famílias, e um dos parâmetros para atingir a sustentabilidade da agricultura familiar é o empoderamento delas. Se a mulher está feliz na propriedade, ela faz de tudo para manter o filho, não desanima o marido e tem mais vontade de ser agricultora e de estar à frente da propriedade e da atividade ”, avalia Marcela.

Ainda de acordo com a bióloga, por meio do resgate da autoestima com as atividades dos núcleos, a Coopeavi está conseguindo fazer com que as mulheres permaneçam no meio rural e se orgulhem de pertencerem ao agro. “Nós priorizamos locais onde existe vocação para liderança feminina e elas sejam bem ativas na propriedade. ”

A partir do grupo, a ideia é que as informações sejam compartilhadas com outras mulheres da região, de modo a tornar a cafeicultura uma atividade sustentável, com emprego e renda no meio rural.

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