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*Matéria publicada originalmente em 31/01/2020
O município de Ibitirama é um dos dez maiores produtores de café arábica do Espírito Santo, com 4,06% da safra, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É dessa terra de cachoeiras famosas, como a Pedra Roxa, que se tem a melhor visão do Pico da Bandeira, no Parque Nacional do Caparaó. Em dias claros, é possível ver até o cruzeiro no alto da terceira montanha mais alta do país.
O nome Ibitirama quer dizer, na língua tupi, “Montanha Promissora ”. O significado faz jus à história do passado e do presente do lugar. No século passado, Ibitirama foi um verdadeiro laboratório a céu aberto para pesquisas sobre variedades raras de café como o Caturra e o Mundo Novo. O município entrou para a literatura acadêmica agronômica mundial por contar com cultivos não-verificados em outras partes do planeta.
Quem nos conta uma das versões é o produtor, agrônomo e professor universitário Lima Deleon Martins (31). Ele descende da família Oggioni, de origem italiana, a primeira a produzir cafés especiais em Ibitirama a partir de 2015. Em duas fazendas, os proprietários contam com quase 500 mil pés de café e 65 funcionários. A produção prevista para 2020 é de 4.000 sacas, sendo 20% de grãos despolpados.
O bisavô de Deleon, o italiano Joanito Oggioni, conhecido como “Pai Velho ”, foi um benfeitor na região. Segundo o produtor, ele foi o responsável em trazer o Banco do Estado ao Caparaó, emprestando o prédio ainda pertencente à família para a abertura da primeira agência da região. O imigrante conseguiu driblar a fiscalização do governo no pós-guerra para persistir na cafeicultura.

“O Banco do Brasil da época pagou os produtores para erradicarem as lavouras de café. Como meu bisa já tinha muitas terras, pegou um aporte maior do governo, plantou e cuidou mais do que tinha, transformando duas propriedades numa potência, porque não tinha mais café em Ibitirama ”, conta Lima.
O procedimento foi uma fraude, por isso os fiscais acabaram chegando às terras dos Oggioni. Como o cafeicultor não tinha como devolver o dinheiro, uma vez que se tratava de fundo perdido, a contrapartida foi receber os técnicos do extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC) e dar-lhes condições de realizarem experimentos nas fazendas.
Nos quatro anos seguintes à erradicação, o cenário da cafeicultura nacional mudou e passou a faltar café no mercado. Na década de 1950, as propriedades da família Oggioni viraram Estação Experimental com o trânsito constante dos pesquisadores do IBC, que rodavam a região de Fusca e Jipe. Foi neste período que, segundo Lima, pelo menos 20 variedades inéditas foram identificadas pelos estudiosos, dentre elas a Mundo Novo, na Bacia do Rio São Lourenço.
A variedade apresenta genótipo de porte alto e foi referenciada no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), embora o registro cite apenas o Espírito Santo como local.
“O grande ganho de Ibitirama foi ter sido o berço do melhoramento dessas cultivares. Algumas não evoluíram a ponto de chegar ao mercado, ficaram só na experimentação em campo, enquanto outras foram recuperadas e algumas perdidas ”.
A Eva do Catuaí
Outra descoberta na época foi a da variedade Caturra, considerada a “gênese ” de muitas cultivares atualmente no mercado, a exemplo de todos os Catuaí e do Catucaí. Dentre as variedades mais comuns na época, a Caturra tinha porte mais baixo e apresentava alta produtividade.
A história é contada em detalhes pela família Carvalho. O cafeicultor Washington Hildebrando (45) conta que a família, originária de Guaçuí, chegou a Ibitirama em 1946. O avô do produtor, Joaquim Hildebrando de Carvalho, foi quem levou a Caturra para a propriedade, até então dominada por cafés carolinos, de porte gigantesco.
A existência da variedade foi publicada na forma de artigo em 1949, no volume nº 9 do boletim técnico do IAC, mas não sabe-se por que o estudioso cita como sendo Siqueira Campos o nome da localidade. Uma cópia da publicação está emoldurada na sala de provas no quintal da propriedade, em São José do Caparaó, a 8 km do centro de Ibitirama.

O sítio mantém até hoje uma lavoura de Caturra numa área de cinco hectares. “Gosto da variedade porque é super precoce. Muitos produtores não gostam porque produz muito e requer cuidados especiais ”, diz Washington.
Apesar de a variedade não ser indicada atualmente pelos técnicos, a Caturra marcou a história da cafeicultura.
“Ela foi responsável pela revolução mundial, fazendo predominar o porte baixo das plantas e originando o café Catuaí, dentre outros. É um marco da mudança da cafeicultura mundial, reverenciada pelos profissionais da IAC ”, destaca o coordenador do escritório do Incaper local, Aristodemos de Paiva Hassem.
Ouça entrevista com Washington:

Novas gerações conectadas com o mundo da qualidade
Os Carvalho mantêm viva a história do Caturra ao produzir um café torrado e moído sob encomenda com o nome da cultivar. Comercializado em embalagem de 250g, o café apresenta notas de frutas amarelas, chocolate amargo, caramelo, mel e finalização cítrica.
E de onde vem esse conhecimento todo? Se Ibitirama é uma “Montanha Promissora ”, os descendentes das primeiras famílias do município estão levando isso a sério, trilhando um caminho de sucesso na produção de cafés de qualidade.
Juntamente com o filho Ériclis (23) e a nora, Samara dos Santos (20), Washington administra o “Café Carvalho ”. A família começou a despolpar para tentar valorizar mais o produto e, há cerca de um ano, lançou a marca de grãos torrados e moídos vendidos em supermercados da região, cafeterias da capital e pela Internet. A microtorrefadora ocupa uma antiga construção da fazenda, anexa às salas de prova e processamento.
Antes de iniciar os negócios, o trio visitou propriedades em Brejetuba e Venda Nova do Imigrante e participou de cursos de torra e degustação na Caparaó Jr., empresa jú,nior do Ifes de Alegre. “Tudo é possível. Basta correr atrás e se dedicar. Estrutura a gente tem que montar, mas a mudança maior é na cabeça ”, afirma Washington.
A transformação da família com relação à cafeicultura foi radical. Ériclis e a mulher nem tomavam café antes de participar dos cursos.
",Descobri coisas que nem imaginava e me apaixonei. Sou mulher e sei do capricho necessário para obter cafés de qualidade ”, diz Samara.

Apesar do pouco tempo no mercado, os nanolotes de café dos Carvalho já chegaram à China, Austrália e Canadá. “Os compradores descobrem nosso café pelo Instagram e gostam muito das notas de castanha e melado intenso da bebida ”, conta Ériclis. Os próximos passos da família serão a instalação de uma estufa e a abertura de uma cafeteria para receber os apreciadores de café.
O mercado de qualidade também despertou o interesse de Lima Deleon, da família Oggioni. Em 2015, o agrônomo fez doutorado e pós-doutorado em Portugal e um amigo pesquisador o levou para visitar uma torrefação em Lisboa. Para sua surpresa, o proprietário disse que conheceu Ibitirama em visita ao Brasil. “Ele me pediu uma amostra para experimentar e passou a comprar nosso café ”, conta.
Segundo o agrônomo e produtor, o pulo do gato foi quando o clube de assinatura “Have a Coffee ” (que você conheceu na reportagem especial da edição 38) comprou um microlote da família e passou a divulgar a história em embalagens e nas redes sociais. Os grãos, verdes ou torrados com a marca “Sítio Terra Alta ”, já foram parar na Holanda, Estados Unidos, Portugal, Dinamarca e Austrália. Os produtores também atendem a Nestlé e fornecem para uma franquia de cafeterias só presente em aeroportos.
Para Lima, o diferencial está na possibilidade de utilizar variadas cultivares presentes nas lavouras da família como base dos cafés “Sítio Terra Alta ”. “Os microlotes de grãos especiais chegam a oitenta sacas, dependendo do ano. Com facilidade já alcançamos 92 pontos, com notas frutadas, achocolatadas e florais ”.
Qualidade desperta família para o futuro na roça
Na localidade de Córrego Dantas, zona rural de Ibitirama, o casal Luzia Rodrigues Moreira Alves (41) e Pedro Alves da Silva (42) é calouro na arte de produzir cafés de qualidade. No entanto, os produtores surpreenderam logo no primeiro ano nesta atividade. Em 2019, eles conquistaram a segunda colocação no Concurso Municipal de Qualidade. Foi o estalo que precisavam para não venderem a propriedade e viabilizar o futuro dos filhos.
A produção começou em maio do ano passado sem muita estrutura com a colheita entre junho e novembro. Pedro relata que comprou a propriedade quando ainda era solteiro, dedicando 3 hectares para o café arábica. Nos ú,ltimos anos, com o preço do café cada vez mais baixo e o custo de produção só aumentando, o produtor ficou muito desanimado. Há dois anos, Pedro e o irmão, que é vizinho, pensaram até em vender as propriedades e morar na cidade.
Foi um primo que sugeriu a Pedro tentar o mercado de cafés especiais. Sem muita experiência, o casal usou as ferramentas que tinha para começar. Passou a fazer colheita seletiva, a lavar os grãos e tirar os boia, utilizando a estufa provisória com dois terreiros suspensos.

O ritual é seguido à risca diariamente em período de safra. Os filhos Francielle (17) e Pedro Arthur (10) chegam da escola e ajudam na cata a dedo. “O que dá mais trabalho é lidar com o clima frio da região, porque o café corre o risco de mofar. A benção é que chove muito e atrasa a maturação dos grãos ”, diz Pedro.
No ano passado, os produtores levaram a primeira cata para um especialista, que os orientou sobre medir temperatura e recomendou a inscrição no concurso. A ú,nica saca inscrita obteve 87,4 pontos na análise sensorial dos jurados e foi arrematada por R$ 1.500,00.
“Quando soubemos que nosso café ia para a mesa de prova foi uma surpresa muito grande. A gente está pegando ritmo com o tempo e sempre aprendendo algo novo. O café especial acaba sendo mais fácil de colher que o rio ”, afirma Luzia.
O entusiasmo é nítido na família. Pedro e Luzia pretendem conhecer mais produtores no mercado de qualidade para abrir novos caminhos, além de vislumbrar a continuidade dos negócios com o casal de filhos. Este ano, vão melhorar a estrutura da estufa e colher mais.
“O povo tem medo de dar a cara a tapa e acomodou com o café rio ”, analisa Pedro. “Nosso objetivo é melhorar a qualidade todo ano e mostrar aos vizinhos que é possível. Muitas pessoas viram onde chegamos e vão começar a produzir cafés de qualidade este ano ”, completa Luzia.





