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Crise do gengibre faz nascer nova cooperativa de produtores nas Montanhas do ES

Foco em sustentabilidade, gengibre in natura para exportação e na valorização da agricultura familiar, a CoopGinger reúne 50 cooperados

(*Fotos: Leandro Fidelis- Imagens com direito autoral. Proibida reprodução sem autorização)

*Matéria originalmente publicada em 30/08/2022

O gengibre está sempre sujeito às oscilações do mercado. No Estado maior produtor brasileiro e maior exportador mundial, 2020 foi um ano positivo, seguido de outro nem tanto. No ano passado, a alta dos insumos e do frete impactou o comércio da raiz na região produtora compreendida entre Domingos Martins, Santa Leopoldina e Santa Maria de Jetibá, que concentra 80% da produção nacional e onde a caixa já chegou a ser vendida a R$ 150.

Atualmente, o agricultor está praticamente pagando para trabalhar. Enquanto o preço da caixa de aproximadamente 14 kg é de R$ 20 a R$ 25 (contra os R$ 100 em 2021), o custo de produção fica entre R$ 35 a R$ 40. E devido ao baixo consumo interno, a saída é o comércio internacional da raiz. No entanto, os pedidos, antes de dez a 15 contêineres, minguaram a no máximo três e só foram realizados a partir de maio. Até agosto, a exportação reduziu mais que a metade, ao mesmo tempo em que a produção aumentou.

É nesse contexto que surge, em novembro, a Cooperativa dos Produtores de Gengibre da Região Serrana do Espírito Santo (CoopGinger). Com foco em sustentabilidade e na valorização da agricultura familiar, a jovem entidade reúne 50 cooperados, que produzem 400 toneladas por mês. Apesar da crise mundial- reflexo da guerra na Ucrânia e também da pandemia-, o grupo continua de mãos dadas na busca por melhores condições de vida e trabalho.

A primeira reunião da CoopGiner ocorreu em julho de 2021. Em setembro, 33 sócios-fundadores realizaram a assembleia de constituição da cooperativa, com sede em Caramuru de Baixo, zona rural de Santa Leopoldina. Dois meses depois, a CoopGinger se tornaria pessoa jurídica para atuar num mercado que, em 2020, gerou fluxo financeiro de R$ 47 milhões na sua região de atuação.

“Ansiamos que esse mercado melhore e a gente consiga comercializar logo. Com a crise mundial, o produtor não está tendo o retorno necessário para investir no plantio”, declara Leonarda Plaster, primeira presidente eleita da cooperativa, otimista com a mudança de cenário nos próximos dez meses.

Mesmo com todos os desafios dos primeiros meses de atuação da CoopGinger, o grupo está otimista com a possibilidade de dias melhores e busca fortalecer a união pelo sucesso da cooperativa.

Desde os primeiros encontros, a CoopGinger contou com a assessoria do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e da União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes). Os sócios foram instruídos sobre o cooperativismo e gestão por meio de cursos de capacitação. Para muitos, foi o primeiro contato com o movimento econômico e social baseado na doutrina da colaboração.

“Na região tem a cooperativa de crédito (Sicoob), mas não de produtores. Agora, nossos cooperados estão conhecendo, se familiarizando e gostando da ideia. Eu mesma não sabia todos os benefícios do cooperativismo, de unir forças, como estou conhecendo agora. E vejo a quantidade de vantagens de trabalhar juntos”, diz Leonarda Plaster.

Produtora e advogada, Leonarda recorreu a todos os elementos para respaldar a recém-formada cooperativa e gerar credibilidade junto ao mercado para, consequentemente, firmar contratos. O carro-chefe da CoopGinger é o gengibre, mas a entidade está apta a atuar no comércio de outros produtos agrícolas. “Contamos com assessorias contábil, jurídica e de logística e exportação, bem como com parcerias no mercado interno e no exterior. Temos contato e apoio direto do Ministério de Agricultura, que está nos auxiliando para começarmos a exportar gengibre”.

Logística inviável 

Em regra, a exportação do gengibre para Estados Unidos e Europa é feita através de contêineres refrigerados. O porto mais próximo é o de Sepetiba, no Rio de Janeiro. Depois, outras opções seriam os portos de Santos ou Salvador, porém o custo com a logística torna inviável quaisquer transações no momento.

De acordo com Leonarda Plaster, não foi somente o valor do frete marítimo que aumentou, mas principalmente o do frete rodoviário no Brasil. O alto custo para escoamento do produto fez os agricultores buscarem outras alternativas de renda na propriedade. Muitos adiaram a colheita da raiz e optaram por outras culturas, como cará, inhame, açafrão e batata-doce.

“Estamos sem chances de competir com o mercado internacional. O custo da logística no processo de exportação aumentou de forma excessiva, principalmente o frete rodoviário no país. O gengibre é um produto da economia estadual. Se tivéssemos apoio do governo através de políticas públicas, facilitaria um pouco essa questão”, relata.

A alta do frete também afetou a exportação do baby ginger, um gengibre de formato menor só produzido de janeiro a março. Por ser perecível, o baby ginger só pode ser transportado por via aérea.

Outro ponto fundamental para a cadeia do gengibre funcionar é o escoamento local do produto no meio rural. Para Leonarda, a solução seriam a pavimentação e a manutenção das estradas para melhorar o acesso tanto para o recolhimento do produto nas propriedades como também e, principalmente, aos contêineres nos packing house.

“Temos localidades onde não é possível a chegada do contêiner para retirada do gengibre. Sem contar as dificuldades do processo no trânsito local, mais precisamente no Centro de Santa Leopoldina, com vias estreitas e não estruturadas para o fluxo desses veículos em sentidos opostos. Em um trecho de aproximadamente 300 a 400 metros, às vezes temos atraso de horas até a liberação do fluxo do trânsito”.

Leonarda Plaster é uma das três mulheres atualmente à frente de cooperativas agro no Estado.

*Continua nesta terça-feira (30)

Sobre o autor Leandro Fidelis Formado em Comunicação Social desde 2004, Leandro Fidelis é um jornalista com forte especialização no agronegócio, no cooperativismo e na cobertura aprofundada do interior capixaba. Sua trajetória é marcada pela excelência e reconhecimento, acumulando mais de 25 prêmios de jornalismo, incluindo a conquista inédita do IFAJ Star Prize 2025 para um jornalista agro brasileiro. Com experiência versátil, ele construiu sua carreira atuando em diferentes plataformas, como redações tradicionais, rádio, além de desempenhar funções estratégicas em assessoria de imprensa e projetos de comunicação pública e institucional. Ver mais conteúdos