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Plantar com fé eu vou

Cafeicultura e religiosidade caminham lado a lado na vida de alguns produtores capixabas e mineiros

Edson Costalonga afirma que viu a família prosperar após fincar crucifixo na lavoura de café. (*Fotos: Divulgação)

*Matéria publicada originalmente em 16 de outubro de 2020

Cafeicultores das regiões central e do Caparaó, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, demonstram devoção e religiosidade também nas suas atividades. Encontramos quem mantémcostumes cada vez mais fortalecidos no âmbito familiar, como fincar crucifixo na lavoura ou devotar fé a uma santa criada por cafeicultores paulistas.

Em Timbuí, distrito de Fundão, o engenheiro agrônomo e produtor rural Edson Costalonga (42) afirma que viu a família prosperar com intervenção divina. Muito católicos, ele, o pai e a mãe atuavam na pecuária leiteira em Presidente Kennedy, sul capixaba, mas “as coisas não estavam muito legais ”, conforme relata.

“Muitos animais morriam, coisas ruins aconteciam, e a gente não entendia bem o porquê ”, conta Costalonga.

Até um dia a família convidar um frei domingo de manhã para benzer a propriedade rural na expectativa de a situação melhorar. Segundo Edson, o religioso sugeriu construir um crucifixo para colocar no alto do morro na forma de cruzeiro.

“Ele disse: ‘se for da vontade de Deus, as coisas vão melhorar. Caso contrário, vendam a propriedade e levem o crucifixo para onde forem’. Passados uns meses, pouco mudou e adquirimos a fazenda em Timbuí ”, lembra o produtor.

A produção leiteira ficou pra trás e os Costalonga passaram a investir na cafeicultura na Fazenda Mundo Novo. Eles somam 11 anos na atividade e se tornaram referência em café conilon com as maiores médias de produtividade do Estado.

Não à toa, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) escolheu a propriedade para a comemoração dos 100 anos da espécie cafeeira em solo capixaba, em 2012.

De acordo com Edson, a mesma cruz benta pelo frei foi implantada no alto do morro que receberia a primeira lavoura de conilon na fazenda em Timbuí. O símbolo pode ser visto pelos motoristas que passam pela BR-101 Norte.

A fé só aumentou na família. “Nossa condição econômica prosperou muito com a mudança nos negócios ”.

O terreno onde ocorreu o primeiro plantio de conilon está sendo preparado para renovação da lavoura, mas o crucifixo se mantém de pé no seu topo. O objeto vai ganhar nova pintura, uma base de concreto e uma iluminação para sinalizar a fé da família também à noite.

“A nossa propriedade é muito próspera. E o crucifixo está lá para mostrar que a gente acredita em Deus ”.

Nossa Senhora do Café ganha devotos no Caparaó

Luana Emerick entre os pais: o dia 9 de agosto é dedicado à santa na casa da família.

Ela tem o manto da cor do café torrado e a túnica e o véu com a mesma coloração do grão cru. A descrição pertence à imagem de Nossa Senhora do Café, uma santa criada por um escultor de São Paulo que vem se popularizando entre cafeicultores católicos de diferentes regiões produtoras do Brasil, entre elas o Caparaó.

A produtora Luana Emerick (26), do Sítio Palmeiras Emerick, em Martins Soares (MG) conheceu a imagem por meio do pároco da cidade, o padre Silas. Ela conta que buscou conhecer a história devido ao “amor por Maria Mãe de Deus ”, uma vez que a família é bastante católica.

“Descobri que a devoção à Nossa Senhora do Café no Brasil se deu pela dificuldade do setor cafeeiro no Estado de São Paulo. Desde que descobrimos a história, tentamos comprar uma imagem para o sítio para abençoar e proteger nossas lavouras, nossa família e nossos pequenos lotes de cafés especiais ”, diz Luana.

Luana comprou a imagem no ano passado e preparou um altar improvisado na varanda da casa. Desde então, o 9 de agosto se tornou o dia dedicado à Nossa Senhora do Café.

“Reunimos a família e os amigos para rezar o terço em agradecimento pela colheita do ano e pedimos bençãos e proteção para a colheita do ano seguinte. Nós queremos que o terço se torne tradição aqui no sítio e que a história e a devoção à Nossa Senhora do Café se propaguem entre os cafeicultores da região, pois ela ainda é pouco conhecida ”, afirma a cafeicultora.

Ainda neste ano, os Emerick vão construir uma pequena capela em homenagem à santa na propriedade.

Carinho

Também no entorno do Pico da Bandeira, o administrador e cafeicultor Lanucio Rodrigues (43), do Sítio Vale do Paraíso, na comunidade de Paraíso, em Espera Feliz (MG), se apegou na fé em Nossa Senhora do Café para, juntamente com a mulher e os filhos, superar a morte do sogro, José Antônio Mendes, o “Toninho ”, em janeiro deste ano.

A produção de café na propriedade ocorre há mais de 50 anos na família da mulher, Tanimar (39), da terceira geração de produtores. Em 2015, o casal começou a produzir cafés especiais e criou as marcas “Café Sabores do Caparaó ” e “Café Vale do Paraíso ”, além de venderem diretamente para cafeterias. Os cafezais estão a altitudes que variam entre 1.050m e 1.165 metros.

De acordo com Lanucio, a família sempre foi devota de Nossa Senhora de Fátima e Santa Rita, mas com o início de uma nova fase de produção no sítio, surgiu o carinho por Nossa Senhora do Café.

Lanucio entre a mulher, Tanimar (39) e o filho caçula, Otávio (13).

 

Um fato inesperado aconteceu no dia que a imagem chegou, em outubro de 2019.

“Vi que a imagem estava partida ao meio. Porém, eu e meu sogro Toninho a recuperamos, pois o que valia para nossa família era a devoção, e não uma imagem linda sem defeito. As nossas vidas não são perfeitas. Precisamos sempre de consertos e reparos e, algumas vezes, que amigos e parentes unam os nossos pedaços ”, diz Lanucio.

Ele compara uma escultura em pedaços ao sentimento vivido pela família no início deste ano. A morte do sogro deixou os agricultores abalados, “quebrados ”, como diz Lanucio.

“Precisamos mais ainda da intercessão de Nossa Senhora e é graças à fé nela e o amparo dos amigos que estamos conseguindo voltar à normalidade e a produzir excelentes cafés, o que muito nos orgulha ”, conclui o cafeicultor.

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos