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Instituto das montanhas do ES é destaque mundial em pesquisas com café

Prestes a completar sua primeira década, campus do Instituto Federal do Espírito Santo, em Venda Nova do Imigrante, se destaca em nível internacional pelos estudos sobre pós-colheita

Equipe de bolsistas junto com o professor Lucas Pereira (de óculos). (*Fotos: Leandro Fidelis)

*Matéria publicada originalmente em 24/07/2019*

No terreno onde antes havia uma imensa lavoura de café arábica, em Venda Nova do Imigrante, região serrana do Espírito Santo, funciona atualmente uma unidade que é referência internacional em processos de pós-colheita do grão. O Laboratório de Análises e Pesquisas é a menina dos olhosdo campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes), prestes a completar uma década em 2020. Além de beneficiarem os cafeicultores da região, os projetos desenvolvidos na unidade trazem novas perspectivas profissionais para jovens filhos de produtores e os colocam em contato com profissionais de todo o mundo.

A instituição de ensino médio, técnico, superior e pós-graduação descobriu a vocação para estudos na área de cafés especiais há seis anos. Graças à iniciativa, centenas de cafeicultores de norte a sul do Estado são beneficiados e estão melhorando a qualidade dos seus grãos para agregação de valor no mercado. Mais de 600 famílias já foram atendidas, sendo 350 só neste ano.

Elas participam de cursos, onde aprendem a provar o próprio café e têm acesso a mercados inimagináveis antes da chegada do Instituto à cidade, de cerca de 25 mil moradores.

“A meta é transferir tecnologias sustentáveis para as famílias ”, afirma o professor Lucas Pereira, coordenador do laboratório juntamente com o professor Aldemar Moreli.

Sede administrativa do campus.

A fase após o café ser colhido inclui novas formas de secagem, preparo da bebida, diversidade das curvas de torra e fermentação e uma metodologia de análise sensorial que prioriza bebidas acima de 80 pontos.

De acordo com Lucas, os projetos abrangem desde a produção até o consumo de cafés, com resultados não só para a comunidade científica, como para as indústrias, produtores e consumidor final.

Dentre as tecnologias desenvolvidas, duas patentes ligadas a processos de fermentação estão em curso e outras três serão registradas em breve junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

 

Uma delas é a de um torrador de café portátil para uso doméstico. O equipamento vai operar através de aplicativo para smartfones e promete acessibilidade em termos de custos.

Outra iniciativa é a montagem de uma cafeteria modelo no Ifes, em convênio com a Um Coffee (SP). A empresa vai fornecer máquinas e treinar os alunos do Instituto.

Em 2018, a iniciativa do Ifes Venda Nova ficou em primeiro lugar entre aquelas exibidas na Tenda Tecnológica da Reunião dos Dirigentes das Instituições Federais de Educação Profissional e Tecnológica (Reditec). Com isso, foi também apresentada no estande da Rede Federal no Congresso da Federação Mundial de Colleges e Politécnicos (WFCP, na sigla em inglês), realizado em outubro de 2018 em Melbourne, na Austrália.

O professor do Ifes Venda Nova, Lucas Pereira, é o idealizador do Laboratório de Análises e Pesquisas em Pós-colheita de Café.

Escola de provadores

O laboratório conta com 14 bolsistas. A maioria tem o certificado “Q-Grader ”, uma licença internacional que habilita para provar cafés em todo o planeta, a partir de uma metodologia padronizada e com validade internacional. O grupo já participou de eventos na Austrália, Rússia e Colômbia.

Em junho, cinco estudantes participaram do “Cocoa, Coffee na Tea Congress ” (Congresso Internacional de Café, Chá e Cacau), em Berlim (Alemanha), para apresentar sete trabalhos desenvolvidos na unidade.

Uma delas é Danieli Debona, do 5º período de Administração, moradora deUbá, zona rural de Castelo, no sul do Estado, e filha de produtores. Interessada em torrefação, ela afirma ter aproveitado a oportunidade de atuar no laboratório para auxiliar a produção da família.

 

Danieli Debona descobriu uma nova realidade na cafeicultura depois de ingressar no Ifes.

A aplicabilidade na prática das pesquisas do Ifes Venda Nova é o grande trunfo da instituição, opina o diretor geral do campus, Aloísio Carnielli.

“Todas as pesquisas dos institutos federais são aplicadas e têm que obter resultados ”, diz. Segundo ele, isto promove maior aproximação com a comunidade externa ao campus. “Tivemos grande avanço na área do café, inclusive com o Conilon, mas também mantemos projetos sociais e ambientais ”.

Filho da terra, Aloísio Carnielli vem de uma família de cafeicultores e é o diretor geral do Ifes Venda Nova.

A partir das experiências, o professor Lucas Pereira visualiza o surgimento de uma geração de cafeicultores com nova mentalidade.

“É o produtor que não é dono de um parque cafeeiro grande, mas de propriedade de pequeno porte que vai produzir pequenos lotes, trabalhar menos e ganhar mais em um mercado único que requer relacionamento ”, ressalta.

Nota máxima

O curso superior de Ciência e Tecnologia de Alimentos é de onde vem a maior parte dos estudantes ligados ao laboratório. A graduação recebeu nota cinco (a mais alta) na avaliação do Ministério da Educação (MEC) em 2018, quando formou sua primeira turma, e é uma das sete na área ofertadas em todo o Brasil.

Na reta final do curso, Dério Brioschi Júnior se encontrou na pesquisa de cafés especiais. O jovem partiu recentemente para interc&acirc,mbio nos Estados Unidos onde pretende ampliar os horizontes.

“No Ifes, consegui ver futuro na cafeicultura, sem precisar sair para estudar, e me encantei pela profissão. Foi onde aprendi essa expertise e pude fazer diferença na propriedade da minha família e na minha carreira. Dificilmente conseguiria algo da natureza deste interc&acirc,mbio se não fosse minha passagem pelo Instituto ”, diz o jovem.

 

 

João Paulo Marcarte atua no setor de degustação de cafés especiais.

O colega de pesquisasGustavo Falquetoconsidera relevante a oportunidade de conviver com mestres e doutores no ambiente acadêmico.

Interc&acirc,mbio

Baristas e compradores estrangeiros chegam ao campus com frequência para trocar informações. Este ano, o Laboratório de Análises e Pesquisas em Pós-Colheita de Café recebeu dois japoneses e, em setembro, espera uma barista russa para interc&acirc,mbio de três meses. Ela está à frente de uma pesquisa em cafeicultura pela Universidade Estadual Agrária de Moscou.

A cooperação técnica abrange ainda profissionais da China e dos Estados Unidos.

“A unidade entrou no radar mundial e talvez seja mais conhecida lá fora que no próprio Brasil ”, observa o professor Lucas.

 

Apoio de cooperativa

O corte de quase R$ 8 milhões no orçamento para as pesquisas científicas, anunciado no final de março pelo governo federal, foi uma péssima notícia para institutos e universidades federais do país. A produção científica brasileira ficou comprometida, a exemplo de avançados estudos para o enfrentamento de epidemias. Com a falta de dinheiro, muitos estudantes de pós-graduação terão que abandonar os estudos.

No campus do Ifes Venda Nova, a luz no fim do túnel acendeu graças ao cooperativismo. Há dois anos, o Sicoob Sul Serrano se tornou o principal apoiador dos projetos do laboratório da instituição. A parceria com uma cooperativa financeira é considerada inédita no Brasil.

A ponte com o Sicoob começou em 2017 no “Cup Of Excellence ”, o principal concurso para cafés especiais do mundo, que reuniu no Ifes degustadores nacionais e internacionais e cafeicultores das principais regiões produtoras do país. Ali foi o primeiro passo para o convênio de três anos com a cooperativa.

O Sicoob fomenta recursos para pesquisas que possam melhorar a qualidade e agregar valor ao café, além do desenvolvimento de tecnologias a serem absorvidas pelo setor produtivo.

Para o professor e coordenador do laboratório, Lucas Pereira, um agente financeiro investindo em pesquisas acadêmicas é de extrema import&acirc,ncia para a educação, considerando o cenário de contingenciamento da máquina pública.

“São muito comuns pesquisas desenvolvidas em conjunto com agentes dos setores público e privado. Entretanto, esse modelo com o Sicoob não é comum, é inédito, e mostra mais uma vez o pioneirismo e vocação da região serrana do Espírito Santo no associativismo e cooperativismo no sentido de desenvolver projetos em conjunto ”, enfatiza Fonseca.

Por sua vez, o Sicoob Sul Serrano se mostra aberto a novos projetos de outros campi do Ifes, desde que alinhados com o viés dos cafés especiais. De acordo com o presidente, Cleto Venturim, a cooperativa enxerga estar propiciando aos cafeicultores atuar na atividade de forma mais prazerosa, o que também os aproxima do Sicoob.

“A proximidade que queremos com nosso sócio é fazê-lo encontrar felicidade naquilo que faz, ficar satisfeito e compartilhar seus conhecimentos. A produção de microlotes de grãos especiais pode ser o começo. Que isso ocorra através da escola ”, finaliza.

Cleto Venturim, presidente do Sicoob Sul Serrano. (*Foto: Wanda Ferrera/Jean Davies)

 

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos