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Rebanho blindado

Propriedade em Conceição do Castelo, na região serrana, é a única do Estado certificada como livre da brucelose e da tuberculose

por Leandro Fidelis

em 23/11/2023 às 0h00

6 min de leitura

Rebanho blindado

(*Foto: Leandro Fidelis/Imagem com direito autoral. Proibido reprodução sem autorização)

*Matéria publicada originalmente em 19/09/2018

A brucelose e a tuberculose são os principais males que acometem os rebanhos leiteiros no Espírito Santo e em todo o mundo. Além de comprometerem a lactação e a reprodução bovina, tem a gravidade dessas enfermidades para a saúde pública.

Na busca pela sanidade do plantel e pela valorização do leite, uma propriedade de Conceição do Castelo, na região serrana, é a única do Estado certificada como livre das doenças e com autonomia para comercializar animais sem a obrigatoriedade de exames exigida pelos órgãos competentes.

O pecuarista Sérgio Mareto (66) e o filho Serginho (37) criam 36 vacas de leite da raça holandesa às margens da Rodovia Pedro Cola (ES-166), na localidade de Taquarussu. Desde 1984 a família produz leite, mexerica ponkan e café em uma área de 10,5 hectares, sendo 3 ha dedicados ao curral.

Segundo Sérgio, o interesse pela certificação foi a preocupação com a saúde humana. “Vi em reportagens que beber leite na fase inicial ou final da vida garante mais imunidade para certas doenças. No homem, a brucelose é uma catástrofe e a tuberculose, embora doença comum no passado, vem registrando novos casos atualmente ”, conta o pecuarista.

A certificação foi concedida pelo Ministério da Agricultura (Mapa) em 2003. De acordo com Mareto, o investimento foi alto, mas compensou nos resultados. “Fazemos queijo para consumo próprio e bebemos leite, por isso queríamos um rebanho cem por cento saudável. Leite de qualidade saindo do curral é garantia lá na frente de um produto final de qualidade para o consumidor ”, completa Serginho.

Ao todo são 11 vacas em lactação, com produção diária de 340 litros de leite. O alimento é levado para o laticínio da Associação dos Agropecuaristas de Venda Nova (Aagrope). E por conta do diferencial, o laticínio paga R$ 0,02 por litro. “No mundo do leite dois centavos fazem a diferença ”, atesta Sérgio Mareto.

Desde 1986, a propriedade atua com inseminação artificial com aquisição de embriões para melhoramento genético. De acordo com Sérgio, o resultado é alta produtividade de leite. “As novilhas saem daqui produzindo 42 quilos de leite, enquanto as vacas apresentam média de 33,45 kg ”, diz.

Entidades ligadas à agropecuária divulgam a iniciativa dos pecuaristas como referência em todo o Estado. O técnico da Associação de Criadores e Produtores de Gado de Leite do Espírito Santo (ACPGLES), Joedson Scherrer, destaca o exemplo dos Mareto. “A propriedade é referência pela isenção da brucelose e tuberculose. A conquista da certificação é de suma importância para valorizar o leite do nosso Estado ”, analisa.

Cooperativa oferece exame de ultrassom para vacas

Os produtores de leite da Cooperativa Agrária Mista de Castelo (Cacal) contam com serviço de ultrassonografia para vacas. O exame permite diagnóstico de gestação e de doenças, além de garantir melhor planejamento da produção de leite.

A cooperativa disponibiliza dois médicos veterinários para o atendimento aos produtores e arca com 50% do custo. Segundo o veterinário Diogo Vivacqua, a ultrassom é uma ferramenta que ajuda a organizar o plantel produtivo. “A técnica é importante para agilizar edar confiança e certeza para saber quantos litros de leite serão produzidos mais adiante ”, afirma.

O exame ajuda a descobrir, por exemplo, se a vaca está prenha ou é “vazia ” (muito tempo sem gestação), além de detectar infecção uterina, problema ovariano, obstrução de tuba uterina ou do canal vaginal.

Além do diagnóstico gestacional convencional, a ultrassonografia pode ser utilizada para detectar gestação precoce. “Antes, por palpação manual, a gestação era confirmada com aproximadamente 45 dias. Agora com o uso do ultrassom, é possível descobrir com trinta dias. Isso favorece mudar a forma de manusear a vaca e melhorar sua alimentação, começando a tratar os problemas de saúde desde cedo ”, explica Vivacqua.

O veterinário exemplifica as vantagens com uma conta básica. “Se uma vaca produz dez litros de leite e me garante leite oito meses, me rendeu 2.400 litros. Se estiver vazia, são 2.400 litros a menos. Com o leite em torno de R$ 1, isso corresponde a R$ 2.400. Se você tem dez vacas no rebanho, a perda aumenta para R$ 24 mil ”.

O associado à Cacal Edson Galvão, de Castelo, solicita o exame todo mês para o rebanho e enumera os benefícios. “A gente ganha velocidade em diagnóstico e consegue diminuir os intervalos entre partos, um dos gargalos da pecuária. A ultrassom é uma das ferramentas que o produtor não pode abrir mão ”, diz.

A ultrassonografia também contribui na compra de animais. Se o pecuarista vai comprar animal do vizinho, chama o veterinário para realizar o exame e garante a compra de um animal realmente produtivo para sua fazenda.

“Quando o produtor coloca mais dinheiro no bolso, vai movimentar o comércio local, tudo por causa de uma simples tecnologia a sua disposição dele. Isso é bom para todo mundo: comércio, cooperativa, produtor e veterinário ”, avalia.

Capim-elefante: proteína barata para animais

Bons resultados com os experimentos da Embrapa Gado de Leite com o Capim-elefante em unidade demonstrativa em Mimoso do Sul, no sul do Estado. O vegetal se mostra mais produtivo e proteico em relação ao silo de milho na alimentação dos rebanhos do município.

Em abril deste ano, uma parceria entre o órgão federal, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e a Cooperativa de Laticínios de Mimoso do Sul (Colamisul) culminou na realização de um Dia de Campo com a participação de 248 produtores. O objetivo foi difundir duas cultivares do Campim-elefante, a BRS Capiaçu e a BRS Kurumi, resultado de anos de pesquisa.

A primeira cultivar apresentou alto rendimento para a produção de silagem de baixo custo, e a BRS Kurumi é alternativa para o uso forrageiro. Ao todo foram criadas quatro unidades de demonstração de mudas no Espírito Santo, em parceria com os produtores rurais.

“As tecnologias divulgadas pela Embrapa estão sendo utilizadas na rotina dos extensionistas, com destaque para o manejo dos pastos e a utilização de novas cultivares forrageiras, além do estímulo para a adoção de sistemas de ILPF, o uso do Gisleite e as práticas de manejo nutricional e sanitário do rebanho leiteiro ”, revelou, à época, o pesquisador Cláudio Nápolis.

O presidente da Colamisul, Silvio Belloti, anunciou a distribuição de mudas de Capim-elefante conforme a demanda dos associados. “É um capim que vai sustentar melhor o gado. Enquanto a silagem do milho é mais cara e tem que plantar o grão o ano todo, o Capim-elefante é proteína barata, tem mais produtividade e rebrota com mais facilidade. É a redenção da nossa pecuária ”, avalia.

(*Reportagem de capa da edição de agosto da Revista Safra ES)

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